Cícero: a ponte entre Antiguidade e Modernidade

Créditos: Editora Estação Liberdade

Cícero (106-43 a.C.), advogado, teórico da palavra, filósofo e homem público, é conhecido por seus discursos (contra Verres, Catilina ou Clódio), por sua eloquência, que durante muito tempo serviu de modelo, por suas falas políticas (as Filípicas) e por sua participação nos últimos sobressaltos da República Romana.

O pensamento de Cícero renovou a filosofia na Antiguidade e ajudou a criar o vocabulário filosófico em latim, dando a base para o pensamento e a literatura na Europa. Sua obra - sempre frequentada por Santo Agostinho, Erasmo, Montaigne, Gassendi e Voltaire, entre outros - também serviu de inspiração e apoio para o Renascimento, como fonte documental: lemos Cícero para encontrar toda a filosofia que o precedeu.

No livro, Clara Auvray-Assayas procura tornar (re)conhecível o projeto filosófico que dá coerência à obra do autor latino, do Orator a Sobre a adivinhação, passando por Da República, Academica, Dos termos extremos do bem e do mal, Discussões tusculanas e Da natureza dos deuses, e abrir novas perspectivas àqueles que refletem sobre o discurso público, a política e as normas éticas impostas pelo pertencimento a uma comunidade de direito.

Para além de seu papel como historiador da Antiguidade, Cícero buscou trazer a filosofia para o centro do espaço político. Para tanto, estabeleceu as condições para restituir legitimidade ao discurso e à ação políticos: uma filosofia para o cidadão, para o homem concreto, imerso na vida pública, que tem de ordenar suas ideias e comunicá-las através de palavras capazes de convencer.

Sobre a autora

Clara Auvray-Assayas é doutora em estudos latinos (Paris IV, 1987); pesquisadora na Universidade de Rouen, Instituto Universitário da França (em 1998). É coordenadora das coletâneas Cicéron et Philodème: la polémique en philosophie (em colaboração com Daniel Delattre, Éditions Rue d'Ulm, 2001) e Images romaines (Presses de l'Ecole Normale Supérieure, 1998). Publicou em 2002 uma tradução comentada de Da natureza dos deuses, de Cícero (Les Belles Lettres).

Sobre Cícero

"A influência de Cícero sobre a história da literatura e das ideias europeias supera em muito a de qualquer outro escritor de prosa em qualquer língua."

Michael Grant

"Cícero nos ensinou a pensar."

Voltaire

"Como todas as eras do mundo não produziram um estadista e filósofo maior juntos no mesmo personagem, sua autoridade deveria ter grande peso."

John Adams

"O Renascimento foi acima de tudo um resgate de Cícero, e só depois dele e através dele do resto da Antiguidade Clássica."

Tadeusz Zielinski

TRECHOS

"A fecundidade dessas questões explica facilmente a importância da posteridade de Cícero, da Antiguidade cristã até o Iluminismo: mas ela vai além? Nunca reivindicada, quando não conscientemente oculta, a influência ciceroniana não é perceptível como tal, tanto ela faz parte integrante da cultura: um dos objetivos deste livro é oferecer os meios de 'encontrar' a posteridade latente de Cícero nas abordagens contemporâneas da filosofia. Filosofia do sujeito, filosofia do cidadão, porque ela é, principalmente, uma filosofia do probabile, em que o sujeito se envolve num ato de julgamento cujos limites são antes apreendidos, a filosofia de Cícero convida o leitor de hoje a refazer o percurso que leva de uma epistemologia 'provisória' a uma construção política e ética na qual o homem pode encontrar as razões da ação." [p. 25]

"O projeto filosófico de Cícero é um projeto político que se apresenta sobre dois planos: a filosofia dever ser uma prática instalada no espaço político e o homem que deve exercer a mais alta magistratura é o orador-filósofo. Esse projeto não é óbvio, já que ele pretende reunir três tipos de atividades que, na história da filosofia, assim como na história romana, não são concebíveis no mesmo nível: a arte oratória, a ciência política e a filosofia. No entanto, Cícero dispõe de uma ferramenta que lhe permite reconfigurar radicalmente as relações entre esses três campos da atividade humana: o conceito do probabile coloca no mesmo plano o que busca atingir o discurso do orador, aquilo em que se baseiam as decisões éticas e políticas e, de modo geral, aquilo que delimita as condições do exercício do julgamento e, dessa forma, da filosofia." [p. 57]

"Cícero separou a ética da física, retomando, mas num contexto filosófico completamente diferente, o gesto radical de Sócrates, que fez descer a filosofia do céu para instalá-la nas cidades: enquanto as filosofias dominantes faziam a ética depender da física, Cícero refletiu sobre a ética a partir do espaço político. À contracorrente dos métodos filosóficos que recomendam se apoiar nos princípios firmemente estabelecidos para codificar e prescrever as condutas, o caminho de Cícero tem como ponto de partida a observação, um importante lugar para a história e para os exemplos que ela transmite: trata-se de refletir sobre o homem tal como ele é, ou seja, tal como ele foi moldado pela comunidade humana à qual pertence, e tal como ele moldou a si mesmo nesse ambiente específico." [p. 130]