Luciana do Rocio: A caçadora de lendas curitibanas

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Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar com a seguinte pergunta: Como começou sua relação com o mundo sobrenatural das lendas?

Luciana do Rocio Mallon: Na verdade, admiro lendas desde criança. Quando eu era pequena não gostava quando minha mãe narrava contos-de-fada. Pois os finais eram muito parecidos, porque as princesas sempre casavam com príncipes. Eu curtia mesmo era quando ela contava lendas como: A Noiva do Belvedere, O Cachorro do Drácula, A Vaca Cherry do Bacacherri, O Tatu Mágico, etc.  

Victor Hugo Cavalcante: Quando criança quais as lendas curitibanas que mais te davam medo e por quê? Quais são as mais conhecidas na tua cidade?

Eu gostava dos causos da Loira-Fantasma, da Noiva do Belvedere e da Maria Bueno porque falavam de mulheres que foram mortas de formas trágicas. Mas que, de certa forma, voltavam como espíritos. As lendas mais conhecidas na minha cidade são: Maria Bueno, Loira-Fantasma, Gato Kiko da Loja Kisses, Gato Bóris da Livraria Trovatore, Águia de Duas Cabeças do Edifício Acácia, Túneis Secretos e Pirata Zulmiro. 

Victor Hugo Cavalcante: Qual sua visão de escritora de lendas sobre a pouca visibilidade e procura sobre o folclore brasileiro, mesmo estando em época de Dia das Bruxas no Brasil?

Bem, na realidade, um dos meus objetivos em escrever lendas na Internet é resgatar um pedaço do folclore brasileiro que se perdeu com o tempo. O interessante é que no Dia das Bruxas e no Dia do Saci o comércio realiza eventos com: contação de lendas e danças populares, festas que ajudam na disseminação destes causos orais que foram perdidos no tempo.

Eu realizo um serviço gratuito chamado: Lendas, Repentes e Danças, no Centro de Curitiba, em lugares como: escolas, bibliotecas, asilos, hospitais e eventos. Nesta apresentação gratuita faço poemas com as palavras que as pessoas pedem na hora, conto lendas e danço músicas do imaginário popular.

Victor Hugo Cavalcante: Como começou sua vontade de escrever o livro Lendas Curitibanas? Quais foram as lendas mais difíceis que você conseguiu pesquisar e por quê elas foram difíceis?

Eu sempre gostei de pesquisar lendas desde criança. Assim eu sempre perguntava para as mulheres mais velhas, que encontrava pela frente: "As senhoras conhecem alguma lenda?" Então como sempre as idosas conheciam, algum causo misterioso, elas foram contando para mim.

Em 1999, fui trabalhar no comércio. Deste jeito, eu sempre perguntava para as freguesas se elas conheciam alguma história de fantasma perto de onde moravam

A maioria conhecia e assim fui anotando.

Em 2001, precisei fazer curso de Informática Básica porque o mercado de trabalho exigiu. Lá a professora descobriu que eu escrevia lendas. Desta maneira ela sugeriu:

"Você precisa ter um blog, gratuito, na Internet."

Então consegui um espaço, de graça, no site Usina de Letras.

A partir daquele momento pessoas me sugeriram para que publicasse um livro. Mas as publicações nas editoras e nas gráficas custavam muito caro. Por isto continuei, também, escrevendo em redes sociais como o Facebook e o Orkut, por exemplo.

Em 2012, o jornalista, Helio Puglielli, leu meus textos nas redes sociais e sugeriu que eu escrevesse um livro, mas expliquei para ele que não tinha dinheiro para as publicações porque as editoras cobram dos escritores.

Assim ele falou que o Instituto Memória não cobrava para os escritores publicarem, desde que a obra tivesse qualidade. e me sugeriu que mandasse meus textos para o editor Anthony Leahy.

Desta maneira, mandei as lendas para este editor. Em novembro de 2013, saiu meu livro Lendas Curitibanas.

Realmente, não existiram lendas difíceis. Pois com o tempo fui anotando e pesquisando uma por uma. Como faço esta pesquisa desde criança, não tive problemas.

Victor Hugo Cavalcante: Qual foi a lenda mais curiosa e a mais prazerosa que você reuniu em seu livro e por quê?

As lendas mais curiosas são os causos que envolvem animais porque lidam com arquétipos místicos. Todo o lugar tem um conto onde um bicho vira uma pessoa e um ser humano se transforma num animal. Estes causos são: Gato Kiko da Loja Kisses, Gato Bóris da Livraria e o Pavão Prateado no Passeio Público.

Dizem que o Kiko é a reencarnação de um costureiro que morava no prédio de uma loja. Já, o Bóris falam que se transforma em homem à noite e o Pavão Prateado é uma ave que vira transformista à noite, também.

A lenda mais prazerosa é o causo da Bailarina da Casa Hoffman, que é a história de um cadeirante que se apaixona pelo fantasma de uma dançarina e consegue dançar, saindo da cadeira de rodas, por alguns instantes.

Victor Hugo Cavalcante: Pretende algum outro dia escrever sobre outras lendas contadas no Brasil?

Sim, se a editora quiser publicar um livro com novas lendas. 

Victor Hugo Cavalcante: Quais são os escritores que te inspiram e o que te inspira a escrever?

Gosto bastante de Cecília Meireles, Alvares de Azevedo, Machado de Assis, Gonçalves Dias, Manoel de Barros, Stephen King, Agatha Christie, Paulo Coelho, Jorge Amado e Regina Bostulim.

As coisas que me inspiram a escrever são: as pessoas, o cotidiano, as notícias, as fantasias, a natureza e os sentimentos.