O Enigma de Daniela: Um romance de vida e superação

Créditos: Julieta Benoit

Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente agradecemos por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar perguntando: Como surgiu a vontade de escrever um livro baseado numa história de superação? E quais foram as principais dificuldades em estrear um livro baseado em fatos reais de superação?

Lelita Oliveira Benoit: Eu que agradeço o amável convite, e devo dizer que é bem importante para eu dialogar com pessoas que visitam o site (D) Eficente. Quanto ao desejo (foi sim um desejo intenso!) de escrever o romance O Enigma de Daniela, nasceu de circunstâncias particulares da minha própria existência. Em 2011, passei por uma cirurgia de urgência. O médico neurocirurgião que me socorreu, doutor Alberto Bortman, por coincidência, ou sei lá que nome dar, é o pai de Daniela, que tinha se tornado tetraplégica aos 23 anos, em decorrência de um crime no trânsito, em 2006.

Mas prefiro contar isto tudo de modo poético: os nossos destinos, de Daniela, do pai Alberto e o meu, se entrecruzaram magicamente, germinando assim a história de superação da moça, entrelaçada a minha própria vida.

Embora esteja estreando como romancista, tenho outras produções no campo da filosofia, da psicanálise e da literatura. A editora Iluminuras que acaba de publicar O Enigma de Daniela apostou também nos meus poemas do Livro da Madrugada (E de outras enigmáticas horas amorosas). Para mim, desde a adolescência, escrever é tão natural quanto respirar, portanto, narrar uma história de superação não me apresentou desafios intransponíveis, foi sim tarefa bastante instigante e uma experiência maravilhosa para uma escritora. Respirei, vivi eis tudo, e foi bem natural.

Victor Hugo Cavalcante: Para você, enquanto escritora, o que não pôde faltar no seu romance e o que não pode faltar, de jeito nenhum, nestes tipos de livros tematizando a superação?

Escrevi um romance com muitos elementos ficcionais, ou como costumo dizer, um "romance de vidas", expressão ao mesmo tempo enigmática e que nos leva à reflexão sobre a existência humana no seu entrelaçamento com a palavra escrita. Falando um pouco mais sobre a palavra escrita: ela tem uma importância fundante para nós humanos, nada ou pouco somos sem a leitura, sem a escrita. Aliás, o povo judeu, que acolhi nas páginas do Enigma de Daniela, sempre soube disto.

Desde milênios, o único país que os judeus habitaram foi a Torá, a Bíblia deste povo singular, em êxodos permanentes pelo mundo. E é sim a vida que nunca pode estar ausente, neste tipo particular de escrita ou, acredito eu, em qualquer outro gênero literário, na poesia, no conto, no romance policial que, aliás, gosto muito. A vida feita ficção, a vida romanceada tem sangue nas veias, coração que palpita, pulmões que respiram, e alma, ou espírito, ou o nome que se quiser dar. Enfim: o ser que tem uma ou mais faltas no corpo ou na mente, deve ser reconhecido pela vida que carrega em si, por suas aptidões intelectuais, por seus talentos artísticos, por sua sensualidade e assim vai. Ou assim deveria ser o seu reconhecimento como ser humano.

Victor Hugo Cavalcante: Como você conheceu a história da vida de Daniela Bortman?

Tinha uma dívida com o doutor Alberto, e era imensa, pois ele havia, em certo sentido, me devolvido a vida que estava quase a se perder em mim. Pensei então em escrever um romance sobre o pai do médico, Cwi Bortman: existência esta que começou nos idos tempos da U.R.S.S., na atual Rússia, onde o jovem homem judeu era físico nuclear.

Doutor Alberto, mais prático e objetivo que eu, deu uma guinada no meu desejo e me pediu que escrevesse a história de Daniela. Logo tratou de nos colocar em contato e começaram as conversas quase que semanais, que perduraram por mais de um ano. Alongavam-se, muitas vezes, por mais de duas horas.

Acredito que esse tempo das conversas infindáveis foi muito penoso para Daniela, que, contudo, enfrentava com um sorriso estampado no rosto bonito a dificuldade em colocar a dor e o sofrimento em palavras.

Revisitar a dor e o sofrimento é o mesmo que os sentir outra vez, é uma repetição muitas vezes insuportável. Mas para Daniela eram desafios que soube superar, com mente lúcida, coração sensível e muita emoção. Aliás, me lembro da moça me dizendo que o romance, o nosso romance, deveria despertar emoções boas nas pessoas que o lessem.

Victor Hugo Cavalcante: Quais foram os principais cuidados que você tomou ao escrever o romance O Enigma de Daniela ao se basear na vida da médica, e porque ele tem este nome?

Foi o pai quem o batizou com o nome de O Enigma de Daniela. E respondendo a outra parte da sua pergunta: quando algum escritor ou escritora se põe a compor um romance, particularmente sobre a questão da superação (sempre parcial, é bom não esquecer), cerca-se de milhares de pequenos cuidados. É isto, creio eu, o que define certo tipo de escrita, ou todo tipo de escrita: o cuidado no emprego de cada palavra, de cada expressão, o cuidado em desenhar os sentimentos de cada pessoa em particular, o cuidado na composição das partes do romance e os milhares de grandes ou pequenos cuidados. Pois tudo isto vai aos poucos definindo o estilo do autor, se rude ou suave, se instigante ou desleixado. Isto tudo pode alterar até mesmo o sentido do romance, de qualquer romance. Todo cuidado é pouco, acredito eu.

Victor Hugo Cavalcante: Qual é a importância que você, enquanto escritora dá para livros que relatam experiências de superações (mesmo que fictícias)? Como a leitura de tais histórias pode ajudar quem está passando por algum momento de dificuldade?

A sua pergunta é excelente. Um dos sentidos de O Enigma de Daniela seria o de narrar certa experiência de superação, no caso da moça Daniela que se formou em medicina após o acidente que lhe roubou a liberdade.

Por que narrar tal história? Qual seria a sua importância para o mundo dos seres que carregam deficiências de todo tipo? Eu posso responder com relativa segurança: a finalidade a ser alcançada é que outros que partilham as mesmas dificuldades, possam ali encontrar um espelho. Espelho que os ajude a ver a própria imagem e que os leve a refletir sobre outras saídas para recompô-la, com imaginação e criatividade.

Um dos maiores ganhos para as pessoas portadoras de deficiências físicas ou mentais é o uso da imaginação e da criatividade, dois caminhos que estão presentes em todo ser humano. Basta pensar, basta imaginar, basta criar o novo: abrem-se caminhos de superação.

Victor Hugo Cavalcante: Pretende algum dia escrever outro romance? Por quê?

Para mim, escrever é o mesmo que respirar, como já contei aqui. Como posso viver sem escrever? Impossibilidade absoluta.

Tenho outros planos de outros romances, que já começam a existir dentro de mim. Mas sinceramente, venho pensando com carinho e com muito amor em adentrar ainda mais no universo maravilhoso das histórias de superação. Que como já disse antes é sempre uma superação parcial, não apenas para os seres portadores de deficiências diversas, mas também para qualquer ser humano.

A vida, embora finita, se constituiu por infindáveis momentos de superação. Tenho particular apreço pelo nome deste site: mostra que o avanço é sempre possível, basta retirar uma letra, uma simples letra D. Toda superação é avanço, para qualquer ser humano, incluídos os seres portadores de deficiência diversas.