Severino Rodrigues: Uma volta ao mundo adolescente através da saúde mental

Créditos: Renata Tavares

Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente agradecemos por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar perguntando: Como começou sua relação com a literatura?

Severino Rodrigues: Gosto sempre de enfatizar que sou fruto da leitura a partir da escola. Quando pequeno, em casa, o contato com livros era raro.

Apenas na escola, e graças ao trabalho de professoras fascinantes, foi que me aproximei do objeto livro. Inicialmente, com versões adaptadas dos contos de fadas, depois lendo a literatura infantil e juvenil brasileira. Foi também durante a escola que comecei a escrever meus primeiros textos, além das redações que eram solicitadas.

Quando concluí o Ensino Médio, ingressei no curso de Letras e, em paralelo, escrevi meu primeiro, Sequestro em Urbana (Cortez), que saiu em 2013. Desde então, não parei mais.

Victor Hugo Cavalcante: O livro 10 mil voltas ao meu mundo aborda temas sensíveis como ansiedade e Transtorno Obsessivo Compulsivo em adolescentes. Conte-nos como foi o seu processo de pesquisa sobre estas doenças mentais para escrever esse livro infantojuvenil.

A ideia de escrever uma narrativa com um personagem com TOC era antiga, de 2015 ou mais. Mas ainda não tinha achado o melhor caminho para contar a história desse personagem.

Sem falar que sou muito ansioso, uma característica da minha geração, e também tive TOC quando era adolescente. Ou seja, poderia falar sobre o tema com conhecimento de causa. Também não encontrei no mercado brasileiro nenhum livro com a temática.

Disse, então, pra mim: "Vou escrever!" Em 2017, iniciei o desenvolvimento da série Cabeça Jovem (Editora do Brasil), da qual o livro faz parte, e pesquisei e li muito sobre TAG e TOC, conversei com profissionais de saúde mental, com alunos meus... Cada capítulo, cada detalhe foi muito bem pensado, escrito com todo o cuidado. Deu um trabalhão! Mas estou feliz demais com o resultado!

Victor Hugo Cavalcante: Além de escritor você é mestre em Letras pela UFPE, professor de Língua Portuguesa no IFPE, o quanto ser professor e ter contato com adolescentes te inspira na hora de escrever?

Muito! Costumo dizer que o que escrevo é uma mescla das minhas memórias, a minha adolescência foi ontem, tenho 28 anos, e da observação do adolescente de hoje.

Apesar das tecnologias, a ansiedade, o medo e a insegurança são os mesmos, isso se não foram mais intensos, pelo menos é o que parece e já se discute, sendo resultado dos tempos modernos, cheios de urgências e cobranças em que vivemos.

Victor Hugo Cavalcante: Quais são seus autores prediletos e em quais você se influencia enquanto escritor? Por quê?

Eu leio muito e de tudo! De tudo mesmo! Tem gente que até estranha o meu ecletismo. Posso ler um romance com uma estrutura complexa pela manhã, devorar as páginas de um best seller e curtir um mangá à noite. O importante é que a história seja boa, desperte a minha atenção.

Acho difícil falar de influências, mas autores da literatura juvenil brasileira, como Pedro Bandeira, Ricardo Azevedo, Luís Dill, Eliana Martins e Rosana Rios, são exemplos profissionais pra mim.

Victor Hugo Cavalcante: Como dito anteriormente você é docente em língua portuguesa no IFPE, para você como professor qual é a importância de termos uma literatura infantojuvenil que trate temas como transtornos obsessivos compulsivos e ansiedade?

É fundamental! A identificação do adolescente com os personagens é imediata e eles entendem mais sobre o que estão enfrentando. A literatura, ao apresentar a experiência de outro, de um personagem, possibilita ao leitor conhecer e se reconhecer naquela experiência, crescendo e amadurecendo junto com ele e, o melhor de tudo, por meio da arte, da leitura de uma boa narrativa.

Percebo também uma preocupação cada vez maior na abordagem dos temas fraturantes, como os professores universitários chamam, relacionados à saúde mental, tanto pelos autores quanto pelas editoras. Acredito que encontraremos muitos livros relevantes nos próximos anos.  

Victor Hugo Cavalcante: Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou durante o processo de pesquisa e escrita do 10 mil voltas ao meu mundo?

Um monte! A criação dos personagens, o cuidado na abordagem do tema, a estrutura dos capítulos, são 80, todos curtos, sento também uma alusão ao A volta do mundo em 80 dias, de Jules Verne, que os protagonistas leem no livro, a alternância do ponto de vista do narrador-observador que ora se aproxima do Gustavo (nos capítulos ímpares) e da Júlia (nos pares), o diálogo com diferentes gêneros textuais, que é uma característica da série Cabeça Jovem...

Minha preocupação era contar essa história como literatura, com uma trama envolvente, evitando ao máximo qualquer tom didático. Quebrei muito a cabeça, mas agora o 10 mil voltas está aí, encontrando leitores e ganhando o mundo.

Victor Hugo Cavalcante: Ainda sobre o livro, ele faz parte da Série Cabeça Jovem, que traz à tona os temas que afetam o cotidiano dos jovens, como relacionamentos, conflitos, ansiedade, transtornos e tecnologia. Você procurou ler algum outro livro da série para ter uma ideia de como escrever sobre transtornos mentais?

Na realidade, a série foi idealizada por mim e abraçada pelo Gilsandro Vieira, editor da Brasil, e por toda a editora. O projeto é que cada livro acompanhe uma dupla de adolescentes do Ensino Fundamental II do Colégio João Cabral de Melo Neto, escola fictícia da série.

Apesar da mudança de protagonistas a cada história, volta e meia eles se encontram pelos corredores do colégio. Já saíram os dois primeiros: Bateria 100% carregada, em 2018, e 10 mil voltas ao meu mundo, publicado esses dias.

São livros ousados, tanto pela temática, quanto pela estrutura, que dialoga com o mundo das redes sociais. O projeto gráfico da Ana Matsusaki, que destacou todos esses elementos, ficou sensacional.

Não me canso de elogiar o resultado.

Victor Hugo Cavalcante: Você também escreveu outros livros, conte-nos um pouco sobre eles.

O primeiro livro da série Cabeça Jovem, Bateria 100% Carregada, conta a história de Danilo, que é TDAH, e de Ariadne, que sonhar se tornar uma YouTuber famosa. Os dois estão no 6º ano.

Danilo terá que lidar com sua condição, aprendendo a viver com suas especificidades, ora disperso, ora agitado. E Ariadne sentirá na pele que o preconceito racial ainda é um triste problema nosso em pleno século XXI.

Na trama, a garota é vítima de haters que invadem seu canal com comentários racistas e mensagens de ódio. O interesse pelo Bateria 100% Carregada está sendo incrível!

Pela Editora do Brasil, também lancei, em 2016, A fera dos mares, que discute a preservação ambiental dos ecossistemas marinhos e ética, dois temas cada vez mais essenciais e em debate.

Victor Hugo Cavalcante: Já existe algum outro livro rascunhado na sua mente ou no papel/computador? Se sim, conte-nos um pouco sobre esta novidade.

No momento, estou trabalhando no terceiro livro da série e que deve sair no ano que vem. Dessa vez, o tema central é a depressão. Está sendo o meu livro mais difícil e trabalhoso.

Não posso adiantar detalhes... Mas a rotina é de muita pesquisa, escrita e reescrita e todo o cuidado do mundo para contar para uma boa e relevante história.