Folkeando com Pedro Daher

Créditos: Pedro Daher (Instagram)

Pedro Daher com 22 anos é formado em Teatro e Artes pelo Celia Helena. Com grande foco inicial em teatro, Pedro foi aluno de Maria Thais (ECA-USP) pelo Projeto Ademar Guerra, onde mais tarde teve aulas com Arman Saribekyan, ator do Théâtre du Soleil. Em São Paulo, trabalhou em várias peças profissionais incluindo a estreia em 2019 do espetáculo Amar, Verbo Intransitivo.

Pedro também se formou na Academia Internacional de Cinema ganhando destaque no curso de Interpretação para TV e CINEMA. Mais tarde viria a trabalhar em diversos curtas produzidos pela academia, dentre eles o mais importante: ESTER, que concorreu em festivais de cinema.

Victor Hugo Cavalcante: Primeiro gostaria de agradecer por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar perguntando: Como começou sua relação com as artes cênicas?

Pedro Daher: Boa parte da minha família é composta de músicos então já tinha contato com as artes musicais desde pequeno. Além disso, minha mãe vivia comprando brinquedos relacionados com as artes plásticas, por muito tempo cursei música e aulas de pintura que me ajudaram a desenvolver esse olhar artístico.

Eu já tinha certeza que meu futuro estava entre esses dois. Foi um dia de repente que um amigo meu que cursava cinema na faculdade de minha cidade, me convidou para atuar em um trabalho acadêmico de um longa.

Foi uma experiência muito diferente das outras que tive e a partir daí resolvi experimentar o teatro também. Não demorou muito para eu decidir que era isso que queria para minha vida e comecei a correr atrás de cursos além da minha cidade até chegar à grande capital e me instalar aqui mesmo. Aos 19 anos entrei para a faculdade e cá estou agora.

Victor Hugo Cavalcante: Quais foram os trabalhos cênicos mais incríveis e os mais complicados que você já interpretou? Por quê?

Tenho a memória clara de papéis que foram além do que eu imaginava, como interpretando uma velha senhora na peça Terrorismo dos Irmãos Presniakov, um bufão que exigia um trabalho de corpo absurdo, que se movimentava precisamente semelhante a um boneco de madeira, além de uma voz rasgada que tinha de encaixar muito bem, senão podia prejudicar a garganta.

Na realidade acho que todo trabalho cênico é complicado desde o início, cada papel tem sua dificuldade. Claro, existem alguns que demandam muito mais de nós, mas talvez estamos tão acostumados a pular nesse abismo que a gente nem percebe. 

Victor Hugo Cavalcante: Você estará na peça Amar, Verbo Intransitivo que ganha uma adaptação teatral com dramaturgia de Luciana Carnieli e direção de Dagoberto Feliz no Teatro Eva Herz, como surgiu a oportunidade deste trabalho e o que quem ainda não assistiu a peça pode esperar dela?

Sempre gostei muito de explorar novos cursos livres mesmo após a faculdade. Em janeiro de 2018, entrei em uma oficina de palhaço e bufão na SP Escola de Teatro, o curso tinha como professores: Bete Dorgam, Caco Mattos, e o queridíssimo Dagoberto Feliz.

Apresentei um protótipo de um palhaço, e foi aí que o Dagoberto me puxou para um canto e falou sobre a peça, que uma atriz estava escrevendo uma adaptação de Mário de Andrade para o teatro e perguntou se eu não tinha interesse, e claro, minha resposta foi positiva.

Posso dizer que quem não assistiu, está perdendo uma obra magnifica de um dos mais importantes escritores da nossa literatura. Toda peça tem uma dinâmica poética, cuidadosamente pontuada pela Luciana. É uma adaptação escrita com muito carinho, e com uma direção formidável do Dagoberto que movimenta toda a peça maravilhosamente bem.

Victor Hugo Cavalcante: Ainda sobre a peça Amar, Verbo Instransitivo, ela é uma adaptação do primeiro romance homônimo do escritor modernista Mário de Andrade (1893-1945), você já fez alguma outra peça adaptada de obras do escritor? Se sim quais? Se não, como está sendo atuar dois anos seguidos na peça?

Sempre tive muito contato com escritores brasileiros desde muito jovem, graças a minha mãe; professora de literatura. É a primeira vez que trabalho em uma peça adaptada no geral mesmo, e todo esse tempo tem sido um incrível aprendizado, não só pela obra, mas por estar perto de dois grandes artistas, que é a Luciana e Dagoberto.

Viver a peça não é um trabalho fácil, e parece que cada apresentação, é uma chave diferente que vira, uma coisa nova que a gente aprende. A história já é linda, e quanto mais a peça é apresentada, melhor ela fica.

Victor Hugo Cavalcante: Na peça teatral Amar, Verbo Intransitivo, você interpreta o personagem Carlos o primogênito herdeiro de uma família tradicional paulista nos anos de 1920, que a partir do encontro dele com a governanta Fräulein Elza (interpretada pela Luciana Carnieli) passa a viver uma relação amorosa com a governanta, revelando críticas sociais e comportamentais. Enfim, quanto de roteiro tem no personagem e o quanto de Pedro Daher tem em Carlos?

A peça possui um jogo constante de ator e personagem; em um momento vivemos a cena, e logo depois narramos os acontecimentos. Existem momentos muito bonitos em que o narrador e a personagem acabam por coexistir no mesmo espaço-tempo, as vezes consigo mesmo ou em relação ao outro.

Quem me conhece sabe, que eu caminho muito para natureza do palhaço, não apenas da graça, mas do que comunica constantemente os acontecimentos para a plateia, chamamos isso de "triangulação", e que aperfeiçoei muito com a direção do Dagoberto, é uma técnica que, nesse caso, uso muito durante o espetáculo, talvez essa seja a característica que mais me destaca como ator, do que como personagem.

Victor Hugo Cavalcante: Ainda sobre seu personagem interpretado na peça Amar, Verbo Intransitivo quais as principais diferenças e semelhanças entre você e o personagem Carlos? 

Com certeza estou longe de ser o primogênito herdeiro vivendo em uma mansão em Higienópolis, está aí a primeira diferença.

Brinco com isso, mas isso mostra um diferencial muito grande na hora de compor a personagem, o jeito de que ela se comporta, como ela anda, como ela foi criada, como um rapaz desse cumprimenta uma governanta alemã que acaba de chegar em casa, etc.

São mundos completamente diferentes, mas ainda assim, Carlos possui o jeitão de moleque, que faz pirraça com as irmãs, que quer mostrar pra Fräulein o quanto é um homem crescido.

Acho difícil encontrar uma semelhança, mas posso voltar a questão do palhaço e dizer: "Olha só, isso aqui encaixa muito bem com ele". É importante ressaltar que se trata de uma peça realista, mas que elementos clownescos estão levemente envolvidos na construção de Carlos.

Victor Hugo Cavalcante: Como é poder trabalhar em conjunto com a dramaturga e atriz Luciana Carnieli e com o diretor Dagoberto Feliz? Vocês já haviam trabalhado junto ou você já conhecia algum trabalho deles?

No começo me senti uma formiguinha perto de ambos, mas aos poucos fui me deixando soltar. É normal termos certa timidez trabalhando com novas pessoas, mas eu estava no meio de duas com décadas e décadas de teatro nas costas.

Eu já havia visto o trabalho de ambos, e foi uma grande surpresa saber que iria trabalhar com ambos. Posso dizer que o maior presente para qualquer ator ou atriz, é trabalhar ao lado de outros grandes artistas do teatro.

Victor Hugo Cavalcante: Segundo consta no site Ooppah você estreou nos palcos em 2014 na peça Pandora (Marcelo Zamora), você ainda sente ansiedade antes de entrar nos palcos? O que você faz para driblar o nervosismo?

Todos os atores, sejam eles novos ou veteranos, sentem certo nervosismo, é natural. Lembro-me de uma conversa que tive com um grande ator chamado Chico Carvalho, que contou o quão nervoso ele estava na primeira noite de estreia de Ricardo III.

Sinto que isso seja exclusivo da estreia, quando você estuda e domina a peça, tudo muda, você pega nas rédeas e não há quem te segure, aquilo que antes era complicado se transforma em divertimento e agora você pode "brincar".

Todo ator tem o seu segredo, e o meu é aceitar a hora do espetáculo como um momento de jogo, não é a toa que em inglês, o verbo "play" pode ser tanto "jogar" quanto "peça". Em relação ao Zamora, na peça Pandora, a única instrução para driblar esse nervosismo era (para não falar palavrão) Mande a plateia se lascar!

Victor Hugo Cavalcante: Quais as principais dicas que você dá para quem deseja algum dia se tornar ator teatral?

Prepare-se para o pior, porque é uma facada. A primeira coisa que vem de súbito é dizer "Cai fora, mané!". Muitos têm a ideia de que o teatro tem a ver com liberdade, com algo solto, com essa ideia lírica de que o fazer teatral é algo mágico; não é, essas pessoas não sabem o que estar nesses tablados, não tem a ver com fama, glória, capa na revista, nada disso!

É preciso levar a sério, existe todo um estudo por trás de todo ator, e saber que como qualquer outro trabalho, esse também irá te cansar, e muito!

Então eu digo, quer fazer? Pois venha, experimente, mas não se acomode, vá cursar outra coisa que esteja em seus planos depois, abandone o teatro, se afaste pra sempre.

Só então se você sentir falta desse palco, se sofrer de tal abstinência que não consegue dormir, então volte. Mas se não passar por esse distanciamento, e ver que consegue ser outra coisa a não ser isso, não é do ramo.

Victor Hugo Cavalcante: Para você enquanto ator como foi o ano de 2019 e o que podemos esperar de sua carreira em 2020?

Se soubesse, me tornaria um ótimo vidente. (Risos)

2019 foi realmente um choque, sair da faculdade e cair no meio desses dois grandes nomes, e principalmente ver como estamos sendo puxados pelo atual poder político...

Bom, uma mistura de muitas coisas, mas com certeza de aprendizado e satisfação; principalmente aprendizado, que é algo que ainda tenho certeza que alcançarei mais ainda para 2020, e nas próximas décadas consecutivas.

Amar, Verbo Intransitivo é uma peça que dialoga muito os comportamentos da sociedade, e nos tempos que estamos vivendo, ela vem muito a calhar. Esse ano essa peça não será apenas um romance, mas uma obrigatoriedade a ser assistida.