Velicastelo: Sobre um Romance Qualquer

Créditos: Divulgação

Na HQ independente Um Romance Qualquer, Alex, uma adolescente transgênero de 16 anos, esconde de todos que está em transição para o gênero feminino num colégio interno.

Ela não sabe como contar a todos e espera que ao menos Bóris, seu irmão mais velho e tutor, volte da guerra para que ela se assuma.

Nossa protagonista lida com o bullying, com as inseguranças próprias da adolescência e de como o irmão vai reagir à novidade, mas tudo corre mais ou menos como ela planeja até a chegada do Ralph, seu novo colega de quarto.

Nesta entrevista conversamos sobre esta HQ e muito mais com a ilustradora e quadrinista Velicastelo (ou Guilhermina Velicastelo, para os mais íntimos) de 29 anos e que vive atualmente em Porto, Portugal.

Victor Hugo Cavalcante: Primeiro é um enorme prazer te entrevistar e gostaria de começar perguntando: Você é ilustradora e quadrinista, como surgiu estas paixões?

Velicastelo: Surgiram na infância, meu trabalho é muito influenciado pelo anime Sailor Moon, Guerreiras Mágicas de Reyarth e outros.

Sempre gostei dos desenhos animados educativos da TV Cultura com cenários em aquarela cheios de luz, Castelo Rá-Tim-Bum e livros de histórias infantis.

Sempre fui fascinada por misticismo e fantasia e jogar o RPG Dungeons and Dragons e desenhar os personagens dos jogos.

Victor Hugo Cavalcante: Seu nome é Guilhermina Velicastelo, como surgiu a ideia de assinar sua HQ como Velicastelo?

Velicastelo era o sobrenome de um personagem meu de RPG um gnomo que era dentro do mundo imaginário um artista e eu comecei a assinar os desenhos dos personagens do jogo como Velicastelo e desde então nunca mais parei.

Victor Hugo Cavalcante: Em suas redes sociais podemos acompanhar parte da história em quadrinhos intitulada Um Romance Qualquer, como surgiu a ideia desta história e seu título?

A ideia surgiu quando eu lia um mangá (Boku Girl) onde um garoto se transforma magicamente numa garota e tem problemas no colégio por conta disso.

Porém a história tinha alguns aspectos que me incomodavam e que problematizei. E apesar de ser uma história tageada como TS ROMANCE não tinha nada que representasse a comunidade T ali.

Depois eu procurei por histórias em que protagonistas trans existissem e em que nelas abordassem seus conflitos dores e dramas. Não encontrei nada muito profundo então decidi começar a minha.

Nunca tinha feito comic na vida. Um romance qualquer surgiu da vontade de ler algo do gênero e da falta da representatividade que a comunidade T tem nessa área.

Outra coisa é que depois vi que queria uma história muito clichê, porque nós da comunidade T somos sempre vistas como o exótico e a antítese disso é o comum, o clichê. Portanto vi, com o crescimento do interesse das pessoas em URQ, que precisamos mesmo de mais e mais clichês até que deixemos de ser o exótico, até que a sociedade pare de nos fetichizar.

Eu passei um ano desenhando e me sentindo insegura quanto ao meu desenho, quanto a nunca ter feito quadrinhos na vida, mas passei por uma separação e que me fez vez que quanto mais eu estiver insegura as possibilidades não veem e que eu deveria parar de me preocupar com o julgamento dos outros e postar, só assim eu evoluiria até mesmo no traço.

Quanto ao título, eu sou péssima pra nomear as coisas. Ia se chamar Canddlelight, mas a metáfora com a vela não funcionava então decidi chamar de Um Romance Qualquer pra evocar e brincar mesmo essa sensação do clichê.

Victor Hugo Cavalcante: Você pretende algum dia publicar a versão impressa da história do romance entre a Alex e o Ralph ou outra história em quadrinhos, por quê?

Gostaria muito, só que estou num momento (procurando emprego, fazendo doutoramento e desenhando o comic) que quase não tenho energia para buscar isso.

Quando a história chegar ao fim no meu Instagram eu vou me dedicar mais a fazer acontecer uma versão impressa.

Victor Hugo Cavalcante: Você já sofreu algum ataque de hater por causa da história contada no Um Romance Qualquer?

Não diretamente. Uma das publicações em que masturbação é sugerido (mas nada explícito) foi excluída) por denúncias.

Victor Hugo Cavalcante: Em seu Instagram e Facebook você oculta algumas partes extras do Um Romance Qualquer para quem quiser acompanhar via PDF através de compra online via Hotmart. Como você decide qual parte da HQ poderá ser lida nas redes sociais?

Tudo o que está nas redes sociais é focado na Alex e na transição dela. O que mais ou menos sai disso é colocado como cenas extras.

Mas nem são tantas, diria que 98% da história está disponível para todos.

Victor Hugo Cavalcante: Em Um Romance Qualquer a história centra-se na vida de Alex, uma adolescente transgênero de 16 anos, que esconde de todos que está em transição para o gênero feminino num colégio interno.

A protagonista lida com o bullying, com as inseguranças próprias da adolescência e de como o irmão vai reagir à novidade, mas tudo corre mais ou menos como ela planeja até a chegada do Ralph, seu novo colega de quarto. Para você enquanto transexual o quanto de experiências vividas por você foi colocada no roteiro e nas linhas da HQ?

O HQ é como se fosse o que eu queria ter vivido da minha adolescência e não pude. Eu sempre soube desde muito cedo que homem eu não era.

Nunca me encaixei naquilo e fui crescendo e ficando muito feminina. Tive que esconder de todos na minha adolescência quem eu era e perdi uma parte da vida em que muita gente se descobre, faz besteira e enfim.

Porque na época, (10-15 anos atrás) eu tinha muito medo de ser expulsa de casa e acabar sem apoio. Só fui exercer meu género feminino pra sociedade quando tinha por volta dos 23-24 anos quando já formada.

Mas apesar de todas as minhas inseguranças minha família me deu muito suporte. O que acontece com a Alex é um misto do que eu queria que acontecesse comigo, com coisas que de fato aconteceram comigo e claro todo um trabalho de roteiro pra fazer a histórias ter momentos de drama e suspense pra, bem... ser uma história que as pessoas gostem de ler, que tenha ritmo e emoção.

Victor Hugo Cavalcante: Para falar um pouco sobre a transição entre os sexos você usou alguma pesquisa médica ou utilizou mais da sua própria experiência?

Um pouco dos dois. Fiz mais ou menos como a Alex, comecei muito sem saber, depois comecei a pesquisar bastante e depois quando finalmente tive acesso a uma médica endocrinologista consegui tratamento adequado.

Victor Hugo Cavalcante: Embora hoje muito se fale (e aceite) sobre o universo LGBTQIA+ (Principalmente quanto falamos sobre gays e lésbicas) ainda existe um forte preconceito quando se fala em transexualidade, para você qual a importância de cada vez ser mais retratada na arte a vida de pessoas trans?

Exatamente o que falei mais acima. Quando se fala o nome TRAVESTI, TRANS, etc as pessoas vão sempre relacionar à prostituição e ao sexo.

Tem um problema estrutural perverso que obriga muitas de nós a estar na indústria do sexo e o problema reside principalmente ai. Não nos dão escolha.

Sempre estamos na esquina ou no Pornhub, somos sempre o segredo, o estranho, somos sempre representadas como não humanos, indignos de amor e afeto pela sociedade heteronormativa e até dentro do meio LGBTQIA+.

Por isso, precisamos de representações nossas sadias, com certos dramas, mas de modo geral felizes, bobas, clichês, bregas, leves. Estou cansada de ver histórias trágicas de pessoas trans, tanto na vida real quanto na ficção.

Acho que A Alex, eu e todas da comunidade T precisamos de histórias mais bonitas e cheias de finais felizes.

Victor Hugo Cavalcante: Ainda falando sobre representatividade, qual o feddback dos leitores, principalmente dos leitores transexuais, tanto da versão completa quanto da versão postada nas redes sociais?

Eu acho no geral sempre muito positivo. Adoro interagir com eles nos comentários e me emociono muito com pessoas trans emocionadas de se sentirem finalmente representadas e contentes em ler a história da Alex.

Victor Hugo Cavalcante: O quanto de cada personagem principal (Alex, Ralph e Bóris) tem em você?

Todos os personagens têm um pouco de mim, até o Jonas! Mas eu me vejo muito na Amanda, na Mel e na Alex.

Victor Hugo Cavalcante: Quais são seus quadrinistas e Hq's favoritos e que mais te influenciam e em que eles influenciam?

Então, (risos envergonhados), confesso que não sou a devoradora de comics.

Eu gosto muito de webtoons de boys love coreanos, mangás yaoi (entre garotos), romance, garotas mágicas e alguma coisa do Neil Gaiman.

Uma história que me marcou muito foi Killing Stalking (uma webtoon coreana sobre um relacionamento abusivo entre dois garotos) e o mangá Boku Girl que foi a inspiração para Um Romance Qualquer.

Victor Hugo Cavalcante: Quais as principais dicas que você dá para quem deseja algum dia se tornar quadrinista/ilustrador?

Não tenha vergonha de mostrar sua arte para o mundo, porém mantenha sempre a cabeça e o coração aberto para críticas!

Victor Hugo Cavalcante: Conte-nos o que podemos esperar para os próximos trabalhos (tanto para Um Romance Qualquer quanto outros trabalhos) além do que já foi comentado nas perguntas acima.

URQ tem três capítulos, a história já está fechada. Eu faço uma mudança pequena só em falas, mas a história mesmo já está escrita e ate agora não senti necessidade de alterar nada.

Depois de URQ quero dar uma pausa e investir em mais histórias envolvendo pessoas trans e não binárias.

Quero muito fazer algo com fantasia, magia e essas coisas. Tenho algumas histórias em mente. Mas prefiro manter segredo.