True Love: Um blog sobre o verdadeiro amor e superação

Créditos: Divulgação

Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente é uma grande honra poder entrevistar vocês e gostaria de começar com a seguinte pergunta: De quem foi a ideia de criar o True Love? E porque ele tem este nome? Seria uma forma de dizer que quem é PCD também tem a capacidade de amar verdadeiramente?

True Love: A ideia surgiu a partir de uma sugestão do seu Chico, pai da Malu. Ele dizia que nós deveríamos usar as ferramentas que temos ao nosso alcance (internet, computador, habilidade com escrita) para compartilhar nossa história e nossas experiências. Ele disse que nós poderíamos ajudar muitas pessoas pelo simples fato de compartilharmos nossa história individual/como casal. Como a Malu sempre foi blogueira e eu também tive um blog durante certa fase da minha vida, nós abraçamos a ideia e as coisas foram acontecendo naturalmente. O nome do blog, por exemplo, surgiu como contamos por lá, a partir de uma orientação que recebemos no centro espírita que frequentamos. A Irmã Clara (espírito) falava sobre nosso relacionamento e se referia a ele como "amor de verdade", isso porque nos cuidamos e nos ajudamos sempre. Então adaptamos o nome para o inglês, um truquezinho para chamar a atenção e também fugir dos tais clichês.

Victor Hugo Cavalcante: Falando em amor como o casal do blog se conheceu? De quem foi a ideia de escrever sobre isto no blog?

Conhecemo-nos através de uma sala de bate papo do UOL, especificamente uma destinada a pessoas com deficiência. Conversamos, ficamos amigos e, entre muitos encontros e desencontros, nos vimos apaixonados. Tínhamos a distancia como um grande obstáculo à ser vencido, já que morávamos em regiões completamente opostas (Nordeste e Sul), mas graças a Deus a Vida se desenrolou de uma forma que acabou por permitir que estejamos juntos hoje. Já sobre a ideia de escrever sobre o nosso encontro e relacionamento no blog, ela veio logo que decidimos criá-lo. Na verdade, escrever e mostrar que pessoas com deficiência também podem viver um amor foi e continua sendo um dos nossos principais objetivos com o blog. 

Victor Hugo Cavalcante: Como o True Love ajuda vocês enquanto PCD's (Ela com Síndrome de Escobar e ele vítima de Paralisia Cerebral) no dia a dia?

Maria Luíza Pereira Magalhães: Eu sempre gostei de escrever. Fui daquelas meninas que escrevia em diários e agendas, desabafando mesmo; era dessa forma que eu colocava para fora sentimentos e vontades que eu não tinha coragem de compartilhar com ninguém. Então, quando descobri a blogosfera, eu literalmente deixei fluir esse meu lado "escritora". Tive vários blogs até chegar ao True Love. E, falando sobre ele especificamente, ele me ajuda porque é um espaço onde eu posso falar um pouco sobre como é a vida de uma mulher com deficiência, posso desabafar a respeito de algumas experiências e situações, protestar, enfim... O fato de o True Love me permitir ser uma voz ativa no combate ao preconceito e na árdua tarefa de romper determinados paradigmas a respeito de nós, "deficientes", é o que mais me motiva e ajuda a seguir em frente com esse projeto; que, aliás, também já nasceu com a pretensão de se tornar um livro. (Risos)

Brayan Chaves Muhlen: No meu caso, o blog é uma verdadeira terapia. Gosto de escrever sobre o que vivo e sinto; a escrita flui com muita facilidade e, o melhor, fica bastante autêntica. Creio que o True Love me ajuda sendo uma espécie de válvula de escape ou mesmo um divã; de qualquer forma, os momentos em que escrevo servem para uma autoanálise, mostrando onde posso melhorar.

Victor Hugo Cavalcante: Para vocês qual é a pior forma de tratar uma pessoa com deficiência? Por quê? E como o blog procura alertar sobre este tipo de tratamento?

Talvez a pior forma de tratar uma pessoa com deficiência seja tirar-lhe o direito de escolha, subestimando ou questionando suas capacidades. O fato de alguém ter limitações de ordem física ou mesmo intelectual não justifica o preconceito e a falta de bom senso, afinal, nenhum diagnóstico define quem a pessoa é ou o que ela pode fazer. A gente sabe que há casos e casos, mas em qualquer situação, se acontece de uma pessoa "normal" ter de lidar com alguém com deficiência, o ideal é conversar, perguntar se preciso, mas nunca agir por conta própria tirando do(a) "deficiente" a possibilidade de ele(a) fazer suas próprias escolhas, expressar a sua própria vontade.

Victor Hugo Cavalcante: O que te tira do sério quando se fala em preconceito?

Maria Luíza Pereira Magalhães: Tudo! Claro que não podemos ser hipócritas, afinal, todos temos um preconceito ou outro. Mas, de um modo geral, e falando até sobre os que paulatinamente eu vou reconhecendo em mim, me deixa indignada o fato da gente julgar pessoas ou situações sem um conhecimento prévio das mesmas. Acho que isso é meio que uma tendência instintiva no ser humano, né? E, no tocante aos preconceitos relacionados às pessoas com deficiência, por muito tempo eles me deixavam brava, hoje já consigo dar risada... É interessante perceber o choque, por exemplo, quando algumas pessoas percebem que Brayan e eu somos namorados... (Risos) Tipo o espanto que fala: "Ué, e ela pode namorar?".

Brayan Chaves Muhlen: Acredito que a infantilização das PCD's, é algo que realmente me incomoda. O fato de termos limitações não nos impede de tomar decisões sobre o rumo de nossas vidas. Detesto quando pessoas querem falar com uma PCD e se dirigem a quem está acompanhando e não a ela, como devia ser. Já passei por isso muitas vezes. É uma forma de desprezo, a meu ver.

Victor Hugo Cavalcante: Como o blog acredita que pode ajudar um PCD ou uma pessoa não deficiente a superar seus problemas de vida através de suas postagens?

Nós sempre procuramos contar as nossas experiências destacando o lado positivo das situações, por mais difíceis que elas sejam. Uma das mensagens implícitas seria a de que não se deve desistir ou esmorecer frente aos obstáculos. Vale a pena ter fé e acreditar na vida, no amor...

Victor Hugo Cavalcante: Falando em mobilidade urbana quais são as suas principais dificuldades ao andar nas ruas da cidade? E o que o poder público poderia fazer para melhora-los?

Acreditamos que uma grande dificuldade seja a falta de acessibilidade estrutural.

Muitos espaços, públicos e privados, ainda não contam com coisas simples como rampas ou corrimão para as escadas. Banheiro adaptado, por exemplo, parece ser luxo em muitos ambientes! Também podemos mencionar a falta de cuidado com as calçadas, geralmente danificadas e o serviço de transporte público, que, sabemos, ainda deixa muito a desejar.

A respeito do poder público, a gente nem precisaria dizer que ele deveria se lembrar de que nós, pessoas com deficiência, representamos 23% da população brasileira. E que merecemos a mesma atenção que o restante dos administrados. Afinal, a mobilidade urbana é direito de todos. É uma questão de observar a legislação e aplicar bem as receitas públicas.

Victor Hugo Cavalcante: Quais foram os relatos mais emocionantes que o blog já recebeu? E como foi que surgiu esta ideia de receber tais relatos de superação?

A proposta inicial da #AssimComoVocê é mostrar que apesar de qualquer diagnóstico, a pessoa com deficiência é, como não poderia deixar de ser, igual a qualquer outra, sem deficiência: a gente tem medos, inseguranças, desejos, vontades, sonhos e projetos de vida... E, felizmente a gente tem encontrado relatos incríveis que casaram muito com a ideia da nossa hashtag. É muito difícil pra gente escolher um entre todos eles, até porque a maioria dos nossos convidados são ou se tornaram pessoas muito caras ao nosso coração. Mas, para não deixar sua pergunta sem resposta, a gente vai destacar dois depoimentos que se tornaram muito especiais pelo caráter resiliente dos nossos convidados, algo que para nós dois foi bastante inspirador: O primeiro foi escrito pelo André Luiz Rodrigues, paulistano, 50 anos. André (ou Professor como a gente geralmente chama) é daquelas pessoas com quem a gente pode sentar e conversar por horas a fio. O acidente que ele sofreu aos 21 anos e que o deixou tetraplégico não o impediu de continuar sua vida e desenvolver trabalhos variados, seja como professor particular em casa, seja como orador e palestrante na internet.  Como se diz por aí, André é o que se pode chamar de um "homão da p*" e vocês podem conferir o relato dele no texto #AssimComoVocê - Meu Professor de Vida. E o segundo relato que também nos emocionou sobremaneira foi o da nossa convidada e querida Juliana Rodrigues. A Ju tem 32 anos, é casada, tem uma filha e está grávida. No dia em que descobriu a primeira gravidez ela também recebeu o diagnóstico de Esclerose Múltipla, uma doença crônica, degenerativa e sem cura. Apesar disso e de todas as dificuldades advindas com as duas descobertas, Ju seguiu em frente e se reinventou. Particularmente, eu, Malu, a admiro demais e estou na torcida para que tudo ocorra bem nesta segunda gravidez dela. A Ju é uma pessoa linda e merece tudo de melhor. O texto dela você pode conferir no #AssimComoVocê - A Ju e Suas Duas Vidas.

Para finalizar, agradecemos a você Victor e ao Jornal Folk pelo carinho do convite e também pelo espaço onde a gente pôde divulgar o nosso cantinho. Gratidão! E todo sucesso do mundo pra você!