Nos caminhos de Mata Una: 1 século de história que merece ser lida e contada

Créditos: Site Professora de Papel

Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente é uma honra poder entrevistar pessoa tão respeitável como a senhora e gostaria de começar com a seguinte pergunta: Recentemente a cidade completou 108 anos de fundação (8 de setembro), afinal como surgiu a ideia de homenagear a cidade e escrever uma trilogia contando histórias sobre a cidade desde sua fundação?

Cleunice Orlandi de Lima: Honrada pelo convite para participar de jornal já tão famoso, com pessoa tão maravilhosa como você. Quem agradece sou eu.

Respondendo à sua pergunta: Em 2008, o então prefeito Sr. Dr. José Ricci Jr. me convidou para participar do seu governo no Departamento de Cultura. Acredito que nele já havia a ideia de me pedir que escrevesse a história da cidade, pois logo nos primeiros dias na função, me foi dada a aludida incumbência. Fiquei radiante de contentamento, pois uma das minhas atividades preferidas é escrever.

Victor Hugo Cavalcante: Quais foram as maiores dificuldades que a senhora enfrentou ao fazer as pesquisas para compor os livros?

Tive a felicidade de prestar serviço naquele departamento o qual tem, entre suas incumbências, cuidar do museu municipal. Desta forma, todos os documentos, jornais antigos, papéis e fotos me foram facilitados. É verdade que tive de percorrer a cidade em busca de outros elementos e testemunhos, mas a maior parte estava ali, à minha disposição. 

Victor Hugo Cavalcante: Porque afinal a senhora decidiu separar a história em 3 volumes ( Sendo o volume 1 envolvendo a parte mais política, o segundo volume mais sobre trabalhos públicos e volume III mais relacionado a história e causos da cidade)?

De início, não me ocorreu dividir o material em três partes, mas com o avançar do trabalho, com tantos conteúdos que foram incorporados, percebi a dificuldade de encadernar um volume com mais de mil páginas as quais, sobrepostas, alcançam exatos sete centímetros, contando com capa. É praticamente inviável que volume nestas proporções possa ser elemento de fácil manuseio e pesquisa.

Quanto à divisão dos conteúdos nos três volumes também não foi de propósito. Eu me dediquei, a princípio, à história da fundação e tais assuntos são encadeados naturalmente à vida política e daí saiu o primeiro volume, que abrange de 1910 até 2012, com o findar do primeiro quatriênio governo Ricci Jr.

Os demais temas eram todos relevantes; tão relevantes, que houve verdadeiro engarrafamento de assuntos implorando para entrar na fila. Fiz uma espécie de esqueleto abrangendo todos os conteúdos; coloquei cada assunto num arquivo; a seguir fui enchendo este esqueleto de carne, conforme mais dados me chegavam. Por fim, a divisão se fez espontaneamente pelos dois volumes restantes. O volume II contém, além de outros, os fatos que abalaram a cidade: chacina do vereador João Silvestre Santana e mais sete pessoas na década de 20, assassinato do Padre Ernesto, acidente e morte do Dr. Anísio Moreira e assassinato do Juiz Jaime Garcia Pereira. Estes assuntos estão quase no esquecimento, mas são assuntos relevantes da nossa História.

Victor Hugo Cavalcante: Como professora aposentada, qual a importância que a senhora dá aos livros que tratem da história das cidades do Brasil?

Sempre me dediquei ao ensino da História Geral, Nacional e Regional com bastante seriedade ensinando, inclusive, os hinos pátrios, que levam o aluno a um sentimento de afeto à nação. No entanto, foi somente enquanto escrevi as histórias de Mirassol, que me apercebi o quanto é necessário dar a conhecer os fatos antecedentes a esta geração, justamente para que lhe seja comunicado algum sentimento de amor à terra onde se vive.

Victor Hugo Cavalcante: Além destes, a senhora é autora de outros livros: Depois do suicídio e Depois do aborto (ambos pela DPL Editor e Distribuidora de Livros Ltda.) e outros relacionados à alfabetização, mas a trilogia Nos Caminhos da Mata Uma, Mirassol 100 anos de Histórias é o seu primeiro livro histórico. Você pretende criar outros livros como o citado? Por quê?

Parece que escrever histórias é meu carma, pois todo o meu material de alfabetização é feito em cima de 75 historinhas criadas especialmente para ensinar todas as noções da leitura e da escrita. Quanto ao livro do centenário, ao terminar de escrever, respirei aliviada; desliguei o computador, mandei o original para o editor, acreditando haver cumprido minha missão. No entanto, justo agora, muitas pessoas vêm me contar novas histórias da cidade, vêm me mostrar outras fotos e sinto que a História não acabou; sinto que há muito mais a ser escrito. Assim, ignoro se outro livro não virá depois deste.

Victor Hugo Cavalcante: Qual é a principal dificuldade que você enfrenta ao publicar seus livros de maneira independente? Já pensou alguma vez publicar seus escritos através de editoras?

Já pensei em publicar meus livros didáticos através de editoras, mas estas somente publicam autores que sigam a linha construtivista, surgida no Brasil nos anos 80. Esta onda foi abraçada pelo governo para aplicação no Brasil inteiro e, assim, meus livros ficaram de fora por ser filosofia de ensino diametralmente oposta à do construtivismo. Tenho esperanças que esta moda, que já provou ser insuficiente para bem ensinar, caia em desuso e retornem às escolas, os métodos bem brasileiros que souberam alfabetizar todas as gerações anteriores.

Quanto aos demais livros, as editoras se dedicam aos autores consagrados e não se arriscam com nomes desconhecidos. Tenho um livro publicado pela Editora do Brasil O guarda-noturno e os dois acima aludidos, pela Editora DPL. Mas é difícil demais conquistar uma editora por isso, vou publicando no varejo, do meu próprio bolso. Lucro nenhum. Apenas o prazer da fazer o que gosto.

Victor Hugo Cavalcante: Como foi feita a composição de pesquisas e da escrita para escrever os livros sobre a história de Mirassol?

Conforme já expliquei: prestando serviço no Departamento de Cultura, me foi facilitado o trabalho de pesquisa. Busquei também informações em bibliotecas públicas e particulares, fiz mais de uma centena de entrevistas, fotografei pessoas, cenas e lugares, busquei nos jornais da cidade os fatos esquecidos, pesquisei revistas, diários pessoais, internet, livros de autores locais, regionais e nacionais.

Interessantes a meu ver são os capítulos sobre comércio e serviços, feitos inteiramente sobre propagandas e anúncios antigos.

Algo que diferencia este dos demais livros históricos é a maneira de explanar os episódios, contando à minha maneira de modo espontâneo, sem os rebusques que tornam a leitura algo desagradável.

Foram anos de trabalho, porém, valeu a pena.