Um estranho no ninho

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Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente agradecemos por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar com a seguinte pergunta: Como começou a ideia de se infiltrar num grupo antivacina no Facebook e pesquisar mais sobre suas falaciosas razões de crença na causa?

Jack Smith: Primeiramente obrigado pela oportunidade. Espero que o artigo esteja sendo bem recebido. Estou feliz pela repercussão.

A ideia veio depois das minhas crises de risos das publicações que estavam sendo feitas em um grupo de humor. Eles "printavam" os posts de outro grupo, o de Antivacina, brincando com a perspectiva daquelas pessoas. Mesmo sendo grotesco, eu queria entender o pensamento por trás daquele movimento, daí simplesmente fui lá e me infiltrei para saber. Curiosidade é a palavra.

Victor Hugo Cavalcante: Como surgiu a oportunidade de você escrever o artigo no Médium?

Eu tenho costume de escrever. Bastante por sinal. Possuo mais 1000 de artigos e notícias publicados. Quando o contexto é mais pessoal, eu publico no Medium. E como foi algo de experiência própria, passei algumas semanas trabalhando por lá.

Victor Hugo Cavalcante: Quais foram as motivações mais assustadoras que você observou no grupo antivacina para não acreditarem na eficácia da vacina? Por quê?

Bem difícil responder esta. Acho que o que mais assustou é o quanto aquelas pessoas estão convictas de suas verdades. Eles não aceitam debate. Todas as pessoas críticas são banidas, pelo menos no tempo que passei lá foi assim. A ciência está longe desse comportamento.

Outra questão pavorosa foi a afirmação de que vacinas causam homossexualidade, como se orientação sexual fosse definida por uma simples medicação.

Victor Hugo Cavalcante: No artigo escrito no Médium você cita alguns artifícios para criar a ilusão de estar compartilhando informações verídicas sobre os malefícios da vacina, quais foram as maiores dificuldades que você encontrou para criar estas informações fakes?

De verdade? Nenhuma. Inventar estórias é fácil. Eu só criei uma ficção que fazia sentido, storytelling em sua essência. Eu jogo muito RPG, isso é fácil pra mim. O que foi complexo foi a produção do site. Levei mais ou menos 8 horas para fazê-lo por completo, isso porque utilizei um template pré-pronto do Wix. Unindo todo o processo, foram mais ou menos 12 horas montando o cenário. Agora o artigo em si foi quase duas semanas digitando.

Victor Hugo Cavalcante: Você acredita que grande parte das pessoas que não acreditam em vacinas e que espalham tais ideias é assim por serem más informadas, por serem malucas ou por serem de índole ruim? Justifique.

Um misto de tudo. Há pessoas má intencionadas, ignorantes e aquelas que não batem muito bem da cabeça. Mas a maioria são ignorantes que acreditam em "fatos" manipulados. Tudo que vi tinha certa base científica, mas estavam completamente fora do contexto ou com informações incompletas. Alguém vendia isso e eles compravam a ideia. Todo mercado possui uma demanda. Os administradores e moderadores do grupo são exemplos de manipulação.

Victor Hugo Cavalcante: Fale-nos mais como surgiu o falso Dr. Xiei Rahp Ennis e o que foi preciso para criá-lo.

Para decidir o nome foi necessário assistir muito Hermes e Renato, isso com certeza. O resto foi tudo obra da minha imaginação. Eu queria um herói da medicina! O brasileiro sabe fazer essas coisas.

Eu queria que o nome ficasse ambíguo, algo que se alguém observasse com cuidado, notaria que tinha algo errado nessa história.

Mas as pessoas estão tão cegas que elas ainda não notaram que é uma piada. Os comentários e compartilhamentos ainda estão rolando. É inacreditável!

Victor Hugo Cavalcante: Para você enquanto futuro comunicador social (Formando em publicidade) o quanto o seu artigo escrito no Médium pode ajudar não somente a desvendar mais sobre grupos antivacina, mas principalmente a fazer com os leitores saibam separar o que é verdade e o que é mentira na internet?

É válido lembrar que ainda não sou formado. Estou no 8º período, então falta apenas alguns meses para me formar. Até mesmo meu TCC está bem adiantado.

Sobre a pergunta, não há mistério. O que fiz foi mais jornalístico investigativo que publicidade. Eu uni as afirmações e chequei em fontes seguras, ou pelo menos tentei. O que fiz pode ajudar as pessoas porque mostra o quão fácil é enganar, cair em tendências comuns, como é o caso do viés de confirmação. Nos dias de hoje a ideologia, religiosidade, e crença cegam bastante. É necessário estar em alerta.

Victor Hugo Cavalcante: Como você reagiu inicialmente ao perceber a facilidade de se criar matérias supostamente verdadeiras na internet? Você esperava que os membros dos grupos caíssem tão facilmente nos seus textos enganosos no falso blog e falso artigo do Dr. Xiei?

Um mix de emoções. Ri de tudo, fiquei impressionado com a proliferação da mensagem e assustado com tudo que estava acontecendo. Como comunicador sei a força que isso tem. É uma tragédia declarada!

Não podemos deixar movimentos como esse crescerem, até porque tomar vacina não é uma escolha pessoal, envolve a saúde de toda uma sociedade. Isso pode chegar a ser um problema de escala global. Vi a comunicação destruir países com guerras e regimes totalitários, o Nazismo e o Stalinismo são exemplos disso.