Capoeira: Da África para o mundo em prol do crescimento e outras benesses

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Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar com a seguinte pergunta: Como começou sua relação com a capoeira e com o ensino desta prática esportiva?

Mestre Rafael Carvalho: Agradeço pelo convite! Comecei a praticar a capoeira no ano 2000, com 12 anos de idade. Sempre tive muitas dificuldades na pratica de esportes coletivos, não tinha muita habilidade e era muito inseguro. 

A capoeira me ajudou muito com isso, fez com que descobrisse habilidades que jamais imaginava. Comecei por vontade própria e até tive que insistir um pouco para que minha família aceitasse.

Minha vida ensinando capoeira começou por volta de 2005, trabalhei durante esse ano e 2006 como voluntário no programa escola da família em Guarani D'Oeste. Em 2007 devido ao nascimento do meu primeiro filho e por motivos de mudança fui obrigado a dar um tempo. Retomei as atividades em 2010 como estagiário do Projeto Cidadão do Futuro em Guarani D'Oeste. Posteriormente em 2012 me tornei professor de Educação Física no município, assim pude dar continuidade até ano de 2016. Em 2019 já tenho planos para retomar esse projeto.

Em 2014 iniciei um trabalho no município de Indiaporã, na E.M.E.F. Othaydes Luiz Arantes, custeada pelo Programa Mais Educação do governo federal. Essa Parceria durou até 2016, com o encerramento de programa.

Mas como a capoeira já havia criado raízes ali, a Prefeitura Municipal de Indiaporã, resolveu abraçar a causa, assim nascendo o Projeto Crescer, que atualmente vive sua melhor fase no Município.

Victor Hugo Cavalcante: Quais os principais benefícios corporais, mentais e sociais para as crianças e jovens que praticam capoeira?

A capoeira é uma atividade que contempla várias habilidades motoras, quanto capacidades físicas, o que na infância é de suma importância no desenvolvimento da criança e adolescente. Faz com que descubram as possibilidades que o corpo pode oferecer (consciência corporal), ajuda a aliviar o estresse e ansiedade, e ensina que acima de tudo, devemos ter respeito ao próximo e disciplina para crescerem, não só na capoeira, mas como na vida.

Com o passar do tempo, se cria um vínculo muito bonito entre os alunos, todos se preocupam uns com os outros e a amizade ali construída vai além das aulas de capoeira.

Victor Hugo Cavalcante: Qual é a idade ideal para quem gostaria de matricular seu filho em aulas de capoeira? É mais fácil aprender esta prática esportiva quando criança/adolescente do que quando mais adulto?

Não existe um consenso, varia de cada grupo ou professor estipular uma idade mínima.

Acontece que entre 3 e 5 anos existe uma diferença de desenvolvimento motor muito grande de uma criança para outra, pode ser que uma criança de 3 anos já tenha mais facilidade que uma de 5 anos. Mas nesses casos a família pode experimentar e ver como a criança responde. E lembrando que nessa faixa etária o ideal é que seja uma turma exclusiva, pois a metodologia é um pouco mais lúdica.   

Victor Hugo Cavalcante: Quais são os ensinamentos além da arte marcial que a capoeira procura ensinar para seus atletas em relação a moral e ética?

As principais são disciplina, respeito ao próximo, hierarquia da capoeira e respeito as tradições. Como já citei antes, se criam laços afetivos muito fortes, cria - se uma família, onde um se preocupa com o bem-estar do outro.

Tenho como exemplo a minha turma em Indiaporã, quando um aluno falta mais de um dia seguido, os próprios colegas vão até sua casa, ou entram em contato via, mensagem, para saber está tudo bem.

Tenho uma contribuição enorme das famílias nesse mesmo projeto, sempre estão juntos pelo bem comum das crianças.

Victor Hugo Cavalcante: As escolas de algumas artes marciais utilizam faixas e cordões que simbolizam o grau de evolução dos atletas destas práticas, na capoeira também é assim, mas afinal como funciona esta divisão?

Na capoeira não se utilizam faixas, são usadas cordas ou cordões, isso vai de acordo de cada grupo. Hoje não existe um padrão especificado, cada grupo adota seu sistema de graduação. Alguns grupos seguem as cores da bandeira nacional, graduação estabelecida pela Confederação Brasileira de Capoeira (CBC).

Em tese seria uma ideia interessante a unificação dos sistemas, mas existe muita coisa envolvida por traz e também existe uma grande resistência da CBC para o novo, estão presos as muitas coisas do passado.

Hoje os maiores grupos de capoeira do mundo tem seus próprios sistemas de graduação e ensino da capoeira, e os mesmos são os responsáveis pela difusão da capoeira pelo Mundo.

O Grupo Cadencia, o qual participo, adota as seguintes graduações:

Iniciante:

  • 1ª Corda: Crua e Verde claro.

Aluno:

  • 2ª Corda: Verde claro;
  • 3ª Corda: Verde claro e Amarelo;
  • 4ª Corda: Amarela;
  • 5ª Corda: Amarela e Laranja.

Aluno Graduado:

  • 6ª Corda: Laranja;
  • 7ª Corda: Laranja e Vermelha.

Instrutor:

  • 8ª Corda: Vermelha;
  • 9ª Corda: Vermelha e Azul.

Professor: 

  • 10ª Corda: Azul;
  •  11ª Corda: Azul e Roxa.

Mestrando:

  • 12ª Corda: Roxa.

Mestre

  • 13ª Corda: Roxa e Branca;
  • 14ª Corda: Branca.

Victor Hugo Cavalcante: Existe algum tempo mínimo para um atleta aprender a lutar capoeira ou vai depender de cada esportista?

Não existe um tempo mínimo, em relação aos movimentos básicos variam muito de pessoa para pessoa, pois envolvem muitas habilidades motoras e capacidades físicas, volto a mencionar o caso da criança de três e cinco anos. Pessoas que tem naturalmente uma boa flexibilidade e consciência corporal tendem a ter mais facilidade no aprendizado.

Mas a capoeira também faz com que as pessoas se descubram, podem através dela, explorar habilidades adormecidas, é até mesmo desenvolver novas, através do treinamento.

Agora compreender a capoeira como um todo leva muito mais tempo, e isso que futuramente faz a separação entre alunos, professores e mestres.

Victor Hugo Cavalcante: Quais os golpes utilizados na capoeira?

Ginga: Trata-se do movimento básico que orienta o jogo. Apesar de não ser propriamente um golpe de capoeira, a ginga faz parte dessa arte. Pode-se dizer que a ginga é o estilo de se jogar a capoeira. A mão direita do capoeirista vai para frente, enquanto sua perna direta vai para trás. O mesmo movimento é repetido com a perna esquerda e direita, de forma contínua.

Benção: Bem popular no jogo de capoeira, a benção é um golpe que costuma surpreender o adversário. Utiliza-se o lado de baixo do pé para dar um pontapé, logo depois de se levantar o joelho. Essa tática confunde o adversário.

Armada: Chute com a parte externa do pé, logo após um giro de 360º com o corpo.

Meia-lua de compasso: Esse golpe de capoeira é bem elaborado, pois demanda um giro de 360º, além de que o ataque é o chute com a canela. As duas mãos do capoeirista ficam no chão durante o golpe.

Cabeçada: Golpe direto com a cabeça, caracterizado pela extrema força e capacidade de desequilibrar o oponente.

Negativa: Não se trata de um golpe de capoeira de forma específica, mas sim de uma esquiva. Através da negativa o capoeirista evita os ataques do oponente.

Rasteira: Um dos principais golpes de capoeira, a rasteira tem por objetivo tirar o equilíbrio do oponente. Com uma das pernas o capoeirista "varre" a perna principal do oponente, derrubando-o. Para que seja um golpe eficiente, deve ser feito como elemento surpresa.

Rabo de arraia: Movimento no ar, seguido de um golpe preciso com o calcanhar. Esse golpe de capoeira é mais elaborado, sendo exercido por capoeiristas experientes.

Pisão: Golpe ofensivo em que se utiliza o pé para dar uma espécie de coice no oponente. O capoeirista deve estar em pé, levantar a sua perna e voltar a abaixar, de forma rápida e firme.

Esses são os principais golpes de capoeira. Existem vários outros, cada um com sua peculiaridade. Todos eles compartilham a ginga, que é o movimento básico dessa forma de expressão artística.

Victor Hugo Cavalcante: Hoje em dia, a capoeira se tornou não apenas uma arte ou um aspecto cultural, mas uma verdadeira exportadora da cultura brasileira para o exterior. Para você enquanto professor desta prática como é poder perceber que esta arte marcial tipicamente brasileira está cada vez mais sendo propagada para o exterior?

A capoeira é reconhecida como esporte desde a década de 30, e hoje está presente praticamente no mundo todo, mas ainda lutamos muito para um reconhecimento maior, principalmente aqui no Brasil. O fato de não termos uma unificação, como já citei, atrapalha muito.

Cada um quer defender a sua capoeira, mas deveríamos nos unir, infelizmente isso não acontece e está longe de acontecer. Todos deveriam ceder um pouco pelo bem da capoeira. Os grupos que fazem o trabalho no exterior são independentes cresceram por conta própria e hoje são maiores e mais organizados que a própria federação do Brasil.

Resumindo, fico muito feliz pelo crescimento e reconhecimento da nossa arte, mas poderia ser muito melhor do que é!

Victor Hugo Cavalcante: Ainda existe algum tipo de preconceito sobre a capoeira, apesar de ela ser bem difundida no nosso país e afora?

Infelizmente ainda existe, mas isso se deve pela desinformação de quem a crítica. A capoeira no início do século passado foi sinônimo de marginalização. Muitos capoeiristas no passado foram perseguidos, oprimidos e até mortos. Atualmente existe o preconceito pelo fato da sua origem africana, vivemos em um país que sofre com a intolerância.

Outra barreira é referente à religião, uso esse exemplo porque sofri com isso também por ser de família evangélica. A capoeira tem suas origens na África, assim como outras manifestações religiosas, mas cada caso é um caso.

Mestre Bimba, responsável por tornar a capoeira o esporte que é, fez questão lá na década de 30 de desvincular o esporte da religião, para que assim a capoeira pudesse ser praticada por todos.

"A capoeira não tem religião, o capoeirista sim."

A capoeira é um esporte maravilhoso, só quem pratica conhece sua verdadeira essência e se liberta de todos esses paradigmas.