Curitiba faz festa no meio de tantas lendas

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No dia 29 de março a capital paranaense (Curitiba) completa 326 anos, e como toda cidade tem incríveis lendas e causos, quem conhece bem as lendas da cidade é a autora Luciana do Rocio Mallon que está escrevendo a segunda edição de Lendas Curitibanas, o livro que contará com novos contos será lançado dois dias antes do aniversário da cidade, (27 de março).

Segundo a autora a capital do Paraná é repleta de causos misteriosos. Pois há animais que se transformam em gente, tesouros escondidos, ônibus que passam no além e noivas-fantasmas.

Em comemoração aos 326 anos da denominada Cidade Sorriso, a escritora Luciana do Rocio nos conta algumas das lendas que povoam a imaginação dos moradores de Curitiba como a cobra subterrânea da cidade e a Fantasma da Linha Inter Hospitais:

1 - A lenda da fundação de Curitiba e lendas sobre a Cobra do Subterrâneo de Curitiba

No século dezessete na capela do primeiro vilarejo da região, ás margens do Rio Atuba, existia uma imagem de Nossa Senhora da Luz.

Naquele tempo havia um índio tingui, chamado Tindiquera que gostava de rezar neste templo. Diz a lenda que ele passava horas conversando com a santa, um certo dia, Tindiquera percebeu que a mão e os olhos da santa tinha mudado de posição e apontavam para uma determinada direção onde havia muitas araucárias .

Assim Nossa Senhora disse:
 - Neste local que eu aponto é para ser fundada uma cidade.

Os bandeirantes e os soldados do capitão Matheus Leme entraram em contato com este índio, que foram ao local escolhido pela santa. Lá Tindiquera colocou seu bastão mágico no chão, fez um ritual e gritou a palavra Core Etuba, que significa em sua língua: Lugar que tem muito pinhão. Da vara mágica nasceu uma árvore frondosa.

No dia 29 de março de 1693, o capitão Matheus Leme fundou Nossa Senhora da Luz dos Pinhais dos Campos de Curitiba naquele local, lá, mais tarde, foi fundada a Catedral de Nossa Senhora da Luz de Curitiba.

Alguns anos depois Tindiquera teve o seguinte pesadelo: Curitiba tinha se transformado em uma cidade grande. Mas no seu subterrâneo uma enorme cobra despertou causando rachaduras no solo e destruindo a cidade inteira. O índio acordou desesperado, correu até a igreja e falou sobre o seu pesadelo ao padre, que acalmou o pobre, porém não fez nenhum alarde.

Tindiquera, preocupado, procurou o quartel para contar sobre sua visão aos militares. Um dos soldados ao ouvir a história exclamou:
 - Este local tem mais uma lenda!
- O nome desta lenda será: A Lenda da Cobra do Subterrâneo de Curitiba!

Em 1996, eu estava comentando sobre estas lendas com minha amiga Val, que fazia mestrado sobre lendas indígenas. Quando, no meio da conversa, a moça disse:
- A lenda da cobra do subterrâneo na cidade de Curitiba tem um fundo de verdade!

Então perguntei:
 - Como assim?

Ela explicou:
- A cobra foi uma linguagem figurada para as rachaduras tectônicas existentes debaixo desta cidade.

- A verdade é que Curitiba inteira está em cima de uma pedra enorme e ela possui rachaduras tectônicas, que se ficarem danificadas demais poderão fazer a cidade desaparecer entre 2009 e 2030. Há várias lendas indígenas sobre isto. Porém, também, existe esta explicação científica.

Neste momento, pergunto para mim mesma:
- Será que Curitiba, realmente, desaparecerá até 2030?

- Ou isto seria mais uma lenda urbana desta cidade?

2 - A lenda da Enfermeira Fantasma da Linha Inter Hospitais 

Em Curitiba, no século dezenove, existia uma enfermeira muito dedicada chamada Creusa. Nos seus dias de folga, ela pegava uma carroça para ir a lugares afastados com o objetivo de atender as pessoas doentes através dos seus conhecimentos e práticas. Uma vez ela estava trabalhando, no meio de várias pessoas, no hospital e comentou:

- Daqui a cem anos haverá um transporte que levará os doentes para todos os hospitais, desta cidade, e meu espírito estará dentro dele para ajudar os pacientes.

Naquele mesmo instante, os colegas da enfermeira viram um anjo, ao seu lado, que disse a palavra "amém" após Creusa falar estas palavras.

Depois de alguns dias, esta enfermeira foi atropelada por uma carroça e morreu. Logo surgiram boatos de criaturas dizendo que avistaram o fantasma desta moça dentro de uma carroça nos bairros mais distantes da cidade.

O tempo passou e em 1997, em Curitiba, foi criado um ônibus chamado Inter Hospitais que passa por laboratórios e vários hospitais da cidade.

Em 1998, dona Lídia virou passageira assídua desta linha porque sempre ia ao laboratório e ao hospital onde fazia quimioterapia. Porém ela notou que uma moça vestida com roupas de enfermeira antiga sempre pegava este ônibus. Em uma tarde de inverno, uma senhora que estava dentro do ônibus cortou-se e não parava de sangrar. Então a enfermeira misteriosa, pegou sua maleta e fez um curativo. Num outro dia um senhor começou a sentir falta de ar e esta mesma moça realizou uma massagem que fez este idoso respirar novamente.

Numa manhã, dentro deste mesmo ônibus, Lídia começou a sentir muitas dores nas costas. Por isto a enfermeira estranha aproximou-se e disse:
- Sinto que as costas, da senhora, estão doendo.
- Posso fazer uma massagem?

A idosa respondeu que sim e suas dores foram passando aos poucos. Deste jeito ela perguntou:
- Qual é o seu nome?
A enfermeira respondeu:
- Creusa.

Lídia fez mais uma indagação:
- Há quando tempo você é enfermeira?
A moça disse:
- Há mais de cem anos.

De repente, a jovem levantou-se para descer em um hospital. Mas, sem querer, deixou um papel cair da sua maleta.

Após esta donzela sair do ônibus, Lídia pegou a folha, que caiu, e notou que era uma foto antiga e amarelada da moça vestida de enfermeira, porém com a seguinte data: 1897.

Um mês depois, Lídia foi levar flores para os parentes mortos no Cemitério Municipal. Ao passar pelos túmulos, ela viu uma foto que parecia ser de alguém conhecido. Assim que ela se aproximou e percebeu que era o retrato da enfermeira misteriosa do ônibus Inter Hospitais, com as datas: 1874 - 1897.

3 - A Lenda do Gato Faísca da Capa Fina

Curitiba é uma cidade repleta de lendas sobre gatos. Temos o gato Kiko, da Loja Kisses, que dizem ser a reencarnação do antigo dono e o felino Bóris, da Livraria Trovatore, que falam que vira homem até hoje, mesmo depois de sua morte.

Um dia, choveu muito e fui me abrigar numa loja onde um gato também mora e soube do seguinte causo:

Reza a lenda que na esquina da Praça Zacarias com a Rua Emiliano Perneta existia um banco, chamado Caixa, onde trabalhava um vigia que era fã de felinos. Este guarda gostava de visitar o Gato Bóris da loja Kisses, da Rua Doutor Muricy, e sempre dizia:

- Quando morrer também me transformarei num gato e morarei no banco onde trabalhei.
Um dia, o guardião teve um AVC enquanto trabalhava e desmaiou.

Porém alguns anos depois, o banco que estava naquele local, fechou. Mas no mesmo lugar abriram uma loja de acessórios para celulares chamada Capa Fina.

Numa manhã chuvosa uma das funcionárias, moradora do bairro CIC, estava indo pegar o ônibus. Quando, de longe, viu uma faísca no abrigo do ponto do coletivo. Porém, ao se aproximar, viu que se tratava de um filhote de gato abandonado. Assim ela exclamou:

- Faísca!
- Seu nome será Faísca!

Desta maneira, como estava quase atrasada, a garota colocou o bicho na mochila, pegou o ônibus e levou para seu trabalho, a loja Capa Fina. Lá os donos adotaram o felino, onde ele recebeu comida e caminha quente num canto.

Hoje conheci Faísca, ele é simpático e deixa ser tocado pelas pessoas. Afinal, ele já foi um gentil e humilde vigia. Por isto ele não é como o gato Kiko, que não deixa ser tocado, porque foi a reencarnação de um costureiro famoso que atendeu a aristocracia curitibana no século dezenove. Poxa, o importante é o valor da humildade.

Dizem que nas sextas de lua cheia, o gato Faísca veste uma capa fina e vira um guarda que cuida da segurança do Centro da cidade.