Nascendo de novo: A esperança de uma compatibilidade solidária

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Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar perguntando: Como foi que você e sua família receberam a notícia que você deveria ser transplantado? Qual foi o motivo de precisar fazer esta ação cirúrgica?

Rômulo Fernando: Obrigado pela oportunidade, antes de qualquer coisa. Eu era muito pequeno, tinha um ano e pouco de vida quando fui diagnosticado com LLA. Na época, residia em Paranaíba, interior de Mato Grosso do Sul. Fui levado à São José do Rio Preto, interior de São Paulo para uma consulta que, de lá, fui às pressas para Capital, pelo fato de estar já em fase avançada, revezando entre Instituto da Criança, Instituto do Coração e Hospital das Clínicas. Foram momentos muito difíceis pra todos da família. Iniciado com complicações renais, acarretando maiores complicações posteriores, como a parada cardiorrespiratória. Por muito tempo, tomando corticoide, sofrendo variações na estrutura física, mas nada afetou psicologicamente, apenas a condição de convivência das limitações e consequências.

Você literalmente recebeu uma nova chance, principalmente por ter feito transplante de medula óssea, que tem uma compatibilidade raríssima de 1 em um milhão. Porém, infelizmente muitos não têm esta chance, então, qual a sua visão, enquanto transplantado, da importância da conscientização da doação de órgãos? O que você acha que poderia ser feito tanto na esfera do poder pública quanto privada para esta conscientização?

Não é uma mera campanha. Não adianta compartilharmos imagens e/ou palavras se não agirmos. Doar sangue/órgãos é simplesmente salvar vidas. As campanhas tinham que ser mais objetivas e ter uma preocupação muito maior, por estar lidando com vidas.

O que mudou na sua vida depois do transplante?

Muita coisa. Como dito, primeiramente, a convivência com as limitações devido ao uso prolongado do corticoide. Hoje (2017), com quase 25 anos de transplante, me enquadro nos quesitos (direitos e deveres) como uma Pessoa Com Deficiência (PCD) devido à doença cancerígena a, além da diabetes, pressão alta, desestrutura óssea (escoliose na coluna, bursite no ombro, artrite nos pulsos, artrose nos joelhos, pernas tortas, pé plano, atrofia dos dedos da mão) e o GVHD crônico (doença do enxerto contra hospedeiro), que altera a absorção de água no corpo (pele seca). Mas o importante é estar vivo e viver com intensidade.

Como foi sua recuperação após o transplante dentro e fora do hospital? Quais foram as principais recomendações médicas durante a recuperação?

O pós-transplante simplesmente é repouso e seguir uma série de recomendações. Realmente não tive uma infância equiparada comumente às demais crianças. Ficava mais recluso dentro de casa ou de familiares. Preocupações com a imunidade e recuperação.

Você chegou a ficar com algum medo do transplante não dar certo/rejeitar o órgão? Por quê?

Eu era muito pequeno, não tinha esse discernimento. Mas por ter sido, na época, a mais forte dos pacientes, a aflição dos meus familiares era visível. Principalmente quando os médicos diziam "mãe, se você tem fé, reze". E foi que ela fez, rezou muito para que esse milagre acontecesse.

Você toma algum remédio imunossupressor para baixar a sua imunidade afim de não ter rejeição? Quais remédios você toma e para que ele serve?

Hoje não mais. No pós-transplante, por 10 anos consecutivos, ia a São Paulo para uma bateria de exames pra averiguação de retorno e resposta da medula implantada. Por esse período foi quando eu fui constatando as consequências decorrentes ao transplante e medicamentos.

O que você diria de incentivo para as pessoas que pensam em se tornar doadora de órgãos? E para as pessoas que estão em filas de transplante?

Seja um divisor de águas e ajude a salvar uma vida. Você verá a grande diferença que estará fazendo tanto para a sua vida quanto para com os outros, principalmente. Transforme vidas! Muitas pessoas podem não ter a mesma sorte que eu de estar viva para contar toda essa história por falta de oportunidade. E você? Que está esperando? Solidariedade é a alavanca da mudança na humanidade!

E pra você que está na fila de transplante, não desista! Resista! Não entregue os pontos! Vamos estar juntos nessa pra trocar experiências e rir da vida! Nada é impossível pra quem tem fé e determinação! Talvez você não tenha a mesma sorte de encontrar um irmão ou familiar, mas saiba que existem pessoas boas SIM que fazem a diferença e vai te ajudar nessa. Mas seja forte também porque enfrentar essa barra. Contem sempre comigo. Tamo Junto!