A perfeita união entre a música e a poesia

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Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar perguntando: A declamação de poemas/poesias ainda prevalece, porém você chama atenção ao unir o aspecto da identidade musical (Com criação de Livro-Disco e singles/videoclipes), como surgiu esta ideia de unir a linguagem musical com a linguagem poética?

Marianna Perna: Eu que agradeço o convite e a oportunidade desta entrevista, e não é protocolar, agradeço o espontâneo interesse pelo trabalho e a chance de me expressar.

A ideia de unir a literatura com a música nasce de uma vontade grande de experimentar a poesia em seu registro oral. Como é diferente escutar um poema do que lê-lo; ao fazermos isso a sua musicalidade natural fica muito mais evidente e, acredito eu, convidativa ao ouvinte como jornada rumo às imagens e narrativas. Assim, quis continuar essa jornada musical que a própria poesia possui - sua camada mais primal, talvez - criando música que não fosse apenas um "acompanhamento", mas antes se somasse como uma camada poética, ao lado das palavras e das diversas vozes (grito, sussurro, canto, etc). Além do que, isso sempre me encantou muito, essa junção de música e poesia. Como pesquisadora musical e historiadora, venho me debruçando sobre essas manifestações, entendendo mais esses vínculos entre a fala e a música. Por fim, acho muito legal essa proposta diferente de escutar música: ouvir um poema sendo declamado, e não necessariamente a letra sendo cantada. Parece recuperar algo antigo, ancestral, da própria palavra.

Você já ganhou dois prêmios, o primeiro no Concurso Literário de 2017 Prêmio SFX de Literatura na categoria Poesia, que resultou em participação na Antologia realizada pela editora J.E Cursino & Editores com sua obra Encontros na curva de um rio e o concurso Novos Talentos da Literatura JOSÉ ENDOENÇA MARTINS 2016/2017, realizado pela FURB (Universidade de Blumenau) na categoria Poesia, com sua obra Por Júpiter Aguardamos. Conte-nos um pouco sobre a experiência de participar destas premiações e ganhar, e principalmente de poder lançar na antologia realizada pela J.E Cursino & Editores uma obra sua.

Foi muito bacana ter este reconhecimento literário, primeiro por ser uma escritora jovem, e ainda mais na Poesia, gênero principal a que me dedico, dado que já é tão marginal na literatura - em termos de mercado e alcance. Não tenho, contudo, um interesse comercial para com a literatura que faço; a minha vontade é apenas chegar às pessoas, tocá-las de alguma forma, em algum nível, assim como muitos poetas e muitas poetas me tocaram até hoje e que considero vital assim ter sido para que eu continuasse viva e pensante neste mundo. Então achei muito bacana mesmo ter tido esse reconhecimento destas obras e a oportunidade de participar desta Antologia como resultado da premiação!

Quantos livros você já lançou/participou? Quais são eles? E nos casos das antologias que participou, quais foram os poemas escolhidos para serem publicados?

Estou participando da terceira antologia no momento, pela editora Palavra é Arte, estamos no processo de revisão. Esta será de poesia, escolhi poemas mais recentes, deste ano, enquanto que nas outras duas, uma foi de poesia, na ocasião do Concurso mencionado e a outra, que foi a primeira da qual participei, foi de contos, com a série Das vozes, de 2015, pela editora Illuminare, numa antologia temática do feminino, escrita tanto por mulheres como por homens. Antes eu havia feito alguns exemplares deste livro de contos de maneira independente, através da plataforma Clube de Autores, e também fiz uma série de poesia artesanal entre o ano passado e este - produzi cerca de 160 livros da ideia ao produto final! A ideia foi fazer uma trilogia poética de maneira artesanal, usando máquina de escrever e vender os livros, e deu super certo.Também foi muito um cartão de visitas nos locais onde eu ia, apresentando meu trabalho. Foi um projeto muito feliz, de cuidar de cada etapa do livro, pensar em tudo e ter um resultado com que estive inteiramente envolvida a cada etapa; algo raro para um artista e principalmente pro escritor, pra quem tem alguém a revisar e editar e depois isso vai pra gráfica e ele só toca no produto final. É tão especial participar ativamente de cada etapa! Mas dá muito, muito trabalho...Depois deste eu iniciei o processo para o livro-disco A Cerimônia de Todas as Vozes, que durou mais de um ano e que eu considero que será de fato a real estreia, pelo grau de entrega, pesquisa, dedicação e trabalho - não só meu mas de muitos outros - envolvido!

Como começou essa relação Poemas e Marianna Perna, o que cada um de seus escritos podem dizer de você? Quais suas inspirações durante a escrita das poesias? Qual o principal tema de suas poesias?

A minha relação com a Poesia vem de um processo muito profundo de buscar a minha própria voz, de encontrá-la e libertá-la, entendendo tudo o que esteve preso e a impediu de se manifestar, e isso acaba sendo muito - sem querer - meu tema, dessa auto-descoberta, da descoberta do mundo, do amor, do outro, e também de tudo isso como si próprio. Acho que pra mim a Poesia exprime a busca de um sentido maior, os versos são quase que invocações mágicas para buscar apreender o sentido do mundo, o sentido do ser, seja isso na dor ou no êxtase, porque tudo isto nos compõe. E isto surge como o meu processo de escrita, que de alguma forma eu vejo como contraponto e também complemento à minha formação acadêmica de historiadora, onde eu me via constantemente escrevendo, lendo e apreendendo o passado, para escrever, para interpretar, e em algum momento eu parei e pensei "Tudo isso o que eu escrevo sou eu? Qual o sentido mesmo de tanto conhecimento?" e daí eu embarquei nessa jornada sem volta da auto-descoberta. Fui sendo levada de encontro à minha própria voz, sem nem saber, e quando isto estava finalmente reverberando o suficiente, começou a sair na forma de Poesia, isso foi em 2013 e tem sido como ela se apresenta desde então, um território de livre expressão da alma e que aglutina todas essas experiências e as expressa de um jeito muito meu, de uma alma que busca colocar a sua sensibilidade própria em tudo, o tempo todo.

Muitos dizem que o poeta verdadeiro ao menos uma vez tem que se permitir sentir a dor ou a revolta, você concorda com essa afirmação? Qual seria sua dor/revolta expressada em seus poemas/poesias?

Bom, em primeiro lugar no meu ponto de vista acho que não tem isso de "poeta verdadeiro", acho que cada um tem a sua própria verdade e ela não deve ser comparada com a verdade de ninguém... cada voz é única, e a gente sente quando a coisa vem de dentro, e se vem de dentro, tá tudo certo, sabe?

Mas sim, sinto que geralmente isto que nos toca em um ou uma poeta provem de uma vivência intensa e sincera da pessoa, de dor e/ou revolta, geralmente os dois, que expõe a humanidade daquela pessoa e que então se transfigura em uma criação artística forte, tocante - e isso não só na literatura! Acho que a poesia está presente em muitas outras linguagens - daí essa minha proposta maluca e híbrida, de experienciar a poesia que há no som, no ruído, no corpo, na dança, mas que há também na pintura, no cinema e pra mim pessoalmente, como expressão máxima no teatro - eu realmente acho de uma potência maravilhosa o corpo em ação sendo poesia!

Voltando a isso da dor, para mim os poetas que mais me tocaram até hoje foram os que conseguiram abrir um espaço em mim para eu me enxergar, para ver o que eu não via - palavras como cacos de espelho onde pude reconhecer a beleza e o horror, o êxtase e a dor profunda que me habitam; a loucura e a lucidez, sabe? De alguma forma, como isso me compõe e me move muito, acho que está muito presente na minha poética, crio a partir desta vivência real de frustração e de busca por se entender e se amar como ser finito, ou pelo menos na crença de que somos finitos. Porque a arte me ensinou também que na realidade somos muito maiores do que pensamos, porque não somos o que pensamos que somos, apenas fomos condicionados a acreditar em uma realidade muito limitante de nós e do mundo.

Sinto que hoje crio sobretudo a partir deste desconforto e da dor histórica acumulada sobre o feminino - nossas ancestrais mulheres, mas não só mulheres, também todos os povos escravizados e oprimidos de ontem e de hoje. Bem como a natureza, que é o que somos mas vem sido pisoteada. Isso me dói muito, me revolta profundamente e sinto que está sempre de fundo em tudo o que escrevo; a indignação, esse olhar que sabe o que a história tem sido até agora e quer se sobrepor a isto, entende? Ainda que o que uma pessoa sozinha efetivamente pode fazer seja muito pouco, acho que a arte nos amplia e conduz a um lugar de ressonância coletiva, que acho muito poderoso, parte do individual para ir ao coletivo, a despertar o que sentimos conjuntamente. Acho muito importante se conectar com a arte dessas pessoas que estão sinceramente buscando se entender e entender o mundo e levar um pouco de amor, de lucidez a tudo isto.
 
Quais dicas você daria para aqueles que gostam de fazer poemas e poesias?

Escreva, coloque sua voz no mundo, publique, se autopublique! Livros artesanais são uma coisa maravilhosa, acho que vale muito a pena ter essa experiência de fazer sua própria obra, mas também é importante apoiar editoras independentes, apoiar escritores da sua geração e incentivar a leitura onde você estiver! As pessoas precisam ler mais - ler mais poesia, porque isso nutre a alma! O mundo precisa de mais alma, e a poesia leva isso por onde passa.

Pesquise poetas de países e épocas diferentes, homens, mulheres. Importante entender a própria história da forma poética. Entender em que pé estamos para nos expressar livremente. Além do que, nos nutrimos muito dos versos de outros, a nível de alma e também do estudo de linguagem muito necessários ao poeta, como repertório; considero muito importante estar constantemente lendo, estudando e também escrevendo, se exercitando.
 
Quais seus poetas favoritos? O quanto deles possuem nas linhas de seus poemas?

A minha busca é sempre pela minha própria voz. Não gostaria de ficar parecendo muito alguém ao escrever, mas sei que isto acaba acontecendo pois as leituras nos formam. Mas eu leio muita gente diferente, muitas vozes distintas - homens, mulheres de épocas e locais distintos, e confesso que o me toca mais é a poesia livre dos formalismos todos e hoje em dia sobretudo a poesia feita por mulheres. Difícil nomear tanta gente, mas vou ficar em alguns poucos exemplos que considero meus pilares, que sei que irei ler para o resto da vida: Walt Whitman, Antonin Artaud, Hilda Hilst e Alejandra Pizarnik, esta última menos conhecida foi uma poeta argentina. 

Recomendo demais conhecer, é algo muito impressionante o que ela cria em termos de imagens partindo das palavras! Pra mim é quase uma pintora, acho que se a Remedios Varo (pintora surrealista espanhola radicada no México, que eu amo de paixão!) tivesse sido poeta, teria sido a Alejandra.

O ano já está acabando, quais as próximas novidades para 2018 que você pode contar para a gente?

2018 terá o lançamento do livro-disco, eu mal vejo a hora! Espero que seja logo e estamos concebendo a experiência sonora do disco ao vivo, como uma forma de vivenciar a poesia através da dança, música e com projeções, como esta cerimônia das vozes e das palavras de maneira viva, e espero poder levar este trabalho a muitas pessoas através desta performance e através do livro/disco em 2018.

A Recepção.

De quando fui transparente
E você estava ali
Ainda ali
fulgurante brilho
rondando as travessias
Cores ao avesso
Você estava ali
Voz ao útero do vento
Ainda aquela brisa
de quando fomos mar
Ondas se sopram
transparente em argila
Areia do dia
As lágrimas da noite,
frondosas de quando fomos Um.

De quando fui transparente
e você estava ali.

Marianna Perna