Desbravando terras e criaturas mágicas brasileiras com Thais Câmara

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Assim como o universo mágico criado pela escritora britânica J.K Rowling, o livro O Guia das Criaturas Mágicas: Desbravando Terras Brasileiras da brasileira Thaís Câmara é uma obra-prima.

Thaís criou no livro um universo mágico onde habitualmente não se pensava em magia: o folclore brasileiro.

Sua capacidade imaginativa é de deixar qualquer um surpreso, admiradores ou não deste universo fantasioso, pois, num amálgama de magia e folclore brasileiro, ela não só cria cada criatura mágica, como também descreve seus mais diversos habitats.

Por meio de seu glossário e de suas ilustrações, ela inaugura um universo mágico pautado na fauna e flora brasileira que interessa a todas as idades.

E nós fomos conversar com esta escritora que também é veterinária (uma espécie de magizoologista no mundo trouxa) para conferir mais sobre suas inspirações literárias, seu guia das criaturas mágicas e muito mais.

Victor Hugo Cavalcante: Primeiro é um prazer poder recebê-la em nosso site, e gostaria de começar perguntando: Como surgiu a ideia da história e a oportunidade de publicar O Guia das Criaturas Mágicas: Desbravando Terras Brasileiras?

Thaís Câmara: Eu quem agradeço pelo convite. Sinto-me muito lisonjeada.

Eu sempre fui muito fã de histórias fantásticas, fantasias e mitologia em geral (não perdia um episódio de Cavaleiros do Zodíaco, quando passava na extinta Rede Manchete).

Tenho vários livros sobre mitologia e, em meio a essa leitura, percebi o quão rico é o nosso folclore e o quão pouco explorado ele é.

No geral, O Guia das Criaturas Mágicas é uma junção de várias das minhas coisas favoritas.

Victor Hugo Cavalcante: Como surgiu sua relação com a literatura enquanto leitora e escritora?

Minha relação com a leitura surgiu bem antes da minha relação com a escrita.

Meu avô, Christiano Câmara, era um grande historiador e colecionador, e incutiu em mim o desejo e curiosidade para procurar novos mundos e aventuras dentro das páginas dos livros.

Com ele, eu aprendi a amar a leitura. Já o gosto pela escrita surgiu no colégio, quando uma das minhas redações foi escolhida para participar de um concurso interno.

Não ganhei o primeiro lugar na época, mas saber que outras pessoas leram e apreciaram o que eu criei foi muito gratificante.

Desde então continuo treinando a escrita (principalmente escrevendo fanfics), buscando fazer vários cursos na área.

Victor Hugo Cavalcante: Conte-nos como surgiu sua paixão pelo universo mágico criado pela J.K Rowling.

Eu, como muitas outras crianças da minha geração, cresci lendo Harry Potter e amando o mundo mágico criado por ela.

Faço até parte da Ordem, um grupo de fãs da saga e da cultura geek em geral.

Apesar de tudo o que vem acontecendo e das decepções que ela vem nos trazendo, eu não posso negar que HP foi e sempre será um grande marco na minha vida, me servindo de inspiração e, principalmente, sendo a ponte para a formação de amizades maravilhosas, que duram até hoje.

Victor Hugo Cavalcante: Quais foram as criaturas mágicas mais interessantes que você pesquisou para compor o livro?

Agora você me pegou... Todas elas são interessantes a sua própria maneira, todas tem seu charme.

Porém, se tivesse que escolher, eu acho que teria que dizer que seria a Boapurã, baseada na lenda cearense da Princesa de Jericoacoara.

Esse nome, na verdade, foi criado por mim (utilizando um dicionário de tupi-guaraní), pois a personagem da lenda era chamada apenas de "Princesa".

A lenda é muito interessante e cheia de encanto, vale a pena pesquisar!

Outra criação bem interessante também foi o caso do Daridari.

Diferente de vários outros personagens do meu livro, a história que criei para esse inseto não foi baseada em nosso folclore, mas em uma história que meu pai me contava quando eu era criança.

Certa vez eu perguntei a ele o que acontecia com a cigarra quando ela parava de cantar.

Com toda a naturalidade, ele respondeu: "Ela papoca". E eu, na minha doce inocência dos meus seis anos, pensei que ela explodia feito uma mini bomba. Daí surgiu o meu Daridari.

Victor Hugo Cavalcante: Você é veterinária, isso te ajudou de alguma forma a adaptar as características das criaturas mágicas em seu livro? Por quê?

Sim, com certeza.

Mesmo sendo criaturas fantásticas, minha intenção era que elas parecessem reais, então, além da anatomia, tive que pensar sobre seus comportamentos, hábitos de acasalamento, hábitos de caça, entre outras coisas relacionadas à minha área profissional.

Victor Hugo Cavalcante: Quais suas influências literárias (autores prediletos) e quais foram as inspirações para escrever o seu livro (além da saga Harry Potter)?

Acho que o primeiro e mais importante nome dessa lista é o da Flávia Muniz, autora do livro Viajantes do Infinito, pois foi a partir desse livro que eu realmente me joguei no mundo da leitura.

Nomes como Pedro Bandeira, Artur Conan Doyle, Maria José Dupré, Agatha Christie, Tolkien, entre outros, são algumas das minhas grandes influências literárias.

Em se tratando do meu livro, a maior influência que tive foi, sem sombra de dúvidas, do escritor Luís Câmara Cascudo e de suas obras sobre o folclore nacional.

Victor Hugo Cavalcante: Sobre a saga Harry Potter, na forma da escrita do seu livro o quanto você se inspirou no livro Animais Fantásticos & Onde Habitam para escrever sobre criaturas mágicas no Brasil?

Assim como a J.K. Rowling criou o Animais Fantásticos & Onde Habitam como um guia para que o mundo mágico europeu pudesse aprender sobre as criaturas mágicas que lá vivem, o meu Guia das Criaturas Mágicas é uma ferramenta para que os magos e bruxas (ou abapajés e cunhãpajés) brasileiros possam entender sobre os seres fantásticos que habitam nosso país.

Victor Hugo Cavalcante: Para você enquanto escritora qual é a importância de mais autores brasileiros lançarem livros que tratem sobre o nosso folclore tanto diretamente ou adaptados para uma história?

Aqui eu vou pedir licença para fazer uma pequena crítica.

Nós temos que parar com essa mania de que "coisa boa é coisa estrangeira" (ou, reformulando para a escrita, "Livro bom é livro de inglês").

O Brasil (e outros países) produz escritores bons e ruins do mesmo jeito que os EUA ou a Inglaterra.

Nosso folclore e nossa história são riquíssimos! Tem assunto aqui para vários livros de vários tipos.

A diferença é que nesses países que citei, os escritores recebem reconhecimento, enquanto aqui no Brasil existe pouco incentivo para a leitura de obras nacionais.

Victor Hugo Cavalcante: Conte-nos como foi o processo de pesquisa para escrever o livro.

Foi bem cansativo, mas gratificante. Todos os dias eu saia do trabalho (meu expediente encerrava às 17 horas) e me sentava no café da Livraria Cultura até às 22 horas, horário em que a loja fechava.

Nos fins de semana, chegava um pouco mais cedo, por volta das 13 horas.

Conhecia os funcionários do café pelo nome e eles, em contrapartida, já traziam logo meu pedido favorito (café com creme de avelã).

Sentava em uma mesinha isolada com meu computador, os livros do Câmara Cascudo e meu material de desenho, passando as horas me alternando entre pesquisar, escrever e desenhar.

Foram quase dois anos seguindo esse ritmo. E isso tudo foi só o começo!

Com o manuscrito pronto, comecei a pesquisar diferentes formas de publicação, até que conheci a Vanessa Passos, consultora literária e idealizadora do Pintura das Palavras.

Foi ela quem me auxiliou e me colocou em contato com a editora Letramento que aceitou publicar meu livro.

Victor Hugo Cavalcante: Qual está sendo o feedback das pessoas que já leram o livro?

Está sendo ótimo! Confesso que não sou muito boa em utilizar redes sociais, mas o público que consegui alcançar são leitores maravilhosos que apreciaram a minha obra.

Tanto que cheguei aos 500 exemplares vendidos.

E grande parte dessa realização eu devo a Hocus Pocus, loja virtual que faz a venda dos meus livros.

Victor Hugo Cavalcante: Você já tem em mente ou rascunhado em algum lugar alguma ideia para um novo livro?

Eu sou sagitariana. O problema não é ter uma ideia, é escolher uma para focar. (Risos)

Perguntaram-me uma vez se um dos meus projetos incluía um segundo volume do Guia.

Não faz parte dos meus planos imediatos. Eu tenho o material pesquisado já, porém tenho outros livros que prefiro focar.

No momento estou tentando me decidir entre três projetos: um livro de contos, um com imagens em aquarela e um que se passa em uma terra futurista (temas nada a ver, eu sei).