Folkeando com Ana Paula Bernardes e Tino Freitas

Créditos: Tino Freitas (Facebook)

De pinturas rupestres de antigas cavernas até os tecidos atuais, os autores Ana Paula Bernardes e Tino Freitas traçam a origem da cor vermelha em O Tapete Vermelho, recente lançamento da Editora do Brasil que traz também ilustrações de Sandra Jávera.

Victor Hugo Cavalcante: Primeiro gostaria de agradecer por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar perguntando: Como surgiu a relação de vocês com a literatura e como surgiu a ideia de serem escritores?

Ana Paula Bernardes e Tino Freitas: Trabalho com formação continuada de professores, na área de mediação da leitura com crianças, desde meados dos anos 2000. Em 2002 conheci o Tino e em 2006 criamos o projeto Roedores de Livros onde exercemos com mais intensidade esse contato com o livro, a leitura e as crianças. Eu e o Tino somos leitores desde sempre.

Mas foi com o nosso encontro lá em 2002, que Tino foi contaminado pela minha paixão literária, e amplificamos nossos sentidos para enxergar a Literatura Infantil como algo mais relevante no nosso cotidiano. Acho que, de certa forma, o contato com as crianças e a leitura no projeto foi o que nos provocou o desejo de escrever.

Victor Hugo Cavalcante: Algumas pessoas têm certa dificuldade para soltar a imaginação e escrever um livro, em se tratando em inspirações o livro Tapete Vermelho de alguma forma foi mais difícil ou fácil escrever em conjunto? Por quê?

Tino: Ana Paula é formada em Artes Plásticas pela UnB, o que nos aproximou do tema do livro (a origem da honra em receber o outro com um Tapete Vermelho) a partir da perspectiva da cor. E nós convivemos juntos por 14 anos, como um casal, e seguimos juntos no que acreditamos ser nosso principal papel no mundo: a construção de um cidadão melhor a partir da inclusão pela leitura.

Então, como leitores compulsivos, não nos faltou imaginação, mas houve um longo trabalho de pesquisa e trocas para que o livro tivesse a nossa cara e não mais a minha ou mais a dela.

Fácil não foi. Um livro a dois exige paciência, sensatez para ouvir o outro. Mas foi um processo sem traumas. O texto fluiu com naturalidade.

Victor Hugo Cavalcante: Quais são seus autores favoritos e que os influenciam enquanto escritores? E no que eles os influenciam?

Ana Paula: Aprendi muito e me apaixonei por Literatura Infantil nas aulas que tive com o Mestre Jô Oliveira no Instituto de Artes da UnB (Universidade de Brasília). Jô é um dos maiores ilustradores brasileiros com prêmios aqui e no exterior. Sua arte é a plena valorização da nossa cultura. Acredito que esse convívio me aproximou ainda mais desse universo.

Tino: Minha autora preferida no gênero (Literatura Infantil) é a Sylvia Orthof (1932 - 1997), cujo texto imprime humor, criatividade e nonsense que emociona pais e filhos. Mas o Tapete Vermelho tem "um quê" de Peter Sís (um ilustrador tcheco, naturalizado norte-americano que apresenta em muitas de suas obras uma linguagem por vezes metafórica e sempre criativa para tratar de temas históricos).

Victor Hugo Cavalcante: Como surgiu a ideia do tema contado em Tapete Vermelho?

Ana Paula: Em 2009 o projeto Roedores de Livros passou a acontecer no jardim de uma creche (Creche Comuntária da Ceilândia) e as leituras aconteciam com todo mundo em círculo, sentados na grama. Sempre havia uma ou outra formiga que passeava na gente, entre outros pequenos desconfortos que atrapalhavam as atividades.

Achamos que era preciso levar um tapete. Lembramos que um tapete vermelho recebe os visitantes com honra e respeito (como sempre recebemos as crianças). Daí pesquisamos a origem dessa ideia e no dia que levamos o tapete vermelho para a creche, chamamos as crianças e contamos essa história.

Gostamos tanto que um dia resolvemos escrevê-la. E eis que agora temos um livro.

Victor Hugo Cavalcante: De pinturas rupestres de antigas cavernas até os tecidos atuais, vocês traçam a origem da cor vermelha em Tapete Vermelho, recente lançamento da Editora do Brasil que traz também ilustrações de Sandra Jávera. Quando e como surgiu a oportunidade de convidar a ilustradora Sandra Jávera para ilustrar o livro?

Tino: Quando os editores Gil Vieira Santos e Paulo Fuzinelli indicaram a Sandra Jávera para o projeto, nós vibramos MUITO com a possibilidade. Sabíamos que ela daria mais beleza, sentido e forma ao livro.

Difícil foi esperar o livro ficar pronto, tamanho a nossa ansiedade em ver as artes dela somadas ao nosso texto. Foi incrível tê-la conosco. Somos fãs da arte da Sandra Jávera de há muito.

Entre os livros ilustrados por ela que temos no projeto Roedores de Livros, por exemplo, estão o Terra de Cabinha (de Gabriela Romeu, Cia das Letrinhas) e Meu Mundo no Mapa do Mundo (de Jonas Ribeiro, Editora do Brasil).

Victor Hugo Cavalcante: O que os leitores podem esperar do livro Tapete Vermelho?

Ana Paula: Cada leitor tem seu próprio mundo e acreditamos que os livros não devem trazer uma certeza, uma ideia da verdade. Então para um leitor que conhece a Serra da Capivara e a arte rupestre que estampam suas cavernas, verá o livro de um jeito singular.

Como o farão os leitores de projetos de Mediação de Leituras. Como o farão crianças e adultos próximos do universo das artes plásticas, que, por exemplo, podem se ver tentados a produzir a tinta vermelha como se fazia há 30 mil anos.

O Tapete Vermelho oferece essa multiplicidade de caminhos para a leitura. Por isso, o que realmente esperamos dos leitores é que eles se emocionem com o livro.

Victor Hugo Cavalcante: Uma das inspirações para O Tapete Vermelho foi o projeto Roedores de Livros, que começou suas ações de incentivo à leitura em 2006, oferecendo leituras e empréstimos de livros no Distrito Federal. Contem-nos mais sobre este projeto.

Tino: Nossa Bibliotoca (sic) fica na Torre A do Shopping Popular da Ceilândia (DF). Possui um acervo com mais de cinco mil livros infantojuvenis. E lá acontecem sessões de mediação de leituras, empréstimos de livros, encontros com escritores, ilustradores, editores, gente do livro que aparece lá para um bate-papo com as crianças.

É um projeto voluntário. Abrimos sempre nas manhãs de sábado, mas às vezes, conseguimos uma verba que nos permite contratar mediadores para funcionar também durante o meio da semana.

Ana Paula: O Roedores de Livros é, antes de tudo, uma forma de estarmos em sintonia com o mundo a partir da literatura. Enquanto mediamos leituras, além de partilharmos histórias, também colhemos os frutos de partilhar da vida com as crianças. Lemos COM elas e não PARA elas. Há uma diferença enorme nisso.

É nesse espaço de partilha que TODOS, adultos e crianças, nos tornamos mais tolerantes, amplificamos os afetos, nos descobrimos mais plurais e, de fato. Acho que é um tanto disso.

Victor Hugo Cavalcante: O Tapete Vermelho traz o conceito de que somos todos importantes, além de, claro, falar sobre o valor de se cultivar a fantasia por meio dos livros. O livro é uma homenagem a todos os mediadores de leitura que contagiam as crianças com o "vírus" do prazer de ler. Afinal, para vocês como escritores e profisionais do ramo educativo e da comunicação o quão importante é o valor de se cultivar a fantasia por meio de livros e rodas de histórias para as crianças hoje em dia?

Ana Paula: São as histórias que nos tornam mais humanas. É a partir delas que sabemos como viviam as pessoas no Egito, na Idade Média, como são os costumes na Rússia, como foi a vida e a arte de Leonardo da Vinci, como os indígenas do Xingu pensam, como fazemos a receita de brigadeiro ou do frango com angu e quiabo, por exemplo. Também aprendemos sobre dragões, fadas, duendes.

Entramos em contato com sentimentos profundos. Histórias passadas de geração em geração através das reuniões em família ou transmitidas por meio dos livros.

No Roedores de Livros, são com os livros que transmitimos essas histórias. Apresentamos o mundo para as crianças. Seja ele real, através dos seus costumes, personagens históricos, o bem e o mal que nos habita; ou seja ele pela fantasia, via fábulas, seres fantásticos e mundos imaginados.

O importante de partilhar essas histórias é ajudar na construção desses pequenos leitores em cidadãos mais conscientes do mundo em que vivem. Acreditamos que, com mais leitores críticos, o mundo pode ser melhor para todos.

Victor Hugo Cavalcante: O quanto a tecnologia hoje em dia (principalmente a TV e a internet) atrapalham e ajudam na questão de se cultivar a fantasia das crianças?

Tino: Assim como na literatura, há pontos positivos e negativos em quaisquer novas tecnologias que nos ofertem histórias. Penso apenas que os pais e professores podem intercalar os momentos em que ofertamos as "telas" para as crianças, com leituras de livros físicos. O virar a página é algo tão instigante... o leitor ali, ávido para descobrir o que vem depois... e acho mais ainda: deixe um momento para estarem juntos nesse momento de leitura.

Partilhar histórias com as crianças é um dos mais sólidos caminhos para amplificar os afetos. Acho que desde que as telas convivam com os livros, e que os adultos estejam juntos com as crianças nesses momentos. Histórias e afetos. Com esses dois ingredientes não há tecnologia que faça mal.

Victor Hugo Cavalcante: Como dito anteriormente o livro é uma homenagem a todos os mediadores de leitura que contagiam as crianças com o "vírus" do prazer de ler. Para vocês o quanto o livro pode ajudar aos mediadores de leitura à fazerem mais projetos voltados às crianças e ao prazer da leitura?

Ana Paula: Há muitos projetos de mediação de leituras e acreditamos que essa ação se dá por múltiplos caminhos que vão ao encontro desse leitor. O Roedores de Livros é apenas mais um deles.

O que se pode destacar no Tapete Vermelho, no que se refere à leitura com as crianças, é que, embora não haja uma fórmula exata, é preciso fazer desse momento (seja em casa, com seu filho, na hora de dormir; seja na escola, com seus alunos, na sala de leitura; seja num projeto social numa borracharia, num hospital ou embaixo de uma mangueira) um encontro em que além de boas histórias, haja afeto e respeito para com o ouvinte.

Victor Hugo Cavalcante: Vocês pretendem lançar outros livros ou já existe algum outro livro rascunhado da autoria de vocês dois em conjunto ou separados?

Tino: Nós estamos colecionando uma série de brinquedos cantados. Um bem cultural que acreditamos ser de muita importância para a construção de uma infância mais feliz. Quem sabe uma hora dessas a gente consegue encontrar um caminho, um enredo, uma forma literária que transforme essa coleção num novo livro nosso.