Fernanda Oz: A volta da The Darkness no Halloween

Créditos: Facebook

Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente é um prazer te entrevistar novamente e gostaria de começar com a seguinte pergunta: Você é uma amante do terror, sendo assim o que significa o Halloween para você?

Fernanda Oz: Gosto muito dessa data pela estética e pelo conceito... a ideia de uma proximidade maior entre vivos e mortos.

Victor Hugo Cavalcante: Quais seriam suas indicações perfeitas de filmes para serem assistidos nesta quarta terrorífica de Halloween?

O novo filme da franquia Halloween e a nova série da Netflix, Sabrina.

Victor Hugo Cavalcante: Você ainda escreve contos, quais foram os últimos títulos e sobre o que eles falavam?

Meu últimos dois contos foram sobre o apocalipse e sobre fobias. Eu os escrevi para uma coletânea inglesa da Editora Samie Sands.

Victor Hugo Cavalcante: Para você o que significa um verdadeiro e bom filme de terror? O que ele deve ter para te assustar e te fazer assistir?

Um bom filme de terror pra mim pode ter várias formas... pode ser do tipo sangrento, do tipo psicológico ou frenético, pois eu realmente amo o gênero. O que me faz gostar de um filme é o que ele me faz sentir, como o história é ou não capaz de despertar interesse, seja esse filme tecnicamente bom ou ruim.

Porém, para me assustar de verdade, só filmes com alienígenas humanoides abduzindo pessoas. (RISOS)

Victor Hugo Cavalcante: Sobre livros e contos de terror, quais suas dicas para quem deseja escrever um livro incrível de terror?

Pra escrever temos que ler, é o ciclo... Eu indico começar pelos de leitura mais fácil e exposta, tipo Stephen King, e depois adentrar nas loucuras de Lovecraft e Poe. Existem inúmeros autores bons de terror que podem dar inspiração, mas esses três que citei são obrigatórios e deliciosamente perigosos.

Victor Hugo Cavalcante: Quais seus livros/contos e autores favoritos do gênero de terror?

  • O horror de Dunwich, de H.P. Lovecraft;
  • O nevoeiro, de Stephen King;
  • Caixa de pássaros, de Josh Malerman;
  • Os poemas de Augusto dos Anjos;
  • Ultra Carnem, de César Bravo;
  • O corvo, de Edgar Allan Poe;
  • O menino que desenhava monstros, de Keith Donohue;

E muitos outros.

Victor Hugo Cavalcante: Quando criança o que mais te assustava? E hoje em dia, do que você tem medo/pavor?

A mesma coisa que me assustava quando criança e me ainda assusta hoje são alienígenas. (Risos)

Victor Hugo Cavalcante: Para você enquanto escritora o que o sentimento de medo significa?

Essa é uma boa pergunta... Para mim, como escritora, causar medo através da leitura é de uma empolgação sádica, pois significa que atingi meu propósito. As pessoas procuram o terror visto que querem sentir o medo e ao mesmo tempo sentirem-se seguras... É como andar de montanha russa ou pular de paraquedas, você sente o medo mas sabe que está seguro, no controle da situação. A relação entre escritor-autor é uma relação de sadomasoquismo literário.

Victor Hugo Cavalcante: Quais as histórias que você ouvia quando criança que mais te dava medo? E quais histórias de terror você mais gostava de ler/ouvir e assistir?

Eu comecei a assistir filmes de terror cedo, com sete anos, e me lembro de ter medo do filme O enigma de outro mundo e Fogo no céu, mas mesmo assim adorava e assistia várias e várias vezes.

Iniciei na leitura de terror um pouco mais tarde. Na verdade, antes de começar a ler terror, escrevi uma fanfic de O massacre da serra elétrica e uma história original sobre vampiros e lobisomens, e foi ai que percebi que precisava ler. Comecei, assim como indiquei lá em cima, pelo King.

Victor Hugo Cavalcante: Qual para você foi o conto mais legal de criar? Por quê?

Amei criar todos os meus contos... todos são especiais, mas criar o meu primeiro conto para uma antologia internacional foi muito especial, pois é como viajar sem sair do lugar.

Victor Hugo Cavalcante: Qual foi o melhor e mais assustador conto que você já escreveu?

Deixo essa resposta para os meus leitores. (Risos)

Victor Hugo Cavalcante: Mande-nos um pequeno conto de terror para aproveitarmos esta data negra.

HELIOFOBIA - tradução

O ser humano é o animal mais frágil da Terra, capaz de construir cogumelos atômicos, mas incapaz de se livrar dos medos da própria mente.
Enquanto a formiga completa seu curto ciclo de vida e não se preocupa com a morte além de seus instintos inatos, nós rodamos atrás de nossos próprios rabos, com medo de encarar o abismo existencial que a consciência racional nos proporcionou em todos estes anos de evolução.
Daniel poderia arrancar as unhas do pé com um alicate enferrujado e comer, mas não conseguiria encarar a luz do sol por dez segundos sem surtar. Confinado em casa desde que se lembra, não conhece mais do que a internet e a televisão são capazes de mostrar. Belas praias com areias brancas e coqueiros enormes, parques com montanhas russas maiores que os prédios da televisão. Apesar de ser um adolescente aparentemente normal, com espinhas cremosas enfeitando o rosto e alguns pelos no queixo, Daniel é o que chamam de heliofóbico.
Heliofóbicos temem a luz do sol como o diabo teme a cruz.

Catharina resistiu em aceitar a condição incomum do filho, mas depois do episódio do aniversário, desistiu de tentar viver normalmente, reforçou a tranca das portas, vedou as janelas e passou a frequentar o terapeuta uma vez por semana, para eventuais desabafos sobre a rotina estressante de viver no escuro, como um vampiro moderno que compra cartões de natal pela internet e nunca os envia para ninguém.

Quase todas as noites Daniel leva o Cão para passear. Dá a volta no quarteirão, senta no banco velho da praça e assiste o cachorro colonizar todas as árvores ao redor. Em outras noites, quando está quente e abafado, vai com a mãe ao cinema e toma um sorvete. De morango, sempre.
Os adolescentes da cidade comentam.

- Quem é ele?
- Nunca o vi na escola.
- Minha mãe disse que ele não sai de casa. Tem medo do sol ou coisa assim.
- Bizarro.

Mas apesar do confinamento, Daniel parece não se interessar por outras pessoas. Por outras coisas além das paredes de casa. Da mãe e do Cão. A solidão se encaixa como um suéter feito sob medida. Quando algum colega de sua mãe o cumprimenta na rua, ele apenas acena com a cabeça, sem se dar ao trabalho de sorrir.

Catharina culpa o ex marido pela fobia do filho. Prefere dizer que o garoto é doente.
"Meu falecido marido tinha a mesma doença. Ele faleceu quando Daniel tinha apenas sete anos. Desde então somos só nós dois. Desde então ele não sai de casa."

Entretanto, quarta-feira é o dia da saída. Isso significa que Daniel ficará sozinho o dia inteiro enquanto a mãe irá ao terapeuta pela manhã, ao mercado pela tarde e agirá como uma pessoa normal por algumas horas.

São 9h30 quando Catharina entra no Minish Café, pede um capuccino e um pedaço generoso de cheesecake de frutas vermelhas. Ela saboreia cada minuto fora das grades de casa com a paixão de alguém que descobre um novo hobbie.
Não é como se ela odiasse a própria vida ou culpasse o filho pelos problemas, mas às vezes gosta de fingir que é outra pessoa e que todos os fardos que carrega pertencem à outra Catharina? Uma Catharina que não existe nas quartas-feiras.

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Daniel espera alguns minutos depois da saída da mãe e liga o som em um volume que ela jamais permitiria, por causa da enxaqueca. Eddie Vedder começa a cantar. Um show particular para ele e para o Cão, que dorme - ou finge dormir - no sofá. A manhã está ensolarada, mas somente pequenos e insistentes resquícios de claridade conseguem ultrapassar as frestas das janelas e da porta. O garoto examina o relógio na parede da sala como atenção. São nove e quinze da manhã. Confere o horário no pequeno relógio de pulso. Nove e quinze, com certeza. As chances dos dois relógios estarem errados eram mínimas.
Ele caminha de um lado para o outro da sala. Os pés fazendo barulho contra o piso de madeira. Cão levantou as orelhas e abriu os olhos, mas não moveu um músculo do sofá. É um cachorro noturno, como diria Catharina.

"Acostumado com os hábitos noturnos da família"
No centro da sala, o menino continua caminhando para lá e para cá.
Se preparar para um grande evento é mais torturante do que participar do evento em si. Imaginar a classe inteira te observando enquanto fala sobre geografia é pior do que apresentar o trabalho.

A mente humana é uma terra sem fronteiras. Em um segundo você está pensando em como gastaria todo prêmio da loteria e no outro está lembrando que os boletos estão atrasados. Por outro lado, o corpo humano não passa de um amontoado de ossos e carnes controlados pela mente. Podemos ter os pés e as mãos amarradas, mas se nossa mente estiver livre, talvez possamos encontrar um meio de escapar, mas se prenderem nossa mente, não precisam nos amarrar, pois não sairemos do lugar. Não daremos um passo adiante.

"Talvez seja loucura, eu sei."
Daniel fala sozinho. Fala com o Cão. Com as paredes. Com Eddie Vedder.

"Eu não tenho medo. Eu nunca disse que tinha."
O garoto caminha até a foto do pai emoldurada na parede.

"Desde que papai morreu nós não saímos de casa durante o dia. Catharina diz que eu tenho a mesma doença que ele, mas eu nunca fui ao médico."
Ele caminha de volta e para ao lado da janela coberta por adesivos pretos e uma grossa cortina escura.

"Tudo que eu ouço, todos os dias, é que não posso isso e não posso aquilo. Ela diz ao terapeuta que eu tenho medo de sair de casa durante o dia, como meu pai. Que eu desenvolvi a mesma fobia que ele. Que eu herdei a sua maluquice, mas eu não me lembro de ter dito isso. Na verdade, eu nunca disse nada além do que ela mesma me mandou dizer, mas por algum motivo, por alguma força invisível, eu não consigo sair daqui e encarar o dia. Não consigo contradizer as palavras dela. Estou preso nessa casa, mas não é o sol que mantém refém. É ela."
Cão levanta a cabeça e resmunga, como se pudesse entender todas as palavras de Daniel e, de certa forma, sente muito por ele.

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Catharina vai até o caixa do Minish Café e cumprimenta a atendente que, apesar de encontrar todas as manhãs de quarta-feira, não recorda o nome.
- Bom dia, querida.
- Bom dia, senhora Matthew. Como vai?
Cindy era simpática, gostava de Catharine. Assim como toda cidade, também sabia sobre a situação delicada que a mulher enfrentava com seu único filho, um garoto tímido e educado, porém totalmente problemático. Além, é claro, de toda história horrível sobre a morte de seu marido. Talvez metade da simpatia fosse apenas solidariedade, mas as gorjetas ajudavam a apreciar as rápidas conversas matutinas.
- Eu vou bem, nada de novo sob o sol. E você, como está? Ansiosa para as férias de verão?
Catharina entrega o dinheiro para Cindy, que habilidosamente começa a separar o troco.
- Mal posso esperar. Vou visitar minha tia na cidade, preciso sair um pouco desse lugar, conhecer pessoas novas. E seu filho, como está? Planejam viajar para algum lugar?

Ao perceber a pergunta idiota que havia feito, a atendente devolve o troco e sorri sem graça.
- Desculpe, não quis ser intrometida.
- Tudo bem, querida - Catharina pega o dinheiro, sorri e deixa dez dólares de gorjeta em cima do balcão -, não vamos viajar agora, mas quem sabe um dia?
A garota acena timidamente, guardando a gorjeta no bolso antes que Catharina mude de ideia.
- Tenha um bom dia, senhora Matthew.
- Igualmente, querida.

Com seus sapatos elegantes de salto alto, Cath caminha lentamente para fora do Minish Café, forçando a cabeça a ficar erguida e os pés a pisarem firme no chão. Sentia como se toda cidade a observa-se curiosamente, esperando outro escândalo acontecer para animar o clima pacato de um lugar onde nada nunca acontecia. Se dependesse dela, a cidade e todos ali apodreceriam no tédio absoluto. Tudo em que pensava era no filho, e mesmo quando fingia ser outra pessoa, ainda pensava nele. Se ela fosse outra pessoa, talvez o garoto também fosse. Se suas escolhas tivessem sido diferentes, talvez ele também pudesse escolher diferente, mas o que está feito, está feito.

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Parado frente à porta, Daniel respira ofegante. Encara a maçaneta dourada. Um toque e pronto, toda loucura acaba.
Mas por que é tão difícil apenas girar a droga da maçaneta e sair para a rua, como qualquer ser humano normal e pagador de impostos?
"O sol não pode fazer nada comigo, não é mesmo, Cão?"
O cachorro abana o rabo ao ouvir o próprio nome.

Daniel fecha os olhos e respira fundo, usando técnicas de controle de ansiedade que aprendeu na televisão. Pensa na mãe. Pensa na morte do pai.
"Venha, Cão, vamos passear. Agora. De dia."

Ele segura a maçaneta e antes que a coragem desapareça, abre a porta com um puxão forte e quase desnecessário.
A claridade invade a sala de estar, mas o sol para rente ao batente da porta. O cachorro se levanta do sofá e caminha saltitante porta afora, sem olhar para trás e sem esperar que o chamem novamente. Daniel respira o ar quente e sente as borboletas se agitarem no estômago. Quebrar as regras é como se apaixonar, ele imagina.

Caminha lentamente para fora, deixando o sol cobrir-lhe o corpo inteiro. Cada pedaço de pele e fio de cabelo.
O calor amarelo é como um abraço forte. Ele não consegue abrir os olhos.

Em poucos segundos, a sensação de ser abraçado pelo dia transforma-se estranhamente em uma sucessão de pequenos choques elétricos. O garoto força os olhos a abrirem, mas não consegue enxergar nada além de uma névoa branca que cobre a paisagem ao seu redor.

Está quente. Muito quente. O cachorro late freneticamente em algum lugar perto dali, mas ele não consegue se concentrar em nada além do calor. Seu corpo não responde ao desejo de voltar correndo para casa, trancar a porta e fingir que nada aconteceu.

Pensa na mãe. Pensa na morte do pai.

Uma doença rara não permitia que ele saísse na luz do dia. Alguns diziam que ele tinha fobia à luz solar. Quando Daniel fez sete anos, no dia de seu aniversário, Catharina esqueceu a porta entre-aberta e o garoto escapou para fora, para o ensolarado quintal, sem que ela percebesse. O pai correu, agarrou o filho, o jogou para dentro de casa novamente e então acendeu como uma caixa de fósforos em contato com o fogo. Rápido como um flash.
Combustão espontânea, os médicos informaram no laudo.

"Exatamente o que constará em meu próprio laudo", pensa Daniel antes de dissolver a mente em cinzas e transformar-se em pó.

Fernanda Oz

Conto traduzido da coletânea internacional It's Behind You!, disponível na Amazon.