Folkeando com Davi Weigert

Créditos: Davi Weigert (Facebook)

O astrofotógrafo amador Davi Weigert lançou recentemente seu segundo livro sobre técnicas da astrofotografia para iniciantes. E nesta entrevista ele nos conta sobre como começou este apaixonante hobby.

Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente agradecemos por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar perguntando: Como começou sua relação com a astrofotografia amadora?

Davi Weigert: Essa história tem muitos anos! Ela vem de minha maior paixão que é a astronomia. Começou em 1985, quando passei a acompanhar a passagem do cometa Halley. Quando minha mãe viu meu interesse por isso, comprou uma luneta para mim.

Fico muito agradecido a ela por isso, pois, a partir daí, começou uma paixão para toda a vida. Nunca fomos ricos. Ela é uma professora aposentada e lembro que gastou um mês inteiro de sua aposentadoria para comprar essa luneta, que não era modesta.

Descobri um cara em Curitiba que era oculista e produzia telescópios para vender e compramos seu produto mais barato que era uma luneta de 1 metro de comprimento e 60 cm de abertura. Graças a isso, ela tinha um bom aumento.

Vi a passagem do Halley como poucos em Curitiba em 1986. Jamais me esquecerei dessa experiência. A partir daí, comecei a procurar lugares afastados para observar o céu e passava a noite inteira fazendo isso.

Com a ajuda de um colega, que também tinha uma luneta igual a minha, aprendi a tirar minhas primeiras fotos com máquina fotográfica de filme sobre um tripé. Eu queria mostrar para todos o que eu via em minha noite de observações, mas nunca soube como acoplar minha câmera num telescópio.

Os anos foram passando e fui melhorando meu equipamento. Minha primeira fotografia em modo focal (quando você faz do telescópio a lente de sua máquina) foi em 04 de julho de 2010, quando tirei uma foto da lua em um refletor de 130mm da Sky-Watcher que eu havia acabado de adquirir.

Fui para uma fazenda de um amigo meu no interior do Paraná, em Quitandinha. Só consegui fazer fotos de clique rápido da Lua, pois meu tele não tinha motorização para acompanhar a rotação da Terra.

De qualquer forma, foi uma experiência fascinante. Depois disso, aprendi, pela Internet, a fazer uma câmera a partir de uma webcam para acoplar no focalizador do tele e comecei a ver no monitor do notebook as imensas crateras da Lua e os planetas.

Em 2011, vendi o 130mm e comprei um 150mm f/8 de um amigo. Depois, adquiri um motor para colocar no eixo DEC apenas para acompanhar a rotação da Terra.

Tirei boas fotos de Júpiter e Saturno com uma Canon no modo afocal (quando você acopla a câmera com lente na frente da ocular do telescópio).

Em 2013 fiz minha primeira foto de um objeto de céu profundo, a Nebulosa de Órion, com apenas 10 segundos de exposição no 150mm.

Meu susto foi tão grande quando vi que aquela nebulosa realmente existia (Risos), que a partir daí seria uma questão de honra conseguir o equipamento ideal para fazer fotos de qualidade.

Então, tudo foi muito rápido. Graças a uma das melhores lojas de telescópios que já existiu no Brasil e que ficava a poucas quadras de minha casa, o Armazém do Telescópio, consegui comprar, em prestações de perder de vista, um ótimo equipamento para fazer astrofotografia de qualidade.

Em seguida, comprei uma Canon usada (só o corpo) e meu hobbie não parou mais!

Hoje estou com um ótimo equipamento, avaliado em mais de R$30.000,00, que fui conseguindo aos poucos, com paciência. Graças a ele, tenho orgulho das fotos que tenho feito do Universo.

Victor Hugo Cavalcante: Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre técnicas da astrofotografia para iniciantes?

A ideia de escrever o livro foi para ajudar a todos os que estão iniciando o hobbie no processamento de suas imagens e assim não precisem passar pelas dificuldades que passei.

Quando passamos uma noite inteira fotografando o céu e, às vezes, mais de três horas num só objeto, as fotos não são como vemos nos livros. Os objetos de céu profundo (nebulosas, estrelas e galáxias) são muito fracas de se ver no olho, mesmo na ocular de um grande telescópio amador. Isso é devido às grandes distâncias que se encontram no Universo.

Os sensores fotográficos são muito mais sensíveis que o olho humano e, quando fazemos fotos em longa exposição, elas revelam detalhes e cores desses objetos. Porém, toda fotografia em longa exposição tem um preço. O aquecimento do chip, por ficar muito tempo ligado, gera diversos ruídos na imagem, além de expor flutuações na atmosfera e um fundo claro do céu escuro.

A grande saída para isso é fazer diversas fotos (às vezes centenas) do mesmo objeto em tempos de 1 a 10 minutos de exposição (isso depende muito da qualidade de seu equipamento para acompanhar o movimento das estrelas no céu devido a rotação da Terra e evitar que as estrelas tenham rastros). Passar uma noite toda em claro para capturar as imagens é apenas metade do trabalho, pois a outra metade você passará na frente do computador.

Com softwares específicos, você empilha todos os frames de um determinado objeto que você fotografou para gerar uma imagem de alta qualidade. Esse software registra todas as estrelas que tem em cada imagem e sobrepõem uma sobre a outra, gerando assim, uma imagem com pouco ruído e de alta resolução do objeto principal.

Se, por exemplo, você faz 60 frames de 60 segundos cada, ao empilhar (stacker, em inglês) as fotos, será gerado uma imagem de 1 hora de exposição. E esse tempo é suficiente para revelar detalhes e cores impressionantes do objeto principal.

Mesmo depois de empilhar, você se decepciona ao ver sua fotografia. Isso porque é gerado uma imagem de 32 bits que seu monitor não tem capacidade de revelar. Ela possui pouco ou quase nada de brilho e cor.

Por isso a necessidade de processar a imagem com softwares específicos para astrofotografia. Lembro que fiquei meses tentando aprender a fazer isso com quase uma dezena de softwares. Cada um fazia uma coisa: remover os ruídos restantes e os gradientes de fundo devido à poluição luminosa, fazer o stretch (ou esticar) a imagem e depois dar contraste, brilho, cor e nitidez nela.

Mesmo aprendendo a usar todos essas ferramentas por sites e livros que só tinham na língua inglesa, minhas fotos não faziam jus ao equipamento que eu tinha. Até que descobri um software específico para astrofotografia, o PixInsight. Ele é um software desenvolvido por astrofotógrafos para astrofotógrafos.

É simplesmente incrível! Faz tudo, desde empilhar os frames até os retoques finais de sua imagem. E isso, sem mascarar ou enfeitar sua imagem. Os aplicativos como o Photoshop não são desenvolvidos para esse fim, por isso, se o operador não tomar cuidado, vai gerar uma imagem que não condiz com a realidade.

O PixInsight faz você usar cada pixel de sua imagem na sua capacidade máxima. Seu criador, Juan Conejero, de Valência, Espanha, te dá acesso gratuito a todas as ferramentas do programa por 45 dias.

E isso foi o suficiente para aprender a trabalhar com o PixInsight e ver minhas fotos como eu queria ver. Em 2015 eu fiquei conhecendo o PixInsight e foi paixão à primeira vista ao ver minha Nebulosa de Órion perfeita na tela de meu computador.

Hoje tenho uma versão paga do PixInsight e foi uma das melhores ferramentas que já adquiri para meu hobbie.

Victor Hugo Cavalcante: Quais foram as principais dificuldades que você encontrou ao fazer a pesquisa sobre técnicas para astrofotografia?

No Brasil, em 2015, eu não conhecia ninguém e pouco se falava sobre processar astrofotografias na Internet.

Por isso, tudo o que eu encontrava era em inglês. E normalmente, as dicas eram para pessoas já avançadas na área. Quem estava iniciando precisou quebrar muito a cabeça para entender os processamentos.

Victor Hugo Cavalcante: Quais foram os principais materiais de pesquisa que você usou para compor as páginas dos livros da série PixInsight Para Iniciantes em Astrofotografia?

Usei minhas próprias fotografias adquiridas em noites de observação que faço em uma fazenda na Serra de São Luís do Purunã, a 50 quilômetros de Curitiba. Para escrever o livro, usei toda minha experiência que adquiri desde 2015 no software.

Essa experiência adquiri em vídeos do Youtube e sites oferecidos pela própria Pleiades Astrophotos, empresa criadora do PixInsight. Também li livros específicos (em inglês) sobre o programa.

Victor Hugo Cavalcante: Quais livros que você utilizou na sua pesquisa para seu mais novo livro que você indica a leitura para quem deseja também se aventurar na astrofotografia amadora?

Inside PixInsight de Warren A. Keller e a própria documentação que acompanha o PixInsight. Indico um livro incrível escrito por um amigo, Rodrigo Andolfato, intitulado Astrofotografia Prática. Ele ensina tudo para quem quer iniciar no hobbie e processamento das imagens, porém, sem o PixInsight.

Victor Hugo Cavalcante: Quais as dicas que você daria para quem deseja se aventurar na astrofotografia amadora?

Primeiramente, tenha paciência. Conheço pessoas que possuem condições financeiras de entrar no hobbie e foram direto para equipamentos top de linha e hoje não sabem como fazer ou processar as imagens.

Comece de baixo, com uma Canon acoplada em um telescópio equatorial motorizado. Depois melhore seu equipamento e passe a usar uma câmera dedicada colorida e um sistema de guiagem.

Só a partir daí adquira uma câmera monocromática com filtros. Você não pode entrar no hobbie se não conhece o céu. Tenha um binóculo 7x50 ou 10x50 para se familiarizar com ele.

Observe um pouco o céu com seu telescópio usando oculares e depois parta para a astrofotografia como falei acima. Astrofotografia é um hobbie caro. Você precisa de um bom telescópio.

Não é qualquer refrator que você pode usar. Precisa ser um refrator apocromático para que a aberração cromática criado pelas lentes sejam anuladas e eles são muito caros, ou usar um refletor newtoniado ou até mesmo um RC.

Cada telescópio possui uma característica diferente e você precisa saber o que você quer fotografar. Se quiser pegar céu profundo (nebulosas ou estrelas), então deve usar um refrator apocromático (eu tenho um Sky-Watcher ED80) ou um newtoniano com distância focal curta.

Para fotos de galáxias, nebulosas planetárias e planetas o ideal é um RC (adquiri recentemente um RC da iOptron de 150mm) ou um Cassegrain, que possuem longas distâncias focais e boas aberturas.

Mas um bom telescópio não é suficiente. Você precisa de uma boa montagem equatorial motorizada que, com certeza, é a parte mais cara do equipamento. Depois tem a câmera que também deve ser usado conforme o que você deseja fotografar: céu profundo, galáxias ou planetas.

Para começar, uma Canon ou uma Nikon DSLR são suficientes para céu profundo. Mas também pode começar com uma câmera dedicada colorida com cooler, mas isso exigiria um notebook acoplado à câmera.

O cooler tem a capacidade de refrigerar sua câmera até 40 graus abaixo da temperatura ambiente e isso diminuiria consideravelmente a quantidade de ruídos nas fotos de longa exposição. Mas essas câmeras não custariam menos de R$5.000,00.

Por isso citei no começo dessa resposta: tenha paciência. Você não terá seu equipamento ou aprenderá astrofotografias da noite para o dia.

Eu levei 30 anos para chegar onde estou e valeu a pena. Astrofotografia é um hobbie maravilhoso. Se você sair da cidade para um local afastado, como eu faço, seu contato com a natureza é sem igual e ver seu trabalho após o processamento das imagens é gratificante.

Victor Hugo Cavalcante: Quais suas principais fontes sobre astrofotografia que você utiliza para ser um astrofotógrafo amador?

A maior parte do que sei aprendi sozinho. Hoje está mais fácil, pois há muito material na internet, tanto em vídeos e imagens quanto leitura. Basta procurar e perguntar em páginas do Facebook e blogs, além de livros e revistas disponíveis em português para pesquisar.

Victor Hugo Cavalcante: A astrofotografia está cada vez mais popular no Brasil, como você enxerga a produção de materiais que auxiliem os fotógrafos amantes desta técnica no Brasil, e porque ela se tornou tão popular agora se já era conhecida faz tempo no nosso país?

A grande maioria dos equipamentos astronômicos e de astrofotografias é produzida no exterior. Graças a lojas como o extinto Armazém do Telescópio e o atual Tellescópio da tellescopio.com ficou mais fácil adquirir esses materiais importados e começar seu hobbie.

Victor Hugo Cavalcante: Na sua visão porque apesar de tantos amadores se interessarem nesta técnica ainda não há profissionais no Brasil?

Há pouco interesse no Brasil por fotos desse tipo. Bem ao contrário de países de primeiro mundo como nos Estados Unidos e Japão.

Acho que 99% dos astrofotógrafos brasileiros fazem o hobbie por mero prazer e exibi-las nas redes sociais. Eu já faço o hobbie para ensinar astronomia, que é minha maior paixão depois de minha filha.

Se não me engano, apenas o Kiko Fairbairn tem a astrofotografias profissionalmente no Brasil. Suas fotos são extraordinárias e suas palestras brilhantes!

Victor Hugo Cavalcante: Qual a dica de produtos que você daria para quem quer começar a se aventurar na astrofotografia?

Meu equipamento é da Sky-Watcher, cuja revedendora era o Armazém do Telescópio. Hoje temos a loja Tellescópio vendendo produtos igualmente bons da GSO e iOptron.

Não procure produtos baratos, pois a qualidade é tão inferior que você verá que jogou dinheiro fora. No exterior existem grandes marcas como Celestron, Orion, Meade, Explore Scientific, etc.

Quem tiver a oportunidade de viajar par ao exterior adquirirá grandes marcas por ótimos preços. Também, grandes lojas como a Optcorp importam para o Brasil, mas você precisa levar em conta que será taxado e deverá pagar o imposto de seu produtos.

Para começar, uma montagem iOptron CEM25 com um refletor newtoniano de 200mm e uma Canon (só corpo) é um ótimo começo. Os apocromáticos como o meu que são os ideais são muito caros.

O mais barato na tellescopio.com custa R$5.600,00. Comece como falei acima e com o tempo adquira um guide para melhorar em 100% sua guiagem e ter um acompanhamento perfeito do objeto alvo no céu. Depois vai melhorando a câmera e por fim troque ou adquira um apocromático.

Victor Hugo Cavalcante: Quais astrofotógrafos profissionais e amadores você mais costuma acompanhar? E quais profissionais desta técnica te inspiram?

Além dos brasileiros como Kiko Fairnbairn e Rodrigo Andolfato, sigo muitos astrofotografos profissionais no exterior como  Miguel Claro, Rogelio Bernal Andreo, David Malin (do AAO - Anglo Australian Observatory, que foi minha maior inspiração na época de fotos com filmes), Robert Glender e Johannes Schedler do Phanter Observatory, além de acompanhar a ESO, o Hubble, o CFHT (Canada France Hawaii Telescope) e a NASA.