Projeto Arkangel: Afinal, vigiar e proteger os filhos faz bem?

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Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar coma seguinte pergunta: O que a expressão Pais Helicópteros significa e da onde surgiu essa expressão?

Roberto Melo: Quando e onde surgiu a expressão, não sei responder, mas significa pais que ficam "sobrevoando" a vida dos filhos, tentando protegê-los de qualquer perigo. Solta as olhos, que estes pais não estão educando os filhos, não estão preparando eles para a vida adulta e assim, podem até evitar sofrimentos comuns da infância, brigas com os colegas, notas baixas em trabalhos escolares, porém não os preparam para a vida adulta e assim, ficam longe do objetivo e desejo principal dos pais, que é ver os filhos realizados e felizes.

Na série Black Mirror no segundo episódio da quarta temporada intitulada Arkangel, Depois de quase perder sua filha, uma mãe investe em uma nova tecnologia que lhe permite acompanhar a criança. Por mais ficção futurística que seja o episódio nos leva ao medo que muitos pais têm em perder seus filhos ou que seus filhos sofram algum mal, como os pais hoje podem evitar que seus filhos sofram tais mazelas sem serem distinguidos como pais helicópteros?

Não podem, esse é o problema, nenhum ser humano é capaz de impedir que os outros sofram as vicissitudes e acasos da vida. Existir é sempre estar ameaçado pela possibilidade de deixar de existir, ou seja, a morte.

Os pais devem educar e proteger os filhos, na medida do possível, mas o desejo de evitar todos os maus é irrealizável. Por mais que isso pareça algo óbvio, vemos bastantes pais se culpando e tentando evitar todo tipo de sofrimento.

Quais são os principais problemas que podem ser causados pela superproteção dos pais?

Uma criança privada da socialização com outras crianças e de experiências negativas, não estará preparada para a vida adulta. É na socialização que aprendemos a negociar, dialogar, perder, ganhar, respeitar o outro, empatia (apesar de ser uma característica inata, é também desenvolvida), nos frustrar...

Afinal, qual é o limite entre o saudável da proteção parental e a superproteção?

Winnicott mostrava que a mãe suficientemente boa é aquela que falha em suprir as necessidades das crianças, a partir de determinada idade, e assim, permite que ela cresça e se desenvolva. Então, é que os pais devem estar atentos as suas questões, por exemplo, quando um pai ou uma mãe necessita de estar sempre perto dos filhos, é uma necessidade dos pais, em que eles devem trabalhar esta questão, pois não é saudável para a criança.

Qualquer regra em psicologia não tem o alcance a todos, por exemplo, hoje, é comum pais de crianças que moram em áreas perigosas não deixarem os filhos pequenos brincarem fora de casa, se pensarmos no ideal, seria que a criança brincasse com as outras, mas como se virar com uma situação dessas? A saúde mental é sempre uma busca/construção cotidiana, neste caso, os pais devem também se atentar para as necessidades e desejos das crianças, por que estas querem brincar com outras e ganhar autonomia, na maioria das vezes, sem contudo perder de vista, que são crianças e necessitam de cuidado e proteção.

A confiança é uma faca de dois gumes, pois ela não deve ser restrita e tampouco irrestrita, afinal como conseguir "confiar desconfiando" dos filhos e o quanto a confiança total ou desconfiança total atrapalha na relação entre pais e filhos e no crescimento dos filhos?

Na verdade, é comum a tensão nas relações com adolescentes. É comum que adolescentes queiram transgredir ou questionem as regras, questionem os pais, faz parte do processo de crescimento, questionar o que tá posto. Então, os pais já devem estar, de certa forma, preparados para este questionamento. O diálogo é melhor caminho para se alcançar o consenso possível nesta tensão e claro, alguns limites devem ser traçados.

Voltando ao episódio Arkangel de Black Mirror, A partir de um implante cerebral, é possível que a mãe através de um tablet observasse os sinais vitais e a localização do filho, aplicar filtros de desfoque de visão em momentos estressantes do pequeno e literalmente enxergar pelos olhos do jovem. No mundo real quais as principais dicas que você poderia dar para os pais poderem ter uma conversa sobre os perigos que os filhos podem sofrer pelo mundo afora?

Black Mirror é uma série fascinante porque mostra uma distopia que de certo modo já está acontecendo, talvez, com consequências menos catastróficas do que na série. Mas hoje, com o avanço de tecnologia, temos a sensação (ou ilusão) um grande controle sobre o mundo a nossa volta. Há 25 anos, celulares eram artigos raríssimos, há 20 anos, as pessoas esperavam a madrugada para conseguir se conectar na internet, hoje, estamos conectados 24 horas por dia e isso, afeta o nosso modo de ser e aumenta nosso desejo por controle. Porém, a insegurança é inerente a existência, pois temos consciência de nossa finitude.

Claro que deve fazer uso da tecnologia, mas ainda no mundo de hoje, não se pode e não se deve ter controle total sobre os filhos, nenhum controle parental vai substituir uma boa educação e educar não é controle, educar dá trabalho, envolve diálogo, aguentar frustrações dos e com os filhos e não existe fórmula mágica e infalível. De certo modo, educar é criar a possibilidade para a construção da autonomia, para o filho possa sustentar a existência por si, possa ele próprio, dizer sim e não.

A adolescência é popularmente chamada de "aborrescência", mas afinal como os pais podem proteger os filhos diante experiências desagradáveis sem tirar sua confiança em si mesmo e nos pais e sem serem super protetores?

Mesmo que os pais pudessem proteger os filhos das experiências desagradáveis da vida, melhor seria para não o fazer, as experiências desagradáveis são importantes para o amadurecimento emocional.

A confiança em si só existe se a pessoa se permite, em algum nível, errar. Romário, uma vez disse que ganhou muitos títulos, mas também perdeu um monte, Michael Jordan tem uma frase muito semelhante também. Para citar, o exemplo, de pessoas, claramente, confiantes.

É importante, colocar um parêntese nesta colocação, pois não existe um manual para a vida, apenas vamos nos ajeitando, e cada vida tem histórias, desejos, sentidos, motivações singulares, para exemplificar o que quero dizer, por exemplo, uma criança ou um jovem que esteja passando um momento muito difícil, traumática, vai precisar de uma proteção maior contra o mundo. Cada situação deve ser pensada dentro de seu contexto e insegurança é inerente à vida.