Devorados pela Boca de Lobo

Créditos: Valeska Barboza

Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos concederem esta entrevista e gostaria de começar com a seguinte pergunta: Como começou a relação dos integrantes com a música underground? E como surgiu o nome da banda?

Mateus Cappuccelli: Nós é que agradecemos o espaço, Victor. Parabéns pela iniciativa. Bom, vamos lá. O Raul, Cassiano e eu, nos conhecemos desde pequenos. Nós crescemos juntos, somos vizinhos até hoje. Em todas as vivências a música esteve presente. Compartilhamos gostos musicais semelhantes, aprendemos a tocar instrumentos juntos. Como consequência de tudo isso, na metade dos anos 2000 começamos a frequentar os eventos no Clube Ipiranga, Bar do Bilé, Bar do Gastaldo e tudo mais.  

Galiego Edge: Nessa época, eu também curtia os mesmos eventos, porém não nos conhecíamos. Os anos se passaram e conheci o Diego nos rolês de skate e ele já estava tocando bateria. Montamos a Subvida em 2011, fizemos alguns ensaios, foi bacana, mas depois acabou. Um ano e meio depois, quando conheci o Cassiano, na primeira conversa de banda eu indiquei o Diego e ele já se alinhou com o Raul e o Mateus

Cassiano Biaggio: Em relação ao nome da banda, surgiu do nada. Haviam meses que estávamos ensaiando, produzindo canções e nada de arrumar um nome. Nós tentamos vários, até que sugeri Boca de Lobo e todos gostaram. É um nome marcante, que passa um duplo sentido. A galera imagina que é algo sujo, como uma boca de lobo mesmo. Mas na hora que observam o nosso logo, o lobo rangendo, já percebem que o negócio é outro. (risos) 

Victor Hugo Cavalcante: Quais são as músicas do Boca de Lobo preferidas de cada integrante da banda? Por quê?

Raul Fernandes: A minha favorita é Zumbis das Madrugadas. A letra retrata de forma metafórica a vida de um trabalhador que atua no período noturno. Trabalhei durante a noite por muito tempo, e quando eu toco essa música sinto o peso que é ser um zumbi das madrugadas.

Diego Martins: Eu gosto muito de tocar A Sua Alma Não Falha. Curto a linha de bateria dela. O peso, as viradas e a letra da canção é ótima. Gosto demais de Eu Vou Voltar, pelo fato da letra narrar um fato. Mesmo não tendo presenciado o ocorrido, quanto toco sinto como se estivesse lá. Além disso, o instrumental é muito pesado.

Mateus Cappuccelli: Eu tenho muito prazer e satisfação em tocar Zumbis das Madrugadas. Acredito que coloquei o meu melhor nos riffs dessa canção. Caráter das Ruas é a música que eu mais gosto de ouvir.

Cassiano Biaggio: A minha favorita é Feras Cabeludas. Ela mescla tudo que somos, tem velocidade de Hardcore, peso e técnica de Heavy Metal e a letra é sinistra, cheia de metáforas e alegorias. É uma canção muito empolgante.

Galiego Edge: Tenho duas canções favoritas. Elas são Fortes e Comodismo. As duas possuem instrumentais marcantes, ficam na mente. Já as letras, expõem um sentimento de revolta, mas propõem alternativas para se livrar deste sentimento confuso.

Victor Hugo Cavalcante: O Boca de Lobo já dividiu palco com grandes nomes do underground nacional como, Dead Fish, Good Intentions, MUFA, Cerberus Attack, Horace Green, entre outros. Como foi dividir o palco com estas feras musicais? O que cada integrante pôde aprender com estas bandas?

Mateus Cappuccelli: É sempre muito prazeroso poder dividir palco com bandas que compartilham das mesmas ideias que a gente. Todos estão na correria, produzindo, uns são mais experientes, outros nem tanto e também tem muita gente aprendendo. Acredito que esse intercâmbio entre a galera, entre as bandas e a troca de contatos, são as grandes lições.

Galiego Edge: Estamos vivenciando um momento muito interessante. Aqui nos arredores de Jundiaí há muitas bandas que estão fazendo a diferença. Temos Facing Death, Fim da Aurora, Astronova, Rosario, War Inside, Dinohorse, Cäbrä, Going Down, Clandestinas, Doomslang, Corehum, e até os mais experientes, tipo a galera da Fistt, No Deal, Maurício Zucarelli, Riffcoven e Regredidos do Macaco, estão na mesma onda que a nossa. 

Temos também as festas Matinê Hardcore e Prophets of Chaos, por exemplo, que serviram de base para bandas como Artigo 5 e Boçal, que já estão trabalhando pesado.

Victor Hugo Cavalcante: O Boca de Lobo está na estrada desde 2013, apresentando uma sonoridade que explora o que há de mais pesado e original no Hardcore Punk e Thrash Metal feitos na década de 80. O quanto vocês acham que melhorou no cenário nacional do Trash Metal e Hardcore Punk de lá pra cá? E o que poderia melhorar e o porquê?

Galiego Edge: Acredito que são momentos bem parecidos em muitos aspectos. Claro, o acesso às tecnologias, e até mesmo os avanços econômicos nos anos 2000, foram essenciais para o melhoramento das produções musicais e tudo mais. E lá nos anos 80 não era assim, né!? Era muito mais difícil para uma galera de classe baixa ter acesso a um instrumento ou produzir algo.  

Mas no geral, a musicalidade atual é tão boa quanto a da galera dos anos 80. O nível de criatividade está muito avançado, aqueles erros causados por puro reflexo de uma sociedade controversa estão sendo corrigidos e, o mais bacana de tudo, estamos nos unindo cada vez mais. É muito bom numa semana participar e ser bem recebido em um rolê de grindcore e na semana seguinte estar um evento de Thrash Metal ou Hardcore e curtir com a mesma intensidade.

Victor Hugo Cavalcante: Neste ano, vocês lançaram a EP Relatos do Lado Esquecido, que nada mais é do que uma prévia do álbum que o quinteto lançará em breve. Porque vocês decidiram lançar a prévia do álbum que sairá em breve ao invés de lançar o álbum em si? Qual foi o feedback deste EP?  

Mateus Capuccelli: Tudo foi por uma questão de tempo de produção do álbum e a falta de um material inédito. A nossa demo é de 2015, se fossemos esperar o álbum, demoraria demais. Estamos trabalhando cuidadosamente no álbum para que seja um material da mais alta qualidade sonora. Por essa razão, lançamos Relatos do Lado Esquecido para não criar um hiato, digamos assim. 

A recepção da EP foi ótima! A galera já está cantando as canções nos shows e recebemos muitos elogios tanto daqueles que nos acompanham, quanto dos que conheceram a banda recentemente. Lançamos o material nas plataformas digitais e com tiragem limitada em CD e cassete.

Victor Hugo Cavalcante: Ainda sobre o álbum que será lançado em breve o que a Alcateia Maldita, título carinhoso dado pelos membros da banda aos seus seguidores, pode esperar deste trabalho?

Cassiano Biaggio: Muito peso, diversão e sinceridade. Estamos trabalhando com muita calma para que o álbum apresente a nossa essência sonora e lírica. Tudo está sendo produzido e mixado pelo César Eguchi, do Eguchi Estúdio, que já trabalhou na nossa demo e na EP. Ele nos conhece muito bem, desde os primeiros ensaios. Está nos dando ótimas dicas e empenhado em fazer um grande trabalho.

Victor Hugo Cavalcante: Qual foi o show mais incrível que a banda já realizou? Conte-nos um pouco sobre ele.

Raul Fernandes: É difícil definir "o show mais incrível". A verdade é que cada show é uma história, uma série de vivências. Já aconteceu de tudo em nossos shows: chinelos voando, confetes, spray de espuma para os ares, stage diving do telhado, enfim. (risos) Nos últimos meses fizemos shows insanos em Pirituba, Jundiaí, Itatiba e Atibaia. Temos mais alguns para fechar 2019, e temos certeza que teremos muitas histórias para contar.