Suicídio: Um tabu que precisa ser quebrado

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Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos conceder esta entrevista, e gostaria de começar perguntando: Setembro é considerado o mês de combate e prevenção ao suicídio, existe alguma diretriz que os psiquiatras seguem para trabalhar neste mês de prevenção ou o trabalho continua o mesmo?

Drª Licia Milena de Oliveira: Setembro é apenas um mês para conscientizar a população e os médicos sobre o risco e as mortes por suicídio. A atuação médica deve sempre considerar o risco suicida de um paciente. Um bom médico pergunta diretamente sobre risco de suicídio e nunca ignora qualquer intenção por parte do paciente.

Durante o mês de setembro é realizada a campanha Setembro Amarelo, e uma das ações da campanha é justamente falar sobre o pensamento suicida, afinal, falar com qualquer pessoa ou ente querido é realmente válido, e pode evitar suicídio?

Sem dúvida, a maioria das pessoas que cometem suicídio falam sobre seu sofrimento antes de consumar o ato. O fato é que os entes queridos muitas vezes respondem com: "Imagina, olha que dia lindo!"; "Não pense assim, não te faz bem", ou até: "Nem me fale uma coisa dessas". São frases que cortam o assunto e inibem a conversa, minimizando o sofrimento do outro. Faz muita diferença quando você ouve o próximo, valoriza suas queixas e se coloca à disposição para ajudar.

De assunto mantido entre quatro paredes a tema de série na internet, o suicídio de jovens cresce de modo lento, mas constante no Brasil: dados ainda inéditos mostram que, em 12 anos, a taxa de suicídios na população de 15 a 29 anos subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 em 2014 - um aumento de quase 10%, afinal, porque estes dados vêm aumentando ainda mais, principalmente entre jovens?

Sim, o suicídio é a segunda principal causa de morte por causas externas em jovens, perdendo apenas para acidentes de trânsito. O motivo nem sempre é aparente, mas o jovem, por ser mais impulsivo, acaba cometendo mais tentativas, e tentativas podem ser bem-sucedidas. Quem pensa em suicídio está passando por um sofrimento muito grande e não vê como sair disso (essa inabilidade faz parte da imaturidade do jovem). Mas não significa exatamente que a pessoa queira morrer, o que ela mais quer é se livrar da dor. Tanto que muitos tomam remédios pensando em dormir muito, para aliviar o sofrimento, e acabam morrendo. Se a pessoa puder falar e ser ouvida, passa a se entender melhor.

É mais comum qual fase etária procurar ajuda psiquiatra, e qual sexo?

Sem dúvida as mulheres procuram mais ajuda, geralmente em uma idade em que já são independentes, após os 20 ou 30 anos de idade. As mulheres admitem mais sofrimentos. São também as mulheres que comentem maior número de tentativas de suicídio. Os homens, em geral, encaram sofrimento como fraqueza. Embora tentem menos o suicídio, são mais bem-sucedidos nas tentativas. Geralmente as mulheres tomam medicação ou se cortam, os homens são mais agressivos, usando arma de fogo e enforcamento.

Falar sobre suicídio ainda é tabu, então, como reconhecer os principais elementos associados ao suicídio num possível suicida, e como "enfrenta-lo" sobre tais ideias?

Um possível suicida geralmente deixa rastros bem marcados. Começa a abandonar atividades e religião, não encontra mais sentido para as coisas que faz, se isola, sente-se triste e fala que não quer mais viver. A melhor maneira de abordá-lo é diretamente: "Você está pensando mesmo em morrer?", "Me fale o que você sente", "Me deixa te ajudar? Vamos procurar uma saída juntos?". Sempre que identificar algum desses fatores deve ser procurado avaliação psiquiátrica, uma vez que ideação suicida está muito correlacionada com patologias mentais, como depressão, ansiedade, psicose ou abuso de álcool e drogas.

Toda pessoa com tendências suicidas são internadas rapidamente? Como reconhecer casos em que a vida da pessoa com tais tendências deva ser internada por correrem riscos de vida?

Não, a maioria das pessoas apresentam apenas pensamento suicida, que é pensar em não viver mais, dormir para sempre ou acabar com sua vida. Aí está a importância de perguntar diretamente. Assim, saberemos se a pessoa apenas pensa nisso, mas não tem intenção, coragem ou planejamento para executar. Para essas pessoas podemos fazer consultas mais próximas e chamar a família para acompanhar a pessoa em casa, administrar eventuais medicações e levar às consultas médicas. Se a pessoa já tentou suicídio ou tem algum planejamento concreto de como se matar ou até data marcada, a internação se faz necessária para a proteção da sua vida.

Quais os motivos mais comuns que você recebe das pessoas que pensam em suicídio?

Geralmente a pessoa apresenta tanto sofrimento que só vê essa saída. O sofrimento pode ser por conta de problemas no relacionamento, trabalho ou por uma doença mental, como a depressão. Cada um tem seu motivo, muito particular, que deve sempre ser valorizado e respeitado, afinal é o sentimento da pessoa. Devemos sempre ouvir e valorizar as queixas, perguntar aberta e detalhadamente sobre suicídio e procurar ajuda de um psiquiatra.