Entrefolk com Marilia Vasconcellos

Créditos: Marilia Vasconcellos (Facebook)

Marilia Vasconcellos é formada em fotografia pela Faculdade SENAC de Comunicação e Artes, atua profissionalmente desde 2002, ganhou cinco prêmios pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, participou de exposições internacionais itinerantes pela América do Sul e Europa: Viena, Grécia, Portugal, Espanha, França e Itália.

Sua carreira demonstra constante pesquisa, unindo livremente a fotografia às artes plásticas, criando um processo experimental e híbrido. Mixa imagens analógicas e digitais, escultura, gravura, desenho, som e performance no seu desenvolvimento artístico e trabalho autoral e recentemente foi uma das convidadas para fazer parte do projeto Em Residência: Bauru.

Victor Hugo Cavalcante: Primeiro gostaria de agradecer por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar perguntando: Como surgiu sua relação com a arte plástica?

Marília Vasconcellos: Primeiramente, agradeço a oportunidade de divulgar nosso trabalho, é uma honra para nós.

Minha relação com as artes plásticas vem desde muito jovem, fui profundamente influenciada pelo trabalho do meu avô e bisavô maternos, ambos arquitetos e exímios artistas.

Com o tempo desenvolvi naturalmente a paixão por práticas que ambos realizavam: pintura em aquarela e desenho em nanquim. Meu amor pelas artes se materializou através da fotografia, prática que tenho desde os 08 anos de idade e que assumi profissionalmente aos 20 anos.

Cursei três anos de moda e posteriormente quatro anos de fotografia, área de formação e onde atuo de forma artística e profissional.

Ambas as faculdades ampliaram a minha capacidade de mesclar técnicas e gradualmente trazer as artes plásticas para os moldes em que hoje eu atuo. Atualmente, me considero uma artista múltipla e híbrida, caminho em diversas vertentes para realizar meus trabalhos unindo fotografia, escultura, artesania, áudio, vídeo e performance.

Sou aficcionada pela internet e por técnicas DIY (Do It Yourself) e possuo uma prática de pesquisa diária onde bebo de inúmeras técnicas manuais e digitais, que vão desde múltiplas aplicações de artesanato, técnicas ancestrais, novas tecnologias e manipulações digitais.

Victor Hugo Cavalcante: Recentemente você foi convocada para participação em uma residência artística de quatro (04) semanas em Bauru, no período de 28.02 a 29.03.2020 pelo projeto Em Residência: Bauru, como surgiu a ideia de mandar a sua proposta para este projeto e como foi que você soube que foi selecionada para participar dele?  

O projeto foi criado pelos quatro artistas convidados: eu, Marcelo Bressanin, Edmar Almeida e Aran Carriel, sob coordenação do DJ Ding. Escrevemos o projeto quando eu estava vivendo por dois meses em Portugal, e estávamos ansiosos e confiantes com a possibilidade de sermos selecionados pelo PROAC, pois acreditávamos que o projeto carregava e carrega um desejo sincero de aprofundamento na cidade de Bauru, unindo linguagens, perspectivas e processos experimentais. Estamos realmente muito felizes e a cada dia mais imersos nessa incrível vivência.

Victor Hugo Cavalcante: No projeto Em Residência: Bauru nove artistas (incluindo você) de diferentes linguagens realizarão pesquisas para a criação de uma mostra inédita de obras site specific sobre a cidade, para você enquanto visitante da cidade qual a importância de poder mostrar sua visão enquanto artista plástica sobre a cidade? 

A minha experiência, como uma artista que não pertence à cidade, é de constante descoberta cotidiana. Optei por percorrer a cidade a pé ou em bicicleta como parte da pesquisa, me deslocando em média 18 km por dia.

A cada percurso descubro novas facetas da cidade e me aprofundo em detalhes da sua rotina, plantas e flores, ruas, personagens, edifícios e dinâmicas.

Para mim como artista, trabalhar com uma temática site-specific é uma grande oportunidade de infinitas renovações tanto no campo de produção técnica como de vivência, pois colocamos uma lupa em uma ampla cidade em constante movimento, que possui um emaranhado de histórias únicas.

Trazer esse mergulho artístico, que une tanto a revisita de artistas locais como uma interpretação de fora, é para mim um convite à cidade a se reperceber e se reapropriar através dessas múltiplas visões.

Victor Hugo Cavalcante: Conte-nos um pouco sobre suas principais influências enquanto artista plástica e suas principais inspirações para criar novas obras.

Já há algum tempo busco influência em diversos artistas e manifestações artísticas de inúmeras culturas, épocas e partes do mundo. Sou uma grande colecionadora de imagens de obras e processos artísticos, possuindo um arquivo com mais de 10 mil imagens que só tende a crescer.

Acompanham-me sempre os pintores clássicos como Caravaggio e Boticelli, na fotografia a Diane Arbus, Witkin, Sarah Moon, Bresson, Salgado e muitos outros fotógrafos contemporâneos.

Trago comigo influências do cinema como Jean-Pierre Jeunet, Wes Anderson, Tim Burton. Na verdade sou um emaranhado de referências, já que muita coisa ao meu redor me influencia, e absorvo tanto da imagem como dos processos técnicos e artesanais.

Atualmente, a natureza com suas flores, árvores e plantas são as minhas principais musas, e a minha grande inspiração para a maior parte de minhas obras.

Victor Hugo Cavalcante: Profissionalmente falando como foi seu ano de 2019 e o que podemos esperar para 2020?  

2019 foi um ano produtivo e de muita transformação, colhi alguns frutos que estavam maturando há algum tempo e foi maravilhoso. Tive a oportunidade de itinerar com minha exposição individual Botânica Retratos pelo interior de São Paulo, passando dois meses no Museu da Cidade/ Casa de Vidro em Campinas.

Pude acompanhar de perto a produção do escultor Israel Kislansky e ser sua assistente, e passei dois meses vivendo e trabalhando em Portugal.

Itineramos com a exposição Descobertas: olhares sobre uma residência artística no Juquery, com a premiação pelo SISEM (Sistema Estadual de Museus). A exposição foi apresentada na Pinacoteca Municipal de Bauru e o Museu Municipal de Jaú.

Juntamente com Marcelo Bressanin e Edmar Almeida, participamos do projeto Organicidades também contemplado pelo PROAC e realizamos tanto uma residência como uma mostra artística sobre a cidade de Franco da Rocha.

Para mim, o ano de 2020 será um grande ano, já começamos com esse lindo projeto e aguardamos resultado de alguns outros. Será um ano de muita transformação e felicidade, já que em outubro sigo para Itália para dar inicio aos meus estudos de arte.