Henrique Cartaxo versa seus rumos em disco de estreia

Créditos: Pedro Campanha

"A saudade percorre todo o disco como um sentimento fundamental, se manifestando de diferentes maneiras da terra ao céu, do céu ao sol, do sol ao mar".

Para o músico, cantor e compositor baiano (radicado em São Paulo) Henrique Cartaxo, "saudade é sempre saudade".

Hoje, no contexto do isolamento social, sentimos mais falta do que nunca, das pessoas, lugares e coisas pequenas.

Tal sentimento ecoa ao longo de onze faixas de Bai, disco de estreia de Cartaxo, que podem ser ouvidas nas principais plataformas digitais e em versão visual no Youtube, dirigida também por ele.

Guardado num prédio que nem bolacha/ Num pote, na chuva/ No meio da praça, versa Piatã, fundindo memória e o tempo presente. Então se eu cantar a dor de um amor, solidão ou loucura/ Pode ser a arquitetura de uma ponte mais segura/ Entre eu e você:  qual seria, hoje, a arquitetura da ponte segura cantada em Manifesto?

Ao longo do álbum, Bai remonta lembranças, sensações e desejos e nasce para o mundo num momento repleto de incertezas e nostalgia.

Com produção musical de Ivan Gomes e André Bordinhon, o disco traz as participações especiais de Inés Terra, Daniel Dias, Marina Beraldo (Bolerinho) e Rafael "Chicão" Montorfano (Quartabê).

"As canções são bem separadas no tempo. A maioria foi feita entre 2012 e 2017, nos meus primeiros anos morando na cidade de São Paulo", explica Cartaxo.

"Várias outras faixas foram atualizadas através do arranjos, equilibrando os sentimentos que originaram as canções e as deste momento mais atual", declara. Na sonoridade, Cartaxo reforça seu estilo cancioneiro, com o qual passeia pela cena autoral paulistana.

"A minha referência consciente maior é a obra de Caetano Veloso, como é para tantos cancionistas. Me inspiro muito nessa corrente da música brasileira que usa a canção como forma de refletir sobre a vida, sobre os acontecimentos, sobre o amor, o infinito e a finitude. Para muitas pessoas no Brasil, a canção é a psicanálise, a terapia, a filosofia, a medicina. É nossa maneira de pensar talvez mais disseminada e frutífera", reflete o músico, que entre outras influências cita Belchior, Gil, Tom Zé, Radiohead e artistas contemporâneos a ele como Giovani Cidreira, Maria Beraldo e Peri Pane.

Entre as saudades cantadas em Bai está a da Bahia. Soteropolitano, ele versa sobre as idiossincrasias da vida de um nordestino que mora em São Paulo hoje em dia, seu amadurecimento e as relações humanas dentro da cidade, mesmo que alguns versos tenham sido criados em outras andanças pelo mundo.

O percurso, a solidão, os estranhamentos, mas também os encontros e acolhimentos inesperados estão presentes como inspirações.

A ideia de trazer uma versão visual do álbum vem também de uma tentativa de estar mais próximo, não só do público, mas também dos amigos, já que no momento atual não é possível realizar um show ou uma festa de lançamento.

Editor de cinema, Cartaxo convidou amigos da área e artistas da dança contemporânea de São Paulo para participar. O resultado são imagens oníricas que dialogam de maneira sensível com os temas propostos pelas faixas.

"Pedi a algumas pessoas queridas que gravassem em suas casas pedacinhos de vídeo e me mandassem. Com eles estou compondo os vídeos", comenta Cartaxo.

"A resposta e as colaborações que recebi foram muito bonitas, sinto que todo mundo fez com amor, acho que já nos encontramos um pouquinho, mesmo virtualmente, no processo".