Vai um chiclete musical aí?

Créditos: Carlos Alkmin

Victor Hugo Cavalcante: Qual o poder real que a música tem em nossa memória e em nossos sentimentos emocionais?

Elaine Di Sarno: A emoção musical depende de um número potencialmente infinito de variáveis (ancoragem cultural, história de vida pessoal, contexto de performance, estado psicológico do momento, etc.) e certamente não se resume em explicação única. A música envolve processos internos, no corpo e no cérebro, que podemos chamar de emoções ou sentimentos. As atividades mentais que envolvem a música são complexas, às vezes incluindo não apenas áreas auditivas do cérebro, mas também o córtex visual. A percepção musical está interligada a partes primitivas do cérebro e isso pode influenciar emoções pelo sistema límbico. Para identificar as emoções provocadas pela música e distingui-las entre si, os neurocientistas observam as transformações, no corpo e no cérebro, de vários parâmetros fisiológicos (ritmo cardíaco, condutividade da pele, etc).

Victor Hugo Cavalcante: O que exatamente definiria uma música chiclete?

Nossos sentidos podem evocar claramente as memórias emocionais que temos, liberando emoções positivas, como o prazer e a felicidade, ou negativas como o medo e a raiva. Nosso dia a dia precisa de uma trilha sonora escolhida por nós mesmos. Dessa forma, podemos reviver momentos felizes e agradáveis. A música em nosso cérebro, é multissensorial, ou seja, quando você escuta uma música, juntamente com a letra e o ritmo, você também adquire sentimentos e emoções relacionadas a essa canção. Então, mais tarde, quando esse sentimento ou ideia é lembrada, às vezes traz também uma parte cativante da música, o que é chamada de memória involuntária. Então, a música que tem uma forte ligação emocional com o ouvinte é difícil de esquecer. Por isso, algumas músicas são utilizadas em propagandas de publicidade ao invés dos jingles. As músicas "chicletes" apresentam três características: eles são curtas, de fácil compreensão e facilmente reconhecível. Essas músicas têm uma melodia alegre, simples; letra repetitiva e fácil de lembrar; e uma surpresa, como uma batida extra ou um ritmo incomum. Quanto mais se ouve uma música, maior é o potencial dela se tornar um chiclete e grudar no cérebro. Isso ocorre porque, de tanto ouvirmos a mesma coisa, nosso cérebro grava a informação e começa a antecipar as próximas notas e versos.

Victor Hugo Cavalcante: Psicologicamente falando quais as dicas para quem deseja compor uma música para virar hits musicais (Ou os chamados chicletes musicais)?

Quando uma canção tem uma batida fácil de seguir, ela aumenta a atividade cerebral na zona associada ao movimento e funciona como uma espécie de recompensa para o cérebro, pois é agradável, ainda mais quando a canção inclui algum elemento que fuja ao previsível. As músicas chicletes são normalmente canções repetitivas e pouco complexas, seja em ritmo, letra ou ambos.

Victor Hugo Cavalcante: Independentemente do gosto musical das pessoas, as músicas chicletes ficam na memória das pessoas mesmo que já não sejam tão divulgados pela mídia, por que isso acontece?

A música, como em todo e qualquer processo artístico ou cultural, se constitui como um fenômeno social, pois mantém relação e questiona os valores sociais e as significações dos sujeitos. Assim, quando se vivencia a música não se estabelece relação apenas com a matéria musical em si, mas com toda uma rede de significados construídos no mundo social, em contextos coletivos mais amplos e em contextos singulares. A música, então, além de ser um instrumento de aquisição de cultura e de lazer, pode servir como uma ferramenta de integração social e, nesse sentido, apresenta-se como forma de demarcar/refletir diferenças psicológicas e socioculturais, o que faz com que ela e o gosto musical criem concepções, conceitos, rótulos, grupos de convivência e até mesmo estigmas, ao passo que, também se colocam como forma de representação identitária.

Victor Hugo Cavalcante: Psicologicamente falando qual o poder que a mídia e a internet têm para alavancar uma música a ponto dela se tornar "chiclete"?

Existem dois motivos que são responsáveis por desencadear a repetição de uma música "chiclete" na cabeça. O primeiro deles é o excesso de exposição. Ou seja, isso inclui o quão você a escutou recentemente e quantas vezes ela foi repetida. Por esse motivo, aquelas músicas que vivem na mídia, nos rádios e sons de carros são fortes candidatas a se tornarem "chiclete". O outro é a possível associação, às vezes, um aspecto do ambiente desencadeia o fenômeno, incluindo palavras, pessoas, ritmos, situações e sons. Da mesma forma, associações mais indiretas podem aparecer, como algo que acontecia ao seu redor quando você ouviu determinada música, fazendo com que seu cérebro a associe a fatores externos que nada teriam a ver com ela. Mais tarde, quando você estiver neste mesmo ambiente, o seu cérebro pode desenterrar a música e começar a repetir a parte mais memorável dela em sua mente.