Salve Kizi: Do teatro iguaçuano ás telinhas nacionais

Créditos: Vitor Vieira Fotografia

Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar perguntando como começou sua relação com a atuação?

Kizi Vaz: Obrigada você, é sempre um prazer!

Foi numa montagem de peça da escola que atuei pela primeira vez. A partir disso minha mãe foi à procura de cursos de teatro pra mim, também fui convidada para desfilar, mas eu sempre tive muito quadril, corpo de mulher brasileira mesmo, então não deu muito certo. Daí comecei a fazer um curso de teatro em Nova Iguaçu, depois fiz um curso na Casa da Gávea, foi quando minha mãe viu uma entrevista do Guti Fraga, presidente do Nós do Morro e fui para lá fazer teatro.

Victor Hugo Cavalcante: Sua primeira novela foi a global Salve Jorge (2012) de Glória Perez, como foi fazer sua estreia em uma novela que continham grandes nomes da teledramaturgia nacional, como a atriz Rosi Campos, Carolina Dieckmann, Nicette Bruno e muitos outros?

Salve Jorge foi muito importante pra mim, principalmente na questão de aprendizado, em como funciona o estúdio, sobre a questão de posicionamento de câmeras e por contracenar com essas atrizes que tanto admiro. Eu comecei como elenco de apoio e tive a oportunidade de ganhar um personagem, o qual se desenvolveu durante a trama, foi muito especial.

Victor Hugo Cavalcante: No teatro, você integra a tradicional e revolucionária Cia Nós Do Morro desde 2006, onde também se formou em artes cênicas, iluminadora e multiplicadora da Cia. Para você quais são as principais diferenças entre atuar ao vivo nos palcos e atuar em novelas?

Pra mim todas as áreas ligadas à arte é gostoso de fazer e atuar, são bem diferentes claro, no teatro é ao vivo, a voz é mais entonada com mais movimento corporal, e na TV é algo mais contido, devemos saber o posicionamento das câmeras e a gente pode parar e voltar, se preciso. Acho que todos os dois tem seu encanto, eu gosto de fazer tudo, cinema, teatro, TV, sou apaixonada por todos! (Risos) 

Victor Hugo Cavalcante: Falando sobre teatro qual foi a peça mais fantástica e qual foi a mais difícil que você já atuou e por quê?

A peça mais fantástica e especial na minha vida se chama Bandeira de Retalhos, que é uma peça da Cia Nós do Morro da qual eu participei. E também foi a mais difícil porque era minha primeira protagonista no teatro, a peça tinha duas horas, eu só saía de cena em um minuto e já voltava, então eu ficava praticamente duas horas no palco, mas foi muito especial, um grande aprendizado, inclusive foi através dela que comecei na TV, foi quando o Lauro Macedo, produtor de elenco, me viu no espetáculo e me chamou. E eu sou apaixonada pelo autor, que é o Sérgio Ricardo, que além de autor é o compositor das músicas.

Victor Hugo Cavalcante: Quando você interpreta personagens, seja em novelas, filmes ou em teatro, você costuma dar seu toque pessoal no personagem ou segue o script? Por quê?

Ah eu acho que é um conjunto. É o que a história me dá e com isso vou criando em cima do contexto da história, claro, cada ator trabalha de uma maneira e cada um dá o seu toque. Eu sempre trabalho com uma coach, a Fátima Domingues, e juntas a gente vai descobrindo o melhor caminho para cada personagem.

Victor Hugo Cavalcante: Quais foram as personagens que você já interpretou que mais se parecem contigo no sei jeito de agir e pensar? Por quê?

A Suelen de Ilha de Ferro é a personagem que mais me identifico, que mais combina comigo. Eu fico entre algumas características da Gabi de Babilônia e da Suelen. A Gabi porque era uma pessoa do bem, trabalhadora, sempre lutando muito pelos objetivos e tinha o sonho de construir uma família, então nisso me identificava muito com ela. A Suelen é uma mulher de muita atitude e também tem essas características de uma mulher que batalha, que está aí pra luta e trabalha num universo que é praticamente todo masculino, mas está ali lutando pelo seu espaço.

Victor Hugo Cavalcante: Paralelamente a sua carreira de atriz você é mentora e criadora do Curta Arte Caxias, uma ONG em Duque de Caxias (RJ) voltado para crianças e adolescentes praticarem atividades físicas e culturais além da sala de aula, com oficinas de teatro, palhaçaria, esporte, dança e reciclagem. Conte-nos mais sobre esta ONG e como vocês enxergam a importância do trabalho realizado por ela nas comunidades de Duque de Caxias.

A criação do projeto Curta Arte Caxias surgiu desde o momento em que eu entrei no grupo Nós do Morro e eu vi que era possível levar cultura para todos os lugares e pra todas as pessoas. Eu sou de Duque de Caxias, minha família toda também, vivi lá até meus 21 anos, e eu sempre senti falta de cultura, sou do bairro Primavera, então eu via que eu saía da escola e não tinha muito o que fazer além da sala de aula, até porque eu não tinha condição pra pagar um curso, e eu via que ali poderia ser um lugar no qual outras pessoas poderiam ter oportunidades, só que não tinham né, ninguém olha muito pra esses lugares, isso é muito triste.

Então através do Nós do Morro, vendo todo o movimento do grupo eu tive a ideia de fazer o Curta Arte Caxias, não é fácil, não tenho apoio financeiro de nenhuma esfera, mas tenho o apoio dos meus amigos que são artistas e que me abraçam nessa causa, o projeto é feito pra levar cultura pra quem não tem acesso, pra apresentar esse lado cultural para crianças que nunca tiveram contato com a cultura, eu fiz o primeiro evento em 2017 e o segundo evento foi no final do ano passado, um Especial de Natal e ambos foram emocionante, primeiro porque sou de Caxias e segundo por ter conseguido fazer algo tão especial e ter plantado uma sementinha na cabeça de cada um ali, ter deixado um pouquinho de cultura pra cada um.

Pra mim é muito especial, a gente ainda não tem um espaço físico, mas estou lutando pra isso.

Victor Hugo Cavalcante: Quais são suas principais inspirações para continuar na carreira de atriz? E quais seus atores prediletos e com quais você gostaria de contracenar?

As atrizes negras são as minhas grandes inspirações porque a gente tem uma grande luta para ganhar espaço no mercado, acho que hoje a gente já está conquistando esse espaço, mas ainda há um caminho a ser percorrido. Então sempre admirei muito a Zezé Motta, Elisa Lucinda, Camila Pitanga, Taís Araújo entre outras.

E na verdade, pra continuar minha carreira, eu sempre tenho muita força da minha mãe, uma mulher que sempre lutou muito pelos objetivos dela, na verdade, ela é minha maior Inspiração. Ah tenho muitos atores que eu gosto (risos), a Glória Pires que eu tive a grande oportunidade de contracenar em Babilônia e no filme A Suspeita que vai estrear em 2020, amo o Tony Ramos, tenho muita vontade de contracenar com ele, Lília Cabral, Herson Capri que é um ator que contracenei em Rock Story e já o admirava muito, Fernanda Montenegro e Marieta Severo que também tenho vontade de contracenar.