Renan Medeiros e a incrível arte do perigo

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Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar perguntando: Por mais profissionais que sejam os dublês também estão predispostos a sofrer acidentes graves, o que pode resultar em mortes como foi o caso de Kun Liu (No filme Mercenários 2), Harry O'Connor (Triplo X) e mais recentemente a morte do ator/dublê John Bernecker da série de terror The Walking Dead, Quando você lê tais notícias sente algum medo também ou são ossos do ofício?

Renan Medeiros: Nós dublês corremos o risco que há em qualquer outra profissão, acidentes acontecem mas casos de lesões graves ou morte são quase raras, quando soube da morte de John Bernecker, fui encontrar alguma notícia aprofundada do caso, e descobri que havia sido um acidente fora de cena, num ensaio antes da filmagem, houve falha humana, não havia ninguém no limite do espaço para evitar que alguém ultrapassasse, caindo, eu procuro aprender com estes casos e ficar de olho nos detalhes, estes casos não me provocam medo, mas me estimulam a cautela.

Como é a profissão de dublê no Brasil? Para você o que poderia melhorar?

É importante saber que apesar de conhecida a profissão não é reconhecida, no rio existe o DRT de dublê cinematográfico mas apenas lá, na esfera nacional não temos direitos garantidos, não é raro entrar num set e ficar deslocado, as pessoas não sabem como tratar o dublê, por vezes já fui tratado com certo desrespeito por parte da equipe de produção, não é raro termos os últimos 15 minutos de luz do dia pra preparar as cenas de ação, as vezes mais de uma, o mercado tem melhorado muito nos últimos anos mas entendo que o respeito ao dublê profissional ainda pode melhorar muito.

O dublê é conhecido popularmente por ser o homem sem medo, afinal, vocês sentem medo antes de alguma cena perigosa ou vai se acostumando conforme o tempo de profissão vai passando? Para você essa alcunha popular de serem "Homens sem medo" atrapalha em algo na profissão?

Como diria Jackie Chan: "é claro que eu sinto medo, não sou o super-homem!"

Nesta profissão, como na policia ou bombeiros, o medo é o nosso medidor de capacidade, se não está mentalmente preparado para algo eu sempre recomendo a não fazer, a chance de travar numa situação dessas é de 99,9% e quando isso acontece podem haver acidentes....graves!

Antes de uma cena é importante analisar tudo, dentro e fora, o medo está sempre lá, não é um inimigo difícil de vencer, quando for, peça que outro faça a cena, não acho ruim sermos chamados de super-homens, em parte somos um pouco (risos), mas o elogio deve ficar bem longe da realidade pessoal e psicológica de um dublê.

O quão preparado psicologicamente alguém que queira trabalhar nessa área cheia de adrenalina deve estar? Já aconteceu algum caso do lado "SuperMan" do dublê falar mais alto?

Tem que saber lidar com a adrenalina, a nossa sobe muito e precisa ser controlada, não se faz nada na empolgação neste negócio, nunca presenciei ninguém querendo ir mais longe do que deveria num set, espero continuar assim.

Além do preparo físico (Que com certeza é elevado) há também alguma preparação psicológica com profissionais da saúde mental?

Geralmente o treinamento cria as condições psicológicas favoráveis de um dublê, não conheço nenhum que tenha passado por este tipo de preparo.

Qual a cena mais perigosa que você já fez? E qual foi a mais incrível na sua percepção?

Certa vez fui fazer algo simples, uma cena de tiro, para a série Carcereiros, eu seria metralhado num posto de gasolina, a equipe de efeitos montou a espuleta (bomba de sangue) no meu peito mas creio que exageraram um pouco na pólvora, a carga era suficiente para estourar uma porta, ao final da cena ganhei uma pequena queimadura no peito, mas de acordo com o coordenador de efeitos podia ter sido pior.

A cena mais legal foi em um projeto particular, uma super cena de luta que fiz ao lado do teatro municipal de São Paulo, o nome do curta é PUNHOS E LEIS é possível ver omaking of na minha página do Facebook.

Você costuma assistir filmes de ação ou se assistir trabalhando afim de perceber no que errou e em conseguir dicas do que fazer ou não em outros trabalhos?

Eu sou viciado em filmes de ação, isso me mantém atualizado, nas produções que participo gosto de ver na hora em que é feito, para ter a certeza de entregar a melhor cena do dia.

Geralmente o dublê é fisicamente semelhante ao ator que está substituindo, especialmente quando a presença de algumas características especiais se mostra necessária, porém o uso da computação gráfica vem aumentando muito, você acredita que o uso desta tecnologia vai estender esta profissão, por quê?

No Brasil isso ainda não é uma realidade, aqui não usamos o Motion Capture no cinema, talvez por ser caro, mas creio que a nível mundial já vemos grandes combinações, como em Tartarugas Ninja, Planeta dos Macacos e Avatar, acho que o uso da tecnologia têm tido um grande êxito ao combinar ação humana e animação.

Todo dublê pode consequentemente ser considerado um ator ou não? Por quê?

A maioria não curte aparecer para as câmeras, mas como dublês, nem sempre estamos substituindo alguém, não é raro termos que contracenar com atores, ou seja, o dublê precisa ser ator, ter expressão corporal e saber como se portar em cena, faz parte do trabalho.

Quais suas maiores inspirações do mundo dos dublês?

Jackie Chan Stunt team (as oito gerações) creio que eles são um exemplo de excelência da profissão.

Nos fale como é o dia a dia do trabalho de um dublê. Vocês repetem bastante as ações realizadas nas gravações ou não?

Em geral muito treino, nas gravações em geral procuramos acertar rápido o que pode ser repetido, mas muitas cenas não são possíveis de repetir, então temos de garantir que saiam de primeira.

Os dublês podem se especializar em alguma área de modalidade radical como Motociclismo, Automobilismo, Parkour, Skate, Ciclismo, entre outras ou têm que saber participar de todas ações radicais?

Claro que sim! Ser especialista em algo te torna único, mas esportes radicais não são uma exigência total da profissão, no meu caso sou especialista em cenas de luta, briga, etc.... Mas faço várias outras coisas também, não precisa praticar monogamia esportiva.

Nas produções artísticas dá pra reconhecer qual dublê fez tal ação ou é tudo genérico? Nas produções que você participa você costuma falar aos amigos e parentes que dublou tal ator? O que eles acham ao ver você se arriscar por aí em nome da ação artística?

Se ao final de uma cena de ação há um corte antes de o rosto do ator aparecer, pode ter certeza, ali tinha um dublê!

Na verdade a família e os amigos acompanham tudo pelas redes sociais, eu procuro publicar muito dos meus trabalhos, em geral eles acham que eu sou louco, as vezes eu concordo com eles. (risos)