LUGAR DA CHUVA estreia em 20 de julho no Teatro Pequeno Ato

Créditos: Luciana Ramin, Nube Abe e Andrés Morales

Os coletivos Agrupamento Cynétiko, de São Paulo, e Frêmito Teatro, de Macapá-Amapá, se reúnem para um intercâmbio criativo no espetáculo Lugar da Chuva, realizando temporada no Teatro Pequeno Ato entre os dias 20 de Julho e 11 de Agosto. A peça envolve artistas das áreas de audiovisual, literatura, atuação e artes plásticas, além da encenação, assinada por Otávio Oscar, diretor amapaense radicado em São Paulo que concebeu o projeto e fez a ponte entre os dois grupos.

Lugar da Chuva é o significado da palavra ama'pá, que diz-se ser originária da família linguística tupi-guarani. A peça é fruto das experiências vividas durante um laboratório criativo realizado em Macapá, nos meses de novembro e dezembro de 2017, quando o grupo paulistano viajou até a cidade para uma residência artística em conjunto com o grupo amapaense.

Durante essa viagem, os coletivos realizaram "mergulhos poéticos" em locais significativos da região, compartilhando a criação de maneira colaborativa e processual. Dentre os espaços onde essas vivências aconteceram estão: a Fortaleza de São José, marco colonial da cidade, a Ilha de Santana, com sua floresta de samaúmas, e o bairro do Araxá, com suas palafitas urbanas, ambientes que se tornaram alguns dos cenários por onde a dramaturgia da peça navega.

Esse atravessamento mútuo entre os artistas e os locais visitados nutriram a construção das cenas, entremeando-se reflexões sobre um Amapá atual, urbano e globalizado, em suas complexas relações com a Natureza, ancestralidades e tradições.

Durante o jogo teatral, num corredor-passarela que é ao mesmo tempo rio e rua, o público acompanha a trajetória onírica de dois viajantes: um amapaense, que retorna à Macapá depois de um longo período morando fora, e um maranhense, recém-chegado à cidade. Os viajantes-moradores narram as suas experiências e compartilham as suas reflexões, misturando realidade, ficção e sonho.

A partir de uma investigação sobre as dinâmicas do "ator-narrador", que se relacionam com as tradições da oralidade amazônica, os atores Wellington Dias e Raphael Brito presentificam o aqui-agora do Teatro, enquanto um lugar de encontro e compartilhamento, buscando o olho-no-olho com os espectadores.

O texto, tecido pelas mãos da dramaturga Ave Terrena, nasce inspirado pelos escritos antropológicos de Eduardo Viveiros de Castro, sobre o perspectivismo ameríndio, e os escritos xamânicos do livro A Queda do Céu, do líder yanomami Davi Kopenawa. O roteiro é definido pela autora como "cartográfico", navegando em um percurso literário-fluvial que passa por diferentes ilhas dramatúrgicas, da foz do Rio Amazonas às ruas e pontes da cidade de Macapá.

O trabalho também conta com projeções de vídeo, que são assinadas por Luciana Ramin. As imagens foram captadas durante a residência em Macapá e sua edição é inspirada na poética da videoarte, buscando reinventar as sensações e imaginações que os diferentes ambientes e paisagens provocam. Também apostando nas dinâmicas sensoriais para a cena, a diretora de arte Daniele Desierrê investiga materiais, texturas, cores, cheiros, sabores, roupas, artesanatos e saberes manuais que permeiam o ecossistema, as tradições e a urbanidade amazônicas.

Longe de ser um retrato documental sobre o Amapá, o projeto mergulha nas dinâmicas do afeto, da reflexão crítica e da reinvenção poética para traçar paralelos entre o local e o global, entendendo que os processos sociopolíticos que hoje movimentam a história da Amazônia estão diretamente conectados às crises civilizatória e ecológica que assombram o mundo contemporâneo.