A vida imita a arte com Carolina Tavares

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Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar com a seguinte pergunta: O tema proposto no livro é empreendedorismo, neste ramo literário e até profissional há muitas críticas sobre o assunto, uma delas é exatamente ao "inchaço" do empreendedorismo causado pelo modismo de falar sobre empreender, afinal para você esta crítica é válida por quê?
Carol Tavares: Obrigada você pela oportunidade! A crítica é muito válida, porque 'empreendedorismo' acabou virando verbete obrigatório na boca de uma galera que não tem experiência, apesar de boas ideias começadas. Eu nem costumo usar muito a palavra para além das hashtags porque, pra mim, sou só uma trabalhadora construindo carreira e tentando encabeçar projetos que possam prestar bons serviços a alguém. Falar de empreendedorismo não é difícil se houver uma pesquisa mínima, mas uma coisa que aprendi nesses muitos anos de trabalho é o quanto a experiência pode ser determinante em tudo que você faz.

Uma das coisas que chama atenção ao sabermos sobre seu livro é o tema proposto por ele, um estudo do empreendedorismo através do que se passa na série Game Of Thrones, afinal como surgiu esta ideia de comparação? O empreendedorismo é uma forma de guerra também?
A própria editora, junto à agência Fullcase, criou este projeto para várias séries e o meu foi o piloto. O próximo deve ser de House Of Cards, pelas mãos da minha amiga e ótima jornalista Angela Miguel. Quando me apresentaram a ideia, eu havia acabado de ver GOT pela segunda vez e achei incrível. Se pararmos para pensar, as guerras em si sempre foram totalmente lucrativas para países que as financiavam. Óbvio que não acho isso bom nem de longe! (risos). Mas uma série como GOT mostra muitas coisas que NÃO devemos fazer e, sinceramente, já vi acontecer muito no mundo dos negócios. A vida em si é uma eterna luta de poder - homens ganhando mais do que mulheres, relações amorosas abusivas, pais que acham tudo bem espancar seus filhos. Todas essas relações constroem a psiquê humana e acabam refletindo sim no mundo das empresas. Por isso, auto-conhecimento e empatia são armas vitais para uma construção de carreira e isso fica muito claro, por exemplo, com o desenvolvimento da personagem Daenerys Targaryen, a mãe dos dragões, que começa como uma criança assustada e acaba como a mais provável rainha dos sete reinos.

Apesar de originalmente não ter sido escrito para o ramo do empreendedorismo o livro A arte da Guerra de Sun Tzu é muito utilizado atualmente por empreendedores e até citado por eles como um dos livros que o influenciam, afinal sua proposta foi fazer algo parecido com seu livro Lições Empresariais de Game Of Thrones, utilizando o combate e estratégias que aparecem nas séries como forma de montar boas estratégias para ser um bom empreendedor? Por quê?
Assim que lancei o meu, um amigo veio me falar do Tzu. Vou ser sincera: muito li sobre este livro e pouco li do livro. A guerra, se você parar para pensar, é um dos empreendimentos mais assertivos já feitos: ela tem como objetivo a destruição para reconstrução financiada e, assim, enriquecer países. Sabe-se desde muito tempo que a guerra contra o Iraque nunca foi contra o terrorismo - criou-se um inimigo subjetivo e localizou-se o mesmo em uma terra cheia de riquezas buscadas pelo Ocidente. Um plano de marketing extremamente bem feito, diga-se de passagem. De novo: JAMAIS serei a favor de uma guerra. Mas, pensando em como elas são bem arquitetadas, vale sim trazer suas lições para a rotina - do que se deve e do que não se deve fazer.

Além de GoT, para você quais outras séries ou filmes poderiam ser acompanhadas e estudadas de uma forma mais minuciosa em prol do empreendedorismo?
Me fizeram essa pergunta outro dia, no Judão, e eu acho que há lições desde em Stranger Things até Dark. A última que eu acho que é uma aula bizarra de estratégia é Manhunt (do Unabomber). O que todas elas têm em comum, no fim das contas, é que mostram a importância de parcerias, de visão ampla, interpretação de dados e empatia. Além, é claro, de como é essencial pensar além da caixinha.  

Para você enquanto escritora o quanto essa mistura de livros de estudos com lazer pode ser benéfica para a área que se estuda, em seu caso o empreendedorismo?
Os livros e filmes sempre foram meus grandes aliados. Para uma criança introvertida como eu era, eles eram grandes amigos também. Acho que é importante a maneira como essas ferramentas podem ser didáticas para quem usá-las e oferecer uma gama de referências que, para um curioso, leva longe. O filme A Chegada, por exemplo, é uma lição aberta sobre a importância da linguagem na vida do indivíduo e o quanto a maneira como você se comunica muda sua visão de mundo. #FicaDica

Quais são os experts em empreendedorismo que você se inspira e admira? Por quê?
Para ser muito sincera, meus pais. Meu pai veio para o ABC Paulista ainda criança para trabalhar. Não tinha nada, tornou-se metalúrgico, abriu a própria empresa, construiu uma casa, pagou meus estudos e do meu irmão mais velho e, hoje, tem uma vida ótima. Minha mãe, antes mesmo de eu nascer, fugia de casa para fazer teatro em eventos do sindicato. Hoje, ela luta contra a maré e a idade que avançou e consegue construir carreira por onde passa. A verdade é que esses exemplos, para mim, valem mais do que qualquer grande nome com muitos seguidores na internet. Mas, indo para eles, Jout Jout, com certeza!

Um dos inimigos mais temidos de Westeros em GoT são os temíveis White Walkers (Caminhantes Brancos), para você quem seriam os White Walkers do empreendedorismo no Brasil e por quê?
O Temer! (Risos) Brincadeiras à parte, acho que um problema grande que a gente enfrenta aqui é o conservadorismo. Essa coisa de achar que, para ser um trabalhador de verdade, precisa ficar oito horas por dia sentado a uma mesa, de cabresto. Fiquei muito preocupada no dia da greve geral, quando vi pessoas queridas postando foto do tipo: "pelo direito de ir e vir, sou trabalhador e estou a caminho do escritório". Acho que nosso principal inimigo por aqui é acreditar que estamos numa eterna crise e que não existe outra solução a não ser baixar a cabeça - e pior, que é isso que vai levar o Brasil para frente. Educação é nossa ferramenta mais importante, mas a gente gasta o tempo dela fazendo textão no Facebook.

Para você qual personagem da série seria um perfeito empreendedor? Por quê?
Khaleesi, com certeza, é minha ídola número 1. Ela conseguiu lutar contra todos os inimigos - internos, externos, aqueles que não há como controlar. Juntou um time que segue seu ideal a qualquer custo e, de quebra, é uma das poucas que possui uma motivação social por trás.

Quais são os principais erros do ponto de vista do empreendedorismo que os personagens principais da série cometem?
Não entender que o trabalho deles precisa para ser o bem comum - e é só criando essa empatia que eles vão conseguir ter o apoio da massa. Quantas vezes você liga numa operadora de celular e o atendente simplesmente não te ajuda? Quando as pessoas entenderem que o serviço final SEMPRE será para um ser humano e que o trabalho delas é com esse objetivo, as coisas vão mudar de figura. As relações de trabalho não podem ser uma competição, mas sim um coletivo em prol de um bem maior.

No livro você deu algum spoiler sobre algum episódio da série?
Para quem não gosta de spoiler, vou ficar devendo. (risos) Tem bastante spoiler sim, até porque preciso narrar as situações para que elas se encaixem na analogia. Mas não me ative apenas à série. Trabalhei anos na MTV, no Napster e outros veículos que me trouxeram experiências importantes que eu também quis compartilhar.

Além deste livro pretende lançar mais algum livro sobre empreendedorismo ou outro assunto?
Eu tenho uma ficção mega adolescente chamada Suicídio, mas tenho vergonha de lançar! Estou trabalhando internamente para conseguir... E tenho poemas que escrevo desde os 10 anos que, um dia, devem virar livro também.