Bratislava tocando Fogo no país

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Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar perguntando: Recentemente vocês tocaram no evento Natch Sessions com as bandas Marujos e Cat Vids, conte-nos um pouco de como foi o show e o que o público achou.
Bratislava: Foi uma noite ótima. A Breve é um emblema na música independente em São Paulo, talvez tenha sido o quarto ou quinto show da banda na casa. Tocamos como sempre fazemos, com intensidade e paixão. 

Recebemos feedbacks bem positivos do público, opiniões de que o live é muito superior ao álbum de estúdio e de que a performance da banda impressiona. Daqui do nosso lado, fazemos sempre o show com o sangue quente, e costumamos ser bastante sensíveis à resposta que o público dá durante o show. Isso afeta bastante a nossa performance. Como o nosso show tende a ser contemplativo e inclusivo, o público normalmente leva 2 ou 3 músicas pra entrar no clima. Então é comum que o nosso show tome sua melhor forma depois das primeiras músicas. É o que sentimos.

Sobre o evento citado anteriormente (Natch Sessions), vocês já tinham tocado com as bandas que tocaram no evento? Como foi esta estreia de tocar no mesmo show que eles?
Ambas as bandas são ótimas. Marujos é linda, ambas as musicistas tem vozes bonitas e tocam com leveza. Ainda não conhecia o trabalho delas, mas quero ouvir mais, acompanhar. Cat Vids foi a primeira vez que vimos ao vivo, mas já conhecíamos o projeto. O show é leve, a atitude do Pedro (vocalista e compositor da banda) faz total sentido com o som que ele apresenta, é divertida e despojada. O som bate de primeira, é um show que ainda vou ver muitas vezes.

Segundo release da banda, o disco Fogo contém um tempo menor do que o disco anterior (Um Pouco Mais de Silêncio - 2015) porém contém uma letra mais abrasiva, ou seja letras fortes e mensagens claras. Por que vocês decidiram priorizar as palavras ao invés do tempo das músicas?
A média de tempo das nossas músicas sempre girou em torno de 3 a 5 minutos, isso não mudou do UPMDS para o FOGO. O que mudou foi o tempo total do álbum, que de 54 min caiu pra 30 min, quase a metade. Isso rolou por conta de uma percepção nossa do consumo de música hoje em dia, muito mais dinâmico. Achamos que não estávamos no momento de jogar uma grande quantidade de novas músicas para o nosso público, mas de focar e juntar em um álbum as que mais gostávamos e que formavam um conjunto coeso. 

Ainda sobre o disco Fogo ele contém um pouco de niilismo, como surgiu esta ideia de abordar esta doutrina filosófica?
É uma maneira de enxergar o mundo que faz sentido pra mim, a ausência de sentido inerente nas coisas. Cresci em berço cristão e durante a adolescência me vi "descascando" os princípios e doutrinas que me foram ensinadas na infância. Depois de descascar o núcleo não sobra nada e, na mesma medida em que isso soa terrível, também é libertador porque permite um entendimento mais limpo sobre os nossos impulsos e desejos (ou a falta deles, muitas vezes). E mesmo simpatizando com a filosofia, não faço dela minha religião, mas sim como utilitário científico e ferramenta de libertação.

Claro, se formos considerar um niilismo religiosamente absoluto, não haveria Bratislava, música ou qualquer tipo de atividade criativa - já que, sem valores, significados ou verdades inerentes, qualquer tipo de ação não encontra, em si, propósito pra que seja realizada. Em outras palavras: fazer música é uma atitude anti-niilista, porque no fazer-arte há uma intenção, desejo ou sonho do artista. Um propósito, por mais abstrato, caótico ou cínico que seja.

O discurso de Fogo se baseia no abrir mão de estruturas pré-concebidas como ponto de partida para a criação de propósitos únicos, sentidos-da-vida pessoais. "A sensação de que nada faz sentido me assalta mas não me intimida - na real isso só me motiva", trecho chave do disco, é um discurso que pode ser entendido como niilismo otimista.

Falando em niilismo, esta doutrina filosófica atinge as mais variadas esferas do mundo contemporâneo (literatura, arte, ciências humanas, teorias sociais, ética e moral), representada até mesmo em séries animadas populares, como Rick & Morty. Comparando com o rock alternativo, que têm como princípio acabar com o modismo do mundo e da arte, falar sobre a doutrina niilista não seria ir contra esta percepção?
Acho que niilismo tá longe de ser mainstream como brincando com o bumbum (risos). O rock alternativo é um híbrido. Na mesma medida em que é uma peça de entretenimento, tanto quanto a música da Anitta ou do MC Kevinho, é também espaço para o compartilhamento de ideias complexas/profundas, há espaço pra formas complexas de beleza (que eventualmente vão se nutrir de jazz, música clássica e música experimental/vanguardista). Não acho que o alternativo queira ACABAR com modismos, porque muitas vezes se serve deles como referência. No fim do dia, é apenas um entre milhões tipos de estética e expressão.

E só um adendo: acho que hoje, todo rock é alternativo, né?

Voltando a falar mais "superficialmente" do disco Fogo, a primeira música contou com a participação do cantor Gustavo Bertoni (Scalene), e a sexta música (Dança de Doido) com Aloízio Michael. Como rolou o convite para ambos? O que eles acharam da letra das músicas Enterro e Dança de Doido?
Aloízio é amigão nosso. Fomos apresentados um ao outro há alguns anos pelo Beto Mejia, outro grande amigo, em algum show no Prata da Casa (programação gratuita do SESC Pompéia). Já dividimos palco inúmeras vezes e em 2017 chegamos a montar um show conjunto para o Festival Fora da Casinha, com músicas do repertório da Bratislava e do Aloízio, re-arranjadas para o formato de big-band. Quando gravamos Dança de Doido achamos que ela tinha algo da pegada dele e resolvemos chamá-lo pra fazer o solo de guitarra e algumas vozes de apoio. Curtimos demais o resultado. Já com o Gustavo o contato é um pouco mais recente. 

Conhecemos pessoalmente a galera da Scalene no ano passado, e a ideia de chamar o Gustavo pra cantar Enterro comigo veio depois de uma jam que rolou no estúdio Family Mob. Ambas as participações ficaram lindas, reforçam muito a intenção das canções.

A quarta faixa do disco Fogo (Trancado) virou um clipe. Como foi feita a escolha da música para virar um trabalho audiovisual? Nos conte um pouco sobre como foi a gravação deste clipe deste sua ideia inicial até o produto final. Pretendem lançar mais algum clipe das músicas do Fogo?
Deixamos pra selecionar a canção de trabalho do álbum algum tempo depois de lançado, pra poder sentir os feedbacks e conhecer melhor a obra como um ouvinte externo. Entendemos que Trancado era uma das músicas centrais do conjunto e quisemos expandir, protagonizar ela. Filmamos tudo em 2 locações (estrada para Paranapiacaba e estúdio Lâmina, em São Paulo) e o clipe foi dirigido com um norte mais estético do que narrativo, dando ênfase aos climas, cores e cenários pra que a narrativa da letra crescesse, ganhasse mais aparatos.

Sobre novos clipes desse álbum, ainda é uma conversa aberta aqui entre a gente.

Quais são os principais planos da Bratislava para 2018?
Acho que é cedo pra dizer. Estamos constantemente tentando entender o nosso momento, sacar o que a gente tá com vontade de fazer. Janeiro tá sendo um mês de ideias nubladas, mas logo mais aparecemos com trabalhos novos. Bratislava é uma banda inquieta, a gente não fica quieto por muito tempo.