Conversa de outro mundo

Créditos: Divulgação

Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente agradecemos pela entrevista concedida e gostaria de começar perguntando: Como surgiu o Relatos de um Garoto de Outro Planeta? Porque ele tem este nome tão grande?

Relatos de um Garoto de Outro Planeta: Olá! Eu quem agradeço a oportunidade de mostrar meu trabalho!

O blog começou inicialmente como uma página no Facebook sem nenhuma pretensão ou ambição. Eu a criei com o objetivo de publicar reflexões e desabafos que eu não poderia publicar no meu perfil pessoal, uma espécie de espaço seguro. Eu não tinha pretensão de fazê-la crescer e não publicava regularmente, porém ela foi se transformando em uma paixão e eu fui criando um vínculo com as pessoas que me acompanham. Além disso, os textos foram ficando mais complexos e aí percebi que uma página de Facebook não era mais o melhor lugar para eles, por isso resolvi criar um blog.

Ainda alimento a página e estou começando a investir em outras redes sociais, mas deixo os conteúdos mais longos e detalhados para o blog.

Victor Hugo Cavalcante: Qual o objetivo do blog?

O objetivo foi mudando com o passar do tempo. Na época que era somente a fanpage, se tratava de algo mais pessoal focado em meus relatos e reflexões, mas hoje o meu objetivo de espalhar conhecimento e informações de utilidade pública a respeito de saúde mental. Falar de Psicologia de um jeito mais horizontal, ou seja, eu não sou uma autoridade, eu sou também um paciente conversando com outros pacientes.

A maioria dos portais e canais sobre saúde mental e Psicologia tem uma linguagem mais técnica e teórica. Já no meu site, busco relacionar os conhecimentos em Psicologia com vivências minhas que outras pessoas possam se relacionar e também com obras de ficção e cultura pop. Dessa forma a Psicologia se torna algo mais fácil de absorver.

Victor Hugo Cavalcante: Por que você decidiu pelo anonimato?

Eu quero ser terapeuta no futuro e ter muitas informações pessoais sobre mim publicamente pode ser prejudicial nesse sentido. A abordagem que eu mais estudo e que provavelmente será a que eu vou trabalhar no futuro é a Psicanálise e ela preza pela neutralidade do terapeuta. Ou seja, é importante que o psicólogo tenha muito cuidado ao revelar informações sobre si mesmo aos seus pacientes.

Se eu usasse meu nome real no blog, meus futuros pacientes poderiam encontrá-lo e teriam acesso à minha intimidade, por isso optei por utilizar um pseudônimo.

Victor Hugo Cavalcante: Como surgiu a ideia de criar um sistema de apadrinhamento do blog na plataforma Padrim?

Apesar de no momento eu não ter nenhum ganho financeiro direto com meu blog, ele demanda muito trabalho. Eu preciso estudar muito para cada publicação e eu busco referências de muita qualidade como livros e artigos científicos.

Quando vou fazer uma resenha, eu assisto novamente aos filmes ou séries em questão. Sempre procuro trazer conteúdos com o máximo de qualidade possível. Além de que eu tomo conta de tudo sozinho: redação, revisão, artes de divulgação e as redes sociais.

Então, achei interessante ter uma forma de as pessoas me ajudarem com pequenas contribuições, por isso criei essa campanha. Eu mesmo já apadrinhei canais no YouTube e sites que eu gostava de acompanhar, acho a proposta desses sites de financiamento coletivo incrível!

O dinheirinho extra seria muito bem-vindo e eu poderia reinvestir uma parte dele impulsionando publicações ou divulgando meu blog com o Google Ads, o que me ajudaria a crescer (risos).

Victor Hugo Cavalcante: Você escreve resenhas de obras como filmes, séries, livros, quadrinhos, jogos eletrônicos, música, etc, sempre com um viés voltado para saúde mental, Filosofia e Psicologia, por quê?

Muitas obras de ficção trazem reflexões interessantes que podemos levar para a vida. Inspiro-me muito, às vezes até mesmo filmes de animação da Pixar me ensinam coisas:

Toy Story fala sobre o quanto é doloroso crescer, Wifi Ralph fala sobre insegurança e dependência afetiva que podemos relacionar com conceitos de Psicologia Analítica (ambos os filmes que ainda pretendo escrever sobre no blog).

Então as análises que eu faço buscam explorar esses temas mais profundos das obras. Como falei lá em cima, é uma forma de relacionar conhecimentos em Psicologia com coisas que as pessoas possam se relacionar mais facilmente.

Victor Hugo Cavalcante: Falando sobre filosofia e psicologia quais são suas principais indicações de filmes, quadrinhos e livros que abordem (Mesmo que superficialmente) tais temas?

São tantas obras que fica até difícil de responder. É possível extrair Psicologia de quase tudo, mas tem algumas obras que tratam de temas de forma mais interessante.

Eu gosto muito da série Crazy Ex-Girlfriend, já escrevi uma análise sobre ela no blog. É uma série de comédia e musical que fala sobre muitos temas interessantes como transtorno de personalidade borderline, feminismo, sexualidade, saúde mental, todos de forma divertida, porém responsável.

Também gosto da série Please Like Me, que também é de comédia e também trata de assuntos relacionados à saúde mental. Josh, o protagonista, tem uma mãe que sofre com transtorno bipolar e durante a série ela chega a ser internada em um hospital psiquiátrico em que conhecemos outros personagens que também possuem transtornos (depressão com automutilação, outros bipolares, transtorno de ansiedade generalizada, etc). Ela também aborda sexualidade, DST's, drogas e vários outros assuntos delicados sempre de forma muito responsável e divertida ao mesmo tempo. Está na lista de futuras análises que pretendo publicar no blog.

Em matéria de filmes, temos A Sala do Suicídio (2011) que retrata muito bem o que se passa na mente de uma pessoa com depressão profunda, já escrevi uma análise sobre ele também (contém gatilhos). Em quadrinhos eu já escrevi sobre os transtornos mentais presentes em personagens da série Batman e sobre a saga Monstros do Id da Turma da Mônica Jovem que fala sobre Psicanálise.

Victor Hugo Cavalcante: Como respondido anteriormente o nome do seu blog tem a ver com o livro O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince) do autor francês Antoine de Saint-Exupéry de 1943, quando você o leu? E porque e como ele te influenciou a tal ponto de dar o nome do seu blog a algo relacionado a ele?

O Pequeno Príncipe é um dos meus livros favoritos e ele marcou muito a minha infância. Eu não lembro exatamente a época que eu li pela primeira vez, mas foi quando eu era bem pequeno.

Ele é um clássico atemporal que influencia crianças e adultos até os dias de hoje.

A principal mensagem por trás do livro é que nunca devemos deixar a nossa criança interior morrer e o blog reviveu a minha criança interior. Graças a ele eu reencontrei paixões de infância que há muito tempo havia abandonado, como escrever poesia e desenhar. Ele se tornou um dos meus trabalhos, mas eu faço por amor.

Quando somos criança, nós fazemos as coisas apenas pelo prazer de fazer e sonhamos com futuras profissões porque achamo-las legais, mas conforme crescemos a gente deixa a paixão de viver de lado e tudo se torna obrigação.

Também fui influenciado pelo filme Tocados pelo Fogo (2015), inspirado em um livro homônimo escrito pela cientista Kay Redfield Jamison que fala sobre a relação entre bipolaridade/transtornos de humor com arte e criatividade, em um ponto do filme há uma referência a O Pequeno Príncipe.

Eu tenho diagnóstico de transtorno bipolar e por um tempo me senti deslocado e incompreendido pelas outras pessoas, como se eu fosse de outro planeta, o planetinha em que o príncipe vivia, com o tempo percebi que cada um de nós vive em seu pequeno mundinho.