O canto do Pássaro Vadio

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Victor Hugo Cavalcante: A banda se define com um gênero misto de musicas, mais quais são as maiores influências musicais da banda e de seus integrantes? Isto ajudou na produção do disco CAOSMOS? O que vocês e o público achou do resultado final do disco?

Pássaro Vadio: Caosmos nasce de uma ideia de multiplicidade bastante comum a nossa geração, imersa numa teia de informações que se cruza de forma desordenada - junto da liquidez em relação a signos, comportamentos, estéticas típicas da pós-modernidade. Diante desse cenário de dissolução constante de produções de sentido, buscamos abrir uma trilha em busca do que é perene - a honestidade, visceralidade e entrega de se deixar fazer uma canção, mas uma canção que não nasce e morre dentro de si, se conecta com experiências e sensações que tiveram impacto na singularidade da nossa vida. E são canções com brechas que as conectam com o caos, a multiplicidade de sentidos e desdobramentos de um espectro sonoro se deslocando e encontrando novos ouvidos. As transformações precisam acontecer, mas elas se dão pelo acúmulo, pela resignificação e não pela perda de algo. Caosmos é um disco que causa certo incômodo na primeira audição - começa com ruídos estridentes e a marcação da caixa de bateria com phaser - frequências médias, tensas (que por sinal vem e vão ao longo do disco) - fugindo do range de frequências ?sorridente? da música pop, com graves e agudos bem definidos. Pagamos um preço por isso, mas faz parte do Caosmos que queríamos evidenciar - alguém tentando gritar e o grito muitas vezes é abafado pelo ruído ao redor - o senso comum, tabus e modelos de comportamento pairando acima de nós, a metrópole enquanto organismo muitas vezes massificante, opressivo, polarizado.

Sobre as influências, elas vão de Captain Beef, Tame Impala, Fleet Foxes, Fela Kuti, Jose Gonzalez a Elizete Cardoso, Caetano Veloso, Tom Jobim.

Como é poder ser elogiado por grandes nome brasileiros tais como, Marcelo Jeneci, Roger Lerina entre outros?

O fato do trabalho reverberar já nos deixa contente. Quando percebemos que algumas pessoas pelas quais temos carinho e admiração não passaram indiferentes à audição do disco, é uma injeção muito grande de ânimo pra enfrentar um processo tão lento e subjetivo que é construir e levar música de forma independente até as pessoas.

O nome da banda é Pássaro Vadio, da onde surgiu esta ideia de nome?

O nome é o exemplo de uma ideia que tem aparecido diante de mim a algum tempo: do músico enquanto instrumento que vai captar e reproduzir algo que já estava soando no ar. O termo "Pássaro vadio" não foi construído através de conceitos ou do âmbito da razão - eu estava com o violão no colo tocando uma harmonia bonita com variações de tons maiores e menores, no sofá de casa, entre 2009 e 2010. Intuitivamente o primeiro verso do vocal foi Pássaro Vadio. A partir daí compus uma música com esse nome, repleta de imagens de um Pássaro enclausurado, claustrofóbico em uma casa, buscando um espaço livre pra alçar voo.

Quando percebi, ao decidir lançar o primeiro disco, que tinha um repertório itinerante nas mãos - músicas que iam do baião a música pop contemporânea australiana - achei que a ideia do pássaro vagando fosse uma boa síntese de tudo isso. Quando a banda realmente tomou forma, no processo de gravação do disco, com o Jojô, o Sérgio Reze e o Davi Neves, ainda não tínhamos um nome e optamos por manter o Pássaro Vadio.

A banda lançou seu álbum de estreia, CAOSMOS, em junho de 2017. O disco foi produzido por Alê Siqueira, produtor de álbuns para Os Tribalistas, Marisa Monte, Elza Soares, Zé Miguel Wisnik, Arnaldo Antunes, Tom Zé, entre outros. Afinal, como foi lançar em grande estilo o disco de estreia com este renomado produtor? Como surgiu o convite?

Trabalhar com o Alê foi um grande privilégio. Ele viveu durante alguns anos no recôncavo baiano e carrega a intuitividade e magia dos ritmos e claves africanas que originaram a música popular no Brasil. Algumas delas vieram a tona no processo de gravação de Caosmos - Alê fazia do próprio peito um tambor enquanto gravávamos na técnica do estúdio da Gargolândia. Além da musicalidade, ele é capaz de captar sons incríveis dos instrumentos, tem leituras precisas dos espaços nos quais trabalha e das frequências sonoras que se propagam por eles. Além da intuição, técnica e entrega, Alê Siqueira assina álbuns de Zé Miguel Wisnik, Tom Zé e Elza Soares que, em nossa opinião, trazem a tona grande parte da força e potência desses artistas. Inclusive foi o Zé Miguel que me apresentou para o Alê - comentando que "o melhor dos cenários para mim seria gravar um disco com ele". Levei isso muito a serio, e pra minha surpresa o Alê topou na hora produzir Caosmos