Além das explosões: Uma história de superação e traumas

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Victor Hugo Cavalcante: O transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), como o próprio nome já sugere, é um distúrbio muito comum em quem sofre algo traumático. Você têm algum resquício desta doença ainda? Como você enquanto sobrevivente conseguiu superar os momentos iniciais do transtorno do estresse pós traumático?

Adriana Maluendas: Olá Victor, bem primeiramente irei responder tudo como uma pessoa sem estudos na área médica ou profissional de saúde mental, mas como uma pessoa que foi diagnosticada com transtornos e distúrbios pós-traumáticos, tento me manter informada e atualizada sobre o assunto. Pelo que aprendi sobre minha situação e com base no meu conhecimento pessoal, transtorno mental tem suas causas no modo como a pessoa se associa e interage com o seu ambiente. Isso não está associado com a genética, como doenças ou lesões.

O transtorno, no meu caso, está relacionado ao impacto da situação que vivenciei, presenciando a morte em grande escala, sofrimentos sem dimensões (difíceis de descrever em palavras), além dos choques visuais e atentado extremo contra a minha própria vida. A situação que presenciei não só marcou a minha vida profundamente, como marcou uma cidade, um país e o mundo todo. Essas circunstâncias podem nos fazer entrar em uma dinâmica prejudicial a nossa saúde mental, mas não estão relacionadas a alguma parte do cérebro que está atuando de forma anormal, mas sim com a nossa percepção das coisas. Por isso é muito importante que as pessoas comentem mais sobre distúrbios e traumas,e sempre haver profissionais da área trazendo informações e orientações para evitar os estigmas envolvidos com a saúde mental. Minha superação tem a ver em como conseguir abraçar a vida novamente com o auxílio de um acompanhamento profissional. Cada pessoa tem diferentes maneiras de enfrentar seus obstáculos, mas minha maior sugestão é sempre buscar um profissional.

 Victor Hugo Cavalcante: Como foi retornar aos EUA para morar após anos depois do atentado terrorista? E como ocorreu esta decisão?

Eu tive razões muito pessoais para retornar aos EUA, tanto profissionais quanto pessoais, e minha maior prioridade tinha a ver também com a minha saúde. No começo não foi fácil, pois além das dificuldades emocionais ainda enfrentava graves problemas físicos. O país ainda estava em choque, a segurança mais restrita, enfim... o país havia acabado de sofrer o maior ataque terrorista da história e, consequentemente, se instaurava uma Era Terrorista.

Victor Hugo Cavalcante: Quais as dicas que você enquanto sobrevivente de um ataque terrorista dá a quem sofreu algum evento traumático?

Victor, minha maior dica é buscar ajuda profissional. Não é vergonha, não é frescura, há feridas que não são visíveis e muitas vezes são mais fortes e profundas do que qualquer corte na pele. Saúde é um todo e cabe a nossa geração quebrar estigmas e tabus referentes à saúde mental e emocional.

Victor Hugo Cavalcante: Como foi que surgiu a decisão de escrever o livro Além das explosões? E como foi escrever ele e relembrar alguns dos momentos mais aterrorizantes de sua vida?

A ideia do livro surgiu devido a diferentes fatores. Por anos me fechei a todos e não queria tocar no assunto, nem mesmo com minha família. Somente com meus médicos. Com o passar dos anos e, ao saber que oficialmente fui uma das poucas pessoas reportadas oficialmente como sobrevivente, algumas pessoas em algumas esferas me comentavam o quanto seria importante se eu escrevesse e registrasse em um livro esta experiência. Isso me fez refletir sobre o assunto. E, consequentemente, é claro que seria um peso enorme para eu ter que compartilhar a experiência que guardava a sete chaves, mas hesitei e durante anos não pensei no assunto. Anos se passaram após o atentado, sem contar o susto que ainda sentia com a minha saúde. No entanto, algo me tocou quando veio o convite para a inauguração oficial do Memorial e Museu do 11 de Setembro, em Maio de 2014, localizado exatamente onde um dia as Torres Gêmeas e o Hotel onde estava hospedada se encontravam, e o qual tive a honra de ser uma convidada especial juntamente com apenas 700 pessoas. O momento da inauguração foi muito especial e tocante, especialmente aos sobreviventes e familiares de pessoas que faleceram. Muitas e tantas histórias compartilhadas por outros sobreviventes assim como por autoridades locais me mostraram o quanto eu fazia parte de tudo aquilo. Percebi então que era o momento para começar o livro e me abrir novamente ao mundo.

Era hora de dividir a minha experiência e finalmente me abrir sobre o meu processo de abraçar a vida novamente. Um resgate profundo e pessoal. Escrever, sim, trouxe à tona vários sentimentos e, consequentemente, tanto sofrimento como alívio. Diria que as primeiras semanas e meses foram os mais difíceis. Somente no final do processo senti um alívio de ter tido saúde suficiente e o tempo necessário para concluir este processo. E mais forte ainda foi o amor à vida.

Victor Hugo Cavalcante: Como era a vida de Adriana antes e depois de presenciar um dos maiores (Se não o maior) ataque terroristas do mundo?

Victor, minha vida mudou muito. Minha carreira profissional, minha saúde física até hoje com algumas limitações, minhas prioridades também mudaram. Estou mas forte em muitos sentidos ainda sensível a outros.  E verdade, nunca serei a mesma pessoa que era antes. Mas gosto de pensar em mim como uma nova versão melhorada, erguida ainda nos mesmos alicerces sólidos (princípios e valores) mais agora mais seguros na minha Fé. Hoje valorizo muito mais o trabalho humanitário no Mundo. E sem dúvida, o amor a vida e a gratidão são também parte dos alicerces acima mencionado. E  sem duvida, estou mais alerta sobre perigos que vivemos na Era do Terror.

Victor Hugo Cavalcante: As lembranças do atentado ainda são vívidas ou se dissiparam conforme o tempo vai passando?

A superação jamais me fará esquecer o que passei. Mas hoje lido de maneira diferente e principalmente com uma esperança no coração. Esperança que no futuro, vamos e possamos encontrar uma maneira para que ninguém... ninguém mesmo venha a sentir a necessidade de ser tão destrutivo, e que ideologias destrutivas sejam apenas palavras do passado. E mantendo a força e a garra para resistir aos desafios que sem sombra de dúvidas iremos enfrentar na luta em fazer com que essa esperança se torne uma realidade.

Victor Hugo Cavalcante: Para você o que foi pior ao estar se recuperando do ataque ao World Trade Center, superar os sintomas físicos e mentais, como o TEPT (Transtorno do Estresse Pós Traumático), ou presenciar tudo novamente com a cobertura da mídia mundial?

Victor, a saúde eu vejo como um todo. Ter uma mente saudável é tão importante quanto ter um corpo saudável e um alimenta o outro. Naturalmente, no início da fase mais grave do TEPT, reviver imagens, sons, sensações, cheiros me traziam lembranças e flashbacks do que eu havia presenciado. Porém não deixam de ser fases e cada fase tem a sua importância para a recuperação da pessoa.

Victor Hugo Cavalcante: Como você espera poder ajudar às pessoas que leram o livro Além das explosões que viveram algum evento traumático?.

Tendo sobrevivido à queda do World Trade Center me proporcionou naturalmente uma perspectiva única sobre a vida. Hoje reconheço e aprecio a chance de ainda estar aqui. Desejo transformar toda a experiência que sofri em uma mensagem de esperança e força. Quero poder encorajar aqueles que, como eu, enfrentaram dificuldades extremas, depressão, trauma ou perda em suas vidas, no intuito de motivar e ajudar a perseverar, a nunca desistir de suas metas e, em especial, jamais desistir da vida. Demonstrar que como eu: ?se eu pude fazer isso, você também poderá?. Não estamos sozinhos. O que passei demostrará que é possível sim, com muita força interior e com fé, superar seus próprios obstáculos. E poder transmitir que cada um tem o seu próprio ritmo para cada fase do problema, qualquer que seja o que estão enfrentando. O seu próprio tempo de entender, de encarar e de enfrentar o que a vida nos coloca adiante.