Álcool e direção: Uma combinação fatal

Créditos: CARLOS ALKMIN

Victor Hugo Cavalcante: Tomar um chope gelado no final da tarde num país em grande parte tropical como o Brasil é um consolo, mas isso se torna perigoso quando exageramos, mas afinal como o álcool age no cérebro de uma pessoa para ela ficar alterada?

Elaine Di Sarno: O álcool é a droga lícita mais consumida pela sociedade desde o início da história, com relatos de pelo menos 6.000 anos, no antigo Egito e Babilônia. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) relata que aproximadamente dois bilhões de pessoas consomem bebidas alcoólicas, sendo de uso social ou por indivíduos dependentes como uma função mediadora da sociabilidade e é agente de desinibição e estimulador das relações sociais.

Estima-se que, a cada ano, o uso de bebidas alcoólicas seja consumado por cerca de dois milhões de pessoas, correspondendo a aproximadamente 40% (ou duas em cada cinco pessoas) da população mundial acima de 15 anos. No que concerne às consequências nocivas causadas pelo consumo alcoólico, estima-se que dois a 2,5 milhões de pessoas morram, anualmente, em decorrência de quadros de intoxicações alcoólicas agudas, cirrose hepática, bem como violência e acidentes de trânsito. Traçando-se um paralelo, a proporção entre os dados de consumo e de óbitos indica uma relação de que a cada ano tais consequências são responsáveis por, aproximadamente, 1,2 morte para cada 1.000 consumidores.

O consumo de bebidas alcoólicas por adolescentes é altíssimo quando comparado a drogas ilícitas, sendo este fator preocupante por causar grandes problemas, como os acidentes e mortes no trânsito, como também Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST's), gravidez não desejada e uso de outras drogas ilícitas. Essas complicações podem estar associadas a problemas familiares, sociais, culturais ou até mesmo depressão.

O álcool é considerado uma substância com ação depressora das funções cerebrais e do sistema nervoso, podendo tanto alterar sua estrutura quanto seu funcionamento, de modo considerável, promovendo uma deterioração neurofisiopsicológica. Tem caráter dosedependente, uma vez que em diferentes dosagens o álcool pode ter ação tanto estimulante quanto inibitória. O álcool consumido de forma aguda pode levar à alteração das funções cognitivas, as quais podem persistir nas fases iniciais da abstinência. Já o consumo crônico contínuo culmina em deterioração das funções neurológicas, produzindo alterações morfológicas e neuroquímicas no Sistema Nervoso Central (SNC). De outro lado, o consumo crônico intermitente, equivalente ao consumo de fim de semana, promove uma queda do metabolismo energético dos sistemas neuronais, contribuindo para o processo de neurodegeneração e deterioração das funções cerebrais.

O álcool, diferentemente das demais drogas, é rapidamente absorvido pelo organismo, isso torna o álcool extremamente nocivo, principalmente pelo fato de que ele ataca diretamente o sistema nervoso central de forma rápida, levando o indivíduo que o ingeriu a passar para um estado alterado de sua consciência, essa rápida absorção do álcool pelo organismo leva também a uma rápida eliminação desta substância tóxica do corpo, gerando, no indivíduo, uma sensação de necessidade de beber ainda mais, levando o indivíduo a consumir outras doses da bebida, tornando-o dependente químico.

Victor Hugo Cavalcante: Quais são os maiores riscos psicológicos cometidos por quem dirige embriagado?

O principal ingrediente das bebidas alcoólicas é a molécula de etanol. Quando o etanol carregado pelo sangue chega ao cérebro, ele estimula os neurônios a liberar uma quantidade extra de serotonina. Esse neurotransmissor, substância que leva mensagens entre as células, serve para regular o prazer, o humor e a ansiedade. Por isso, um dos primeiros efeitos do álcool é deixar o bebedor desinibido e eufórico.

Se o indivíduo seguir bebendo, outros dois neurotransmissores são afetados. O etanol inibe a liberação do glutamato, que por sua vez regula o GABA. Sem o controle do glutamato, mais GABA é liberado no cérebro. Como esse neurotransmissor faz os neurônios trabalharem menos, você perde a coordenação e o autocontrole, retarda consideravelmente o comportamento e o pensamento por meio da aceleração e desaceleração dos impulsos nervosos, atacando agressivamente o cérebro.

Os danos que o álcool produz a médio e longo prazo especificamente na memória, é muito mais grave e mais comum. Exames neuropsicológicos que avaliam a memória e outras funções cerebrais em pessoas não necessariamente dependentes de álcool, mas, por exemplo, que tomam três doses de uísque por dia, comprovam a existência de danos sutis na memória e na rigidez do pensamento, que elas não percebem ou atribuem ao processo natural do envelhecimento. A evolução pode ser lenta, mas o uso nocivo do álcool dentro desse padrão médio de consumo já acarretou com certeza distúrbios cerebrais.

As características da tóxicodependência do álcool são: seus efeitos iniciais podem ser, instabilidade emocional e motora, agressividade, psicose. Seus efeitos tardios, ausência de coordenação, ataxia, diminuição da percepção, depressão mental, rubor facial, sudorese, náuseas, vômitos, sonolência, coma alcoólico.

Victor Hugo Cavalcante: Algumas pessoas mais confiantes argumentam que se beberem em pouca quantidade não causará malefício nenhum ao dirigir, o quanto esta confiança pode atrapalhar ao tomar uma decisão errada que pode levar a graves situações? E por quê?

Os efeitos do álcool dependem de fatores como: a quantidade de álcool ingerido em determinado período, uso anterior de álcool e a concentração de álcool no sangue. O uso do álcool causa desde uma sensação de calor até o coma e a morte dependendo da concentração que o álcool atinge no sangue. Em pequenas quantidades, o álcool promove desinibição, mas com o aumento desta concentração, o indivíduo passa a apresentar uma diminuição da resposta aos estímulos, fala pastosa, dificuldade à deambulação, entre outros. Em concentrações muito altas, ou seja, maiores do que 0.35 gramas/100 mililitros de álcool, o indivíduo pode ficar comatoso ou até mesmo morrer. A Associação Médica Americana considera como uma concentração alcoólica capaz de trazer prejuízos ao indivíduo 0.04 gramas de álcool/100 mililitros de sangue. Por exemplo: Duas latinhas de cerveja já provocam os primeiros sintomas no cérebro. Levamos uma hora para processar 14 mg de álcool, o equivalente a: 350 ml de cerveja ou 150 ml de vinho ou 40 ml de uísque.