Thiago D'Eveque: Entre o limbo e o abismo da independência literária ou uma promessa quente na literatura independente virtual

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Lucas Mota: Depois do sucesso de Limbo na Amazon, você apresentou um novo projeto para uma trilogia que começa no já publicado Promessa de fogo. O que essa trilogia traz de mais desafiador do que Limbo?

Thiago D'Evecque: A série Abismo não foi pensada como uma trilogia. Com o segundo livro, um ciclo da história vai se fechar e outro será aberto. O que tenho em mente são 4 ou 5 livros.

O que a série traz de mais desafiador do que Limbo é a criação do mundo, a criação de uma História, com linha do tempo e tudo, e o planejamento.

Apesar de o Limbo ser um universo fictício, ele é basicamente um reflexo do nosso próprio mundo. Não precisei criar cidades, medir distâncias, pensar em relações políticas, etc. Eu não perco muito tempo nessa parte, crio somente o necessário para avançar com a história. Ainda assim, é um processo trabalhoso porque o planejamento precisa fazer sentido. Cada vez que estabeleço algo de concreto no mundo, preciso ter a consciência de que estou sendo coerente e de que isso terá consequências no futuro.

Lucas Mota: Podemos considerar o Limbo um "grande hit" da auto publicação?

Eu nunca pensei dessa forma. Sem dúvida tive um resultado muito maior do que eu esperava, pensei que fosse simplesmente boiar pela indiferença,  e tenho pra mim que foi uma auto publicação bem sucedida, mas não acho que tenha sido um grande hit.

Lucas Mota: Houve procura de alguma editora para publicar o seu trabalho? E o caminho inverso? Você chegou a procurar alguma editora? O que está faltando para que você passe a uma publicação tradicional?

Houve procura de uma editora, mas eu teria que arcar com parte da publicação, então não me interessou. O caminho inverso não teve, não cheguei a procurar editora. Acho o processo de publicação das editoras daqui muito arcaico. Temos que enviar manuscrito pelo correio, em 2018, e não receber nenhuma resposta se o original for recusado? Não tenho paciência pra isso. Eu só quero escrever e compartilhar minhas histórias com leitores que também têm interesse nelas.

Lucas Mota: Você escreveu os Contos do limbo. Foi por causa do excesso de pedidos dos leitores por uma continuação do seu primeiro livro? Ela pode acontecer?

Escrevi Contos do Limbo, na verdade, como aperitivo para leitores curiosos com o Limbo. Assim eles podem experimentar minha escrita e o universo que criei antes de se comprometerem com a leitura do romance.

Sobre a continuação, não vou dizer nunca, mas não penso em fazer uma. A história que eu queria contar terminou em Limbo, e não pretendo estendê-la.

Lucas Mota: Sei que existiu uma edição física de Limbo. Foi por conta própria? Vai acontecer o mesmo com Promessa de fogo?

Sim, fiz uma tiragem por conta própria, mas não sei se farei de novo com outras obras. Provavelmente não. A logística de vendê-las dá trabalho demais, e o retorno, em minha opinião, não vale o esforço. A experiência foi legal porque alguns leitores só gostam de impresso, então foi uma ótima maneira de me conectar com mais pessoas.

Lucas Mota: Sua formação original é em jornalismo. Como isso ajudou ou atrapalhou o seu processo de escrita? Pretende conciliar as duas carreiras ou espera poder se dedicar exclusivamente à escrita?

Eu acho que minha formação acabou ajudando pelo fato de eu ter aprendido na prática que a inspiração não existe. É preciso continuar escrevendo, querendo ou não. A inspiração vem com o trabalho, e não o contrário. Essa disciplina se transferiu perfeitamente à escrita criativa, onde, novamente, a criatividade só aparece se você for buscá-la.

Nada me satisfaz tanto quanto escrever ficção. Então, se chegar o momento em que eu posso me dedicar exclusivamente à escrita, sem dúvida vou aproveitá-lo. Mas, por enquanto, não tem como ser meu único trabalho.

Lucas Mota: É inegável a sua admiração por Terry Pratchett e notável a influência dele no seu estilo de humor, ainda que você prefira contar histórias mais sombrias e com uma maior incidência de ação e carga dramática. Como você faz traz equilíbrio para todos esses elementos em suas histórias?

Eu acho que não consigo ser tão sombrio quanto o Pratchett, (Risos). Especialmente quando ele fala sobre guerra, racismo, política, religião...

Terry Pratchett disse certa vez, depois de escrever os primeiros livros de Discworld, que o alívio cômico é ótimo, mas o que é essencial para as histórias é o alívio dramático. Os leitores precisam se importar com o que acontece nas páginas.

Eu acho que procuro dar esse equilíbrio através de estrutura. Ao estruturar o enredo com algumas cenas-chave, eu me certifico de que a parte dramática da história está no lugar e fico livre para colocar o que eu quiser entre as cenas, o que inclui o alívio cômico.

O que está entre essas cenas, claro, também influencia o ritmo do livro, o tom da história, a carga dramática, etc; então preciso ter cuidado para não embaralhar muito a trama. A estrutura, como eu disse, me ajuda a manter o controle dessas coisas.

Lucas Mota: Em Limbo temos Cacá. Em Promessa de fogo temos Matilda. Você tem uma boa mão pra escrever personagens de alívio cômico, sempre dando a devida profundidade a cada um. Fale um pouco sobre seu processo criativo para chegar a esses personagens.

Eles vêm meio que naturalmente, porque eu acabo me tornando consciente demais do que estou escrevendo. Não sei se estou sendo claro, mas quando percebo que estou me tornando sério demais, esses personagens acabam se metendo e me lembrando de que eu preciso me divertir.

Eu não planejo diálogos nem esses momentos de alívio cômico durante a estruturação da história. Eu acho que o principal é conhecer bem os personagens e saber como cada um vai reagir diante das situações. Não como eu faria uma piada, mas como o Cacá ou a Matilda fariam.

Lucas Mota: Qual tem sido o maior desafio na sua jornada como autor independente?

Chegar até os leitores. Sem gastar dinheiro com publicidade, isso acaba se tornando difícil. E também mostrar que a literatura independente não significa literatura amadora.

Lucas Mota: Promessa de fogo é o primeiro livro da saga Abismo, a qual você ainda está escrevendo. Além dos elementos de fantasia sombria há uma caracterização muito forte do cenário. Fale um pouco sobre suas principais influências e/ou inspirações.

A maior parte das minhas inspirações vem dos RPG's, tipo D&D, além dos videogames. Eu gosto de pensar que a série Dark Souls influencia bastante o que escrevo.

Sobre o cenário, especificamente, eu me baseio mais ou menos no Brasil, pelo menos quanto ao clima e à ambientação. Não é algo fidedigno, apenas O Norte, na série, fica no hemisfério sul, tem muito cerrado e caatinga, feiras espalhadas pelo reino, cachaça, plantações como as nossas, e por aí vai. O mundo está sendo criado aos poucos, e nasceu a partir de um conto que escrevi chamado Ninjas, Robôs e Dinossauros.

Lucas Mota: Para quando podemos esperar o segundo livro da saga?

Estou na reta final, então daqui a alguns meses! Três, talvez?

Lucas Mota: Além da trilogia, quais são seus próximos planos como autor?

Assim que terminar o segundo livro da série, vou terminar outro projeto que já comecei, um livro de contos com o nome provisório de Contos Cafeinados. São várias histórias de fantasia onde, no final de cada uma, comento um pouco sobre o processo de escrita, como tive a ideia, por que fiz as decisões que fiz, inspiração, e tudo mais.

*Entrevista feita em parceria com o autor Lucas Mota (escritor de Boas meninas não fazem perguntas, Todos os mentirosos e o conto O destino de Ayra)