Com vista para o sucesso e um pé no Fliv

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Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente é uma grande honra de entrevistar, e gostaria de começar perguntando: No mês de outubro você esteve no FLIV - Festival Literário de Votuporanga, cidade do interior paulista, como foi que surgiu o convite, e como foi estar longe da capital paulista?

Caroline Rodrigues: Fui chamada pelo curador Reynaldo Damazio, que é também coordenador da Casa das Rosas. Lá eu desenvolvo oficinas para adolescentes, então trabalhamos juntos há algum tempo.

Toda oportunidade de estar longe de São Paulo é sempre muito especial. Acho um privilégio ser convidada pra falar em outros lugares.

Votuporanga, a cidade da brisa suave, foi uma experiência bem singular. O público levantou questões novas, que me fizeram pensar em coisas que eu considerava resolvidas ou controladas. Achei o centro cultural maravilhoso pela integração com a natureza. Em tempos de resistência, construir espaços em que sejam respeitados a arte e o verde pode ser algo bem transformador, esse espaço deve ser um exemplo pras cidades brasileiras.


Você estreou na literatura em 2015, com Sem Vista para o Mar, livro que reúne vários contos curtos e que ganhou prêmios Jabuti e o da Fundação Biblioteca Nacional (Prêmio Clarice Lispector) no mesmo ano. Como foi poder ser um destaque logo no primeiro livro publicado? O livro chama-se Sem Vista para o Mar, por quê? Quais os contos e quais os temas de cada conto do livro?

Foi ver a literatura virar um trabalho, uma fala, uma forma de estar no mundo, o prêmio trouxe uma visibilidade que eu não esperava ter, o que me faz pensar muito sobre a criação e todo o resto, no chão pela frente.

O título se refere à direção oposta ao horizonte absoluto. Não gosto de pensar em temas durante ou antes do processo, acho que eles saltam depois. Nesse livro os contos acabaram por tratam de fugas dos cerceamentos das subjetividades, mas sem a redenção que a imagem do oceano alimenta.


No ano passado (2016), você lançou seu segundo livro de contos, Os Maus Modos, conte-nos um pouco sobre este livro?

Não lancei ainda. Decidi que preciso parar de falar sobre ele, pra ver se reencanta.


Quais são suas inspirações literárias contistas ou não? Quais seus contos e autores prediletos?

Gosto de revezar as leituras entre livros contemporâneos e atemporais (o que será atemporal do contemporâneo permanece um mistério). Hemingway é um autor para onde eu sempre retorno e sempre me surpreendo. Comecei esses dias As Ilhas da Corrente, onde o protagonista tem muito da figura do autor, mais do que nos outros romances, e toda vez é o mesmo arco de engajamento: o livro começa e desconfio da minha admiração, acho a narrativa banal, o vocabulário um pouco medíocre, desconfio da tradução. 

Mas lá pelos 20% a narrativa atinge uma força de alcançar o sol. É como se fosse a transição da tocaia pra caça. Na vida ele foi extremamente machista e nos livros está muito presente a profunda crise do homem moderno, em muitas direções, nas relações com os animais, por exemplo, é uma desumanização encantadora, honesta.

Contistas que leio sempre: Raymond Carver, Nabokov, Cortázar, Lydia Davis, Clarice, Hilda Hilst, Samantha Schweblin. Um conto que me esquenta o coração é Os Venenos, do Cortázar.


A sua maior inspiração para escrever seus contos são o seu cotidiano ou a imaginação fértil? Quais as dicas que você daria para os que desejam escrever livros de contos?

Acho que a coisa está na interação entre os dois campos, o da observação e o da invenção. Costurar, esculpir, pintar, gosto da imagem do trabalho manual pra pensar a escrita.

Tenho poucas dicas: Ler, desconfiar, cortar e cuidar da coluna, escrever depende sobretudo dela. Agora, especificamente para escrever contos, acho que a principal dica seria chegar a uma forma pessoal de atingir o estado conto, e depois mudar essa forma, em uma escultura infinita.


Estamos em outubro, conhecido por ser o mês das crianças, afinal quando criança tu lia mais quais gêneros literários? Essa leitura na infância te influenciou a ser contista?

Tenho o privilégio de ter pais leitores, de não faltar livro nem gibi em casa. Ler uma historinha com um leitinho na cama em um domingo frio ainda é uma das memórias mais felizes. A leitura na infância me influenciou a ser mais quieta, a aprender cedo que ler é uma experiência viva; escrever veio depois.


Quais as próximas novidade literárias que você pode falar para a gente neste momento?

Não acho bom falar do que ainda não está materializado, mas em termos gerais quero escrever um romance e voltar a trabalhar com roteiro pra cinema, tenho saudade.