Entrefolk com Paola Giometti

Créditos: Paola Giometti (Instagram)

Milhões de desempregados, fome, bandidagem e luta por sobrevivência. Esse é o cenário que o brasileiro enfrenta já há muitas décadas.

Mas houve um boato de que um vírus chamado Covid-19 se espalhou pelos quatro cantos do mundo e chegou ao Brasil.

Com um presidente que diz e desdiz as informações, com um povo que acredita e desacredita, os brasileiros simplesmente se dividem. Poucos dias depois acontece uma onda de mortes que foi capaz de desestabilizar todos os setores do país.

Os acessos à comida, ao dinheiro, à dignidade são muito limitados. Infectados caem às ruas, pois não há nem mais leitos em hospitais e as funerárias estão em colapso.

A sobrevivência agora se tornou não só uma questão de capacidade como também de sorte. O inimigo invisível está por aí e você terá que sobreviver a ele também.

Eis o cenário do jogo criado por Paola Giometti com o título mais votado nas redes sociais (President Evil), e que alcançou a incrível marca de quase 300 downloads em 24 horas de lançamento.

Quer conhecer mais do RPG e de sua criadora que também é escritora? Confira a entrevista que fizemos.

Victor Hugo Cavalcante: Primeiro é um prazer poder recebê-la em nosso site, e gostaria de começar perguntando: Como surgiu a ideia do RPG President Evil e como surgiu seu título?

Paola Giometti: Muito obrigada pelo convite. Eu moro no exterior e há pouco mais de um mês vieram noruegueses comentar comigo sobre as famosas frases de Bolsonaro (relacionadas com brasileiro ser nadador de esgoto e por isso ser imune ao corona, e sobre ele ter sido atleta e que teria só um resfriadinho).

Então fiz um post aos amigos do Brasil mostrando o que as grandes mídias internacionais comentavam sobre essas frases. Mas muita gente me atacou, fui xingada e até chamada de escritora rasa, com PhD em Nárnia.

Eu tinha ficado muito brava com a reação das pessoas para cima de mim, que só estava passando uma informação. Então quando fui tomar banho, revoltada, encontrei uma solução para responder a esses ataques.

Eu não sigo partido político nenhum, não concordo com extremismo alienado, eu concordo com o caminho do meio, pois é mais racional.

Então criei o jogo onde você pode ter a chance de ser um personagem da classe Nadador de Esgoto, cuja imunidade é mais alta, ou pode ser da classe Atleta na Juventude, por exemplo, que ainda sabe como saltar um pouco mais alto que a maioria.

Ao mesmo tempo, o objetivo do jogo é manter a imunidade, pois a cada três turnos os jogadores serão expostos ao coronavírus e deverão lutar para manter a imunidade acima da metade, caso contrário apresentarão os conhecidos sintomas e poderão morrer.

Centenas de pessoas sugeriram nomes e votaram. Havia Pandemonium, Health Hunters, Quarenteners...

Mas o President Evil foi sugestão do Thiago Lima, e ganhou disparado! Foi perfeito e muito engraçado também.

Victor Hugo Cavalcante: Quais foram suas principais inspirações reais e fictícias para criar o President Evil?

As inspirações reais foram as frases bizarras do atual presidente diante da pandemia e as medidas para evitar pegar o coronavírus como a quarentena, itens que auxiliam a diminuir as chances de contrair o corona, a evolução da doença em pessoas com baixa imunidade. Tudo isso foram elementos para basear as regras do jogo.

As inspirações fictícias foram a criação de um cenário apocalíptico como se o Brasil estivesse em quarentena há muitos anos, já que as pessoas por inúmeros motivos não seguem a uma quarentena adequadamente.

No cenário do jogo, as ruas estão abandonadas, a economia está completamente falida e só há sobreviventes. Imaginei que fazendo o jogo as pessoas poderiam se colocar no lugar de personagens num cenário muito ruim, e até mesmo sentir um pouco a importância de proteger ao próximo e a si numa pandemia.

O RPG President Evil traz uma forma de conscientização indireta, por meio do entretenimento. Ele simula a vida real de um modo lúdico.

Victor Hugo Cavalcante: Ainda sobre o RPG, ele tem um título que nos remete à franquia nerd intitulada Resident Evil, além desta semelhança, existe alguma outra semelhança entre a história criada para o RPG e a franquia nerd que contém jogos, livros e filmes?

Na verdade não tem nada relacionado com o game Resident Evil, que por sinal sou muito fã.

O jogo foi mais inspirado no sistema Storytelling como de Vampiro - A Máscara, Mago - A Ascenção, pois criei uma tabela de vitalidade imunológica e física baseada na Ficha do Personagem desse sistema, bem como os atributos físicos, sociais e mentais.

Victor Hugo Cavalcante: Quais suas influências literárias (autores prediletos) e inspirações para escrever um livro?

São muitas que não sei nem por onde começar... (Risos)

 Eu gosto muito de Bernard Cornwell, Michael Ende, J.K.Rowling, Tolkien, Neil Gaiman, Rick Riordan...

Geralmente a natureza me inspira muito e com certeza os momentos da minha vida. Meus cães me inspiraram O Destino do Lobo, uma depressão muito forte que eu tive me levou a escrever O Código das Águias, e o processo da minha mudança para a Noruega me levou a escrever O Chamado dos Bisões.

Drako e a Elite dos Dragões Dourados foi escrito quando eu tinha 16 anos e tentava me libertar dos padrões que as pessoas colocavam em mim e dos relacionamentos abusivos.

Symbiosa foi escrito para mostrar como o elo com um animal pode fazer as pessoas viverem melhor... Enfim, a vida é muito boa para a gente encontrar histórias que podem ser contadas.

Eu também gosto muito de livros de ocultismo e mitologia, e tudo isso me ajuda a dar o tom dos meus livros.

O videogame também é uma fonte te inspiração forte para pensar em cenários. Andar nas montanhas costuma ser também o lugar certo para eu encontrar uma história e um modo que eu possa contá-la.

Aprender métodos de escrita também ajuda a desenvolver a fluidez das ideias.

Victor Hugo Cavalcante: Para você enquanto escritora de cinco livros (Noite ao Amanhecer, Drako e a Elite dos Dragões Dourados, O Chamado dos Bisões, O Código das Águias e O Destino do Lobo), o que nunca pode faltar num bom livro com o mesmo gênero literário que o seu?

Eu penso que meu estilo de escrita envolva um pouco sobre a realidade da vida, mas contada com personagens animais e seres fantásticos.

E por causa dessa "realidade da vida", no fundo acaba dando alguma lição no final. Não é proposital, acho que é uma consequência de uma fase que, quando superada, evoluímos alguma coisa e o personagem que nos representa, também.

Victor Hugo Cavalcante: Você é muito conhecida por utilizar em suas histórias misticismos e a criação de termos próprios, como Magiquímica (um tipo de magia) utilizada no livro Drako. Porém, todos podem ser trazidos de forma didática para a realidade da nossa sociedade. Porque você decidiu unir um pouco de aprendizado para a realidade e ficção?

Eu tenho sentido que as histórias que trazem mais sentimentos e reflexão sobre a vida são histórias que vivem por mais tempo dentro das pessoas. Não é igual ler um livro de auto-ajuda.

É você se apegar ao personagem e torcer por ele para que ele fique bem. Histórias com contexto de aprendizado me tocam mil vezes mais do que ficção pela ficção.

Um exemplo disso é o livro História Sem Fim, que traz um drama psicológico bastante forte sobre o "reencontrar a família"; o filme Sempre ao seu Lado, que traz o contexto de uma amizade tão fiel e emocionante que chega a dar nó na garganta; Harry Potter nos traz um órfão que sofre bastante na mão de familiares, mas que encontra nos amigos a sua verdadeira família.

Esses ensinamentos eu acredito que nos marcam muito mais do que um livro só pelo livro, ou um filme Hollywoodiano só pelo filme.

A Magiquímica, como você citou, é uma prática que o Drako sonha em fazer, pois com ela podemos transformar tudo à nossa volta, e a Magiquímica está muito relacionada à Alquimia e à nossa Transmutação Interior para solucionar problemas.

Victor Hugo Cavalcante: Sobre ser comparada ao escritor britânico Terry Pratchett, você acha que isto mais te atrapalha ou mais ajuda na hora de ser reconhecida e escrever novos livros? Por que e o quanto esta comparação te ajuda e atrapalha?

Eu fico é honrada com essa comparação, sem dúvida. Muitas das pessoas que leram Drako vieram me falar desse estilo de Terry Pratchett pelo bom humor e pelo nonsense que Drako também tem.

Mas eu não me prendo a esse estilo, pois gosto muito de escrever histórias mais sérias também. Talvez eu tenha mais de um estilo?

Victor Hugo Cavalcante: Além de livros e de um RPG você publicou também a HQ Wakan Kola, um crossover de O Código das Águias. Quando surgiu a ideia e a oportunidade de lançar este crossover em formato de histórias em quadrinhos?

Eu sempre frequentava o evento Fest Comix e o Festival Guia dos Quadrinhos. Tenho muitos amigos que são quadrinhistas.

Então havia decidido fazer um Fanzine para testar o que eu havia estudado de desenho e quadrinhos e presentear meus amigos para que conhecessem melhor o meu trabalho.

O resultado ficou bacana, com a história de um boi-almiscarado que encontra o Velho Águia. Na história original (O Código das Águias), tudo é contado na visão da águia.

Em Wakan Kola, acontece esse mesmo encontro, mas é descrito não na visão da águia, e sim na do boi-almiscarado, que no fundo acrescenta a sua própria versão, de um animal que não se sente muito bem e que o inverno o "levará" em breve.

Victor Hugo Cavalcante: Para você existiu alguma diferença entre escrever uma história em formato de livros, HQS e RPG? Por quê?

Muita diferença. Em livros você tem que fazer uma forte pesquisa para criar a história e você pode ocultar algumas informações. Em HQs você precisa pesquisar para saber como vai ilustrar a cena, e precisa tomar cuidado com os detalhes, que às vezes não podem ser "escondidos" nas entrelinhas da história, pois você precisa ter pleno conhecimento daquilo que está desenhando.

Não adianta você desenhar um animal realista com quatro dedos se ele tem cinco. Se é cartoon, tudo bem.

Se você vai desenhar alguém tirando sangue pela veia do braço, você precisa colocar a agulha na posição correta, caso contrário estará errada no desenho, e quem conhece o assunto vai perceber.

Histórias de época acredito que são as mais difíceis de ilustrar já que você precisa saber que os elementos correspondem à época que você quer retratar.

Já um RPG também não é fácil, pois você precisa criar as regras que irão fazer seu jogo ter ou não fluidez. Você tem que tentar imaginar se as regras funcionam no contexto de inúmeras histórias que você possa imaginar.

Portanto, livro, HQ e Sistema de RPG são três desafios bastante diferentes e todos ao meu ver, requer gostar, ter muita paciência e estar familiarizado com o que você está fazendo.

Victor Hugo Cavalcante: Role-playing game, também conhecido como RPG, é um tipo de jogo em que os jogadores assumem papéis de personagens e criam narrativas colaborativamente. Para você por ser uma escritora profissional isso te ajudou na hora de montar o roteiro do jogo?

Acredito que pelo fato de ter ideias para muitos estilos literários e ao mesmo tempo conhecer diversos sistemas de RPG, certamente tudo isso me ajudou a desenvolver o sistema de RPG President Evil.

Acredito que qualquer pessoa que tenha bastante criatividade e conhecimento em RPG poderia ter criado o sistema. Ter o bom humor no sangue acredito que também ajudou a dar o tom de sátira.

Victor Hugo Cavalcante: Quais as principais dicas que você dá para quem deseja algum dia se tornar escritor?

Ler muito os estilos literários que você gostaria de escrever, anotar suas ideias não deixando para depois (já que podemos esquecê-las), tentar fazer algo diferente, tentando fugir um pouco dos clichês.

Victor Hugo Cavalcante: Qual está sendo o feedback das pessoas sobre o President Evil?

As pessoas estão mandando muitas mensagens privadas agradecendo pelo jogo e também fazendo inúmeros elogios.

Claro, há os que passaram a me detestar depois disso, mas a maioria gostou muito. Já estamos indo para os 7000 downloads do game e inúmeros sites de RPG e grupos das redes sociais estão compartilhando.

A aceitação foi incrível, não podia imaginar o impacto que teria, e ao mesmo tempo, que poderia ver mestres agendando Lives do President Evil com jogadores pelo Facebook.

Amigos meus sempre me avisam quando percebem que fui parar em algum grupo de WhatsApp ou site de games.

Victor Hugo Cavalcante: Já existe algum livro ou ideia rascunhada na sua mente ou no papel/computador ou pretende escrever em breve? Conte-nos um pouco sobre esta novidade/ideia.

São muitas ideias e eu tento organizar aquelas que estão mais a favor do momento, e geralmente o momento é relacionado com minha vontade de escrever.

Estou desenvolvendo o quarto livro da série Fábulas da Terra, onde a história narrada será a do temido Kodiak, o urso-pardo. Estou desenvolvendo também uma história baseada na mitologia nórdica, mas contada de uma forma diferente através dos animais da região em que vivo.

Estou também trabalhando em uma nova série mais voltada para o público dos games de época, onde envolverá ocultismo e personagens humanos. Enfim, logo vocês verão essas ideias por aí, na internet, em forma de livros.

Muito obrigada e grande abraço para vocês do Jornal Folkcomunicação!