Lucas Mota: Boas meninas fazem o que bem entender

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Victor Hugo Cavalcante: Primeiramente muito obrigado por nos conceder esta entrevista e gostaria de começar perguntando: Recentemente você lançou o financiamento coletivo de seu próximo livro, Boas meninas não fazem perguntas, no qual imagina um futuro distópico onde mulheres são vendidas em lojas como se fossem um produto qualquer. De onde saiu esta ideia do tema?

Isso foi há muito tempo, na época eu estava envolvido com o movimento punk de Curitiba e publicava fanzines. Vi uma foto na internet com uma mulher nua deitada em uma bandeja de isopor e coberta por plástico, como se fosse uma bandeja de carne de mercado mesmo. Não sei de quem é aquela foto, mas a ideia de mulheres sendo comercializadas me saltou a mente no mesmo instante. Escrevi a primeira versão deste livro no mesmo dia, mas na época ainda era um conto.

Victor Hugo Cavalcante: Segundo nossa reportagem sobre o financiamento de seu novo livro, você fundou um projeto social chamado Resistência, nos fale mais sobre este projeto.

Trabalho com crianças e adolescentes da periferia de Curitiba. É um projeto educacional, queremos nos transformar em um centro de educação para a comunidade um dia. No momento trabalhamos com jogos de tabuleiro em eventos lúdicos e educativos além de oficinas artísticas que organizamos esporadicamente. Acreditamos que a educação pode trazer muitas mudanças para a comunidade, além de uma melhor autoestima para as crianças. Vale dizer que este é um projeto cristão. Acreditamos que nossa crença nos convida a uma postura de reação as injustiças do mundo e a Resistência é a nossa forma de reagir.

Victor Hugo Cavalcante:  Para você enquanto escritor e fundador da Resistência qual a importância de promover o desenvolvimento pessoal de crianças e jovens dos 7 aos 18 anos através de eventos socioculturais?

Eu diria que é fundamental. Não é a única forma de uma criança se desenvolver, é claro, mas certamente é uma boa opção e pode fazer toda a diferença na formação de alguém. Nosso projeto é preventivo, ou seja, ele visa impedir que as crianças se envolvam com a criminalidade de alguma forma. Ao invés de fazermos isso através de palestras chatas e teóricas simplesmente tentamos apresentar uma alternativa mais divertida com jogos, oficinas e eventos especiais. Cabe às próprias crianças escolher com o que elas querem se envolver. Na minha experiência, "bombardear" as crianças com eventos socioculturais é bastante efetivo, já que isso desperta a curiosidade e alimenta a imaginação de uma forma muito saudável.

Victor Hugo Cavalcante: Em 2016 você lançou o livro Todos os Mentirosos e em 2018 começou a publicar na Amazon uma série de contos de fantasia e ficção-científica intitulada Soundtrack. Fale-nos um pouco sobre cada livro.

O Todos os mentirosos foi meu livro de estreia. Fiquei dois anos trabalhando nele, foi uma verdadeira escola de escrita pra mim. Ele conta a história de um cara que descobre ter o poder de fazer com que todos digam a verdade. O conto que você mencionou se chama O destino de Ayra e foi minha estreia no gênero ficção científica. Fala sobre uma moça que trabalha sozinha em uma estação espacial até que um terrível acidente acontece, colocando em risco a segurança da estação, mas também revelando alguns segredos sinistros da empresa em que ela trabalha. Adorei escrever os dois, cada um teve sua importância na minha formação como autor. Qualquer um deles representa um pouco de quem eu sou como autor.

Victor Hugo Cavalcante: Para você além da temática proposta, quais poderiam ser as diferenças entre seu livro Boas meninas não fazem perguntas e Todos os mentirosos? Por quê?

Embora eu goste bastante do Todos os mentirosos, ele só é maior do que o Boas meninas não fazem perguntas em número de páginas. Em todos os outros aspectos, o segundo livro é maior. O texto é melhor e um pouco mais maduro, além da qualidade editorial que é superior em todos os sentidos. Tudo o que aprendi escrevendo o primeiro livro usei nesse segundo. Aproveitei para aprender umas coisas novas também, sinto que cheguei a um resultado muito interessante.

Victor Hugo Cavalcante: Você acredita que livros sobre futuros distópicos, tais como Boas meninas não fazem perguntas, Feios (Scott Westerfeld), Jogos Vorazes (Suzanne Collins ), entre outros são as safras boas da literatura atual?

Não li Feios ou Jogos Vorazes, mas concordo que existem muito bons livros sendo publicados na atual safra. Isso vale para livros brasileiros e estrangeiros, livros distópicos e de outros gêneros. Adorei escrever uma distopia, eu sou pessimista o suficiente pra gostar do gênero. (risos) Pra mim é uma honra poder colaborar para a ficção científica brasileira, mas não serei presunçoso de dizer que ele faz parte da boa safra atual. Os leitores podem julgar melhor do que eu.

Victor Hugo Cavalcante: Qual é a maior dificuldade que você enfrentou e ainda enfrenta nessa caminhada de escritor independente?

Divulgação. Essa palavra vale ouro para qualquer trabalho independente que você decida fazer. Aos poucos estou construindo minha base de leitores, mas sinto que meus livros ainda precisam chegar ao conhecimento de outras pessoas. Estou aprendendo a lidar com isso, mas confesso que pra mim é mais difícil do que escrever (risos).

Victor Hugo Cavalcante: Você possui um site chamado Suposto Escritor, onde escreve sobre vários assuntos culturais, nos fale mais sobre este site e o porque deste nome.

Esse site existe simplesmente para eu postar o que bem entender. É uma forma de falar com meus leitores nos intervalos de lançamentos. Eu gosto de escrever lá, mas a maior parte do meu tempo não é dedicada a ele. Usei esse nome de forma estratégica. Se um dia eu me tornar grande e tiver muitos leitores eu jamais posso deixar que isso me suba a cabeça. Eu não sou pior do que ninguém, mas o nome Suposto Escritor serve pra eu me lembre de nunca acreditar que eu sou melhor do que os outros. É uma tentativa de manter meu ego sob controle, devidamente aprisionado e sedado.

Victor Hugo Cavalcante: Para você, os temas debatidos em seu site de alguma forma ajudam na composição de ideias para histórias? Por quê? Quais seriam as diferenças entre escrever um livro e escrever artigos em sites?

Meu site quase nunca influencia em minhas histórias. São textos diferentes, para propósitos diferentes. Escrever literatura de ficção exige técnicas completamente distintas das usadas para se escrever textos para internet. São duas habilidades que tive que aprender com o tempo. Um bom blogueiro não necessariamente será um bom romancista e vice-versa. As duas habilidades precisam ser respeitadas e encaradas como coisas diferentes.

Victor Hugo Cavalcante: Quais são seus livros prediletos e quais são suas distopias favoritas da literatura? Você gostaria de viver em alguma delas? E quais são as diferenças entre os personagens centrais destas distopias literárias e você?

Eu fiz uma lista com as minhas 10 distopias favoritas em meu site. Vou citar a que ficou com primeiro lugar: 1984, do George Orwell. É um nível de pessimismo e crítica que me pegou de jeito (risos). É claro que não gostaria de viver em nenhuma distopia. Os personagens centrais da maioria das distopias clássicas e políticas como 1984, Admirável mundo novo, Fahrenheit 451, etc; costumam ser ingênuos e, aos poucos, começam a descobrir a verdade. A principal diferença entre eles e eu é que tenho consciência de que eu não sei nada e sou tão manipulado quanto o resto das pessoas. Não me iludo acreditando que tenho as respostas para nossos problemas.

Victor Hugo Cavalcante: Quais as diferenças principais entre o personagem central do Boas meninas não fazem perguntas para outros personagens centrais de outros livros que retratam um futuro distópico?

Essa é uma pergunta difícil, já que cada livro distópico tem uma proposta diferente. Posso dizer que as personagens centrais do meu livro estão em um processo de descoberta e sobrevivência e tem pontos de vista diferentes umas das outras sobre o que deve ou não ser feito. A maioria quer a mesma coisa, a única que assume querer algo diferente é Marina.

Victor Hugo Cavalcante: Quais as diferenças e semelhanças no jeito de agir e pensar entre Marina e você? E qual personagem do livro Boas meninas não fazem perguntas você mais se assemelha?

Eu posso dizer que tem duas personagens que se parecem comigo, por razões diferentes. Uma delas é a Marina, a outra é a Caterina, que é a minha favorita. Com Marina eu me identifico com a aversão a ter que seguir ordens. Não posso dizer o que eu e Caterina temos em comum porque isso poderia ser um pequeno spoiler, mas quem leu meu outro livro ou meu conto vai perceber imediatamente.

Victor Hugo Cavalcante: Dos livros que tratam de abuso contra a mulher, qual seu preferido?

Vou ter que "roubar no jogo" aqui e citar dois (risos). Hibisco roxo da Chimamanda Ngozi Adichie e Quem teme a morte da Nnedi Okorafor. A primeira é uma autora nigeriana, a segunda é americana mas também com ascendência nigeriana. O primeiro é um drama com elementos históricos. O segundo é um afro-futurismo da melhor qualidade. Ambos são livros com cenas difíceis, muito fortes e muito dramáticas. Os dois mostram tipos diferentes de abuso de uma forma muito sincera e visceral.

Victor Hugo Cavalcante: Quais as dificuldades que você está enfrentando durante este financiamento coletivo do livro Boas meninas não fazem perguntas no Catarse? Porque você decidiu fazer este financiamento ao invés de procurar editora?

A maior dificuldade é uma só: divulgação. O Facebook tem um algoritmo cretino que não mostra as postagens para seus amigos e seguidores a não ser que você pague por isso. Preciso muito contar com a ajuda dos familiares, amigos, colegas e conhecidos para ajudar o projeto a chegar às pessoas. Aliás, convido os que leem essa entrevista a se juntar a nós.

Decidi não enviar esse original a nenhuma editora porque este é um processo lento. Iria demorar muito para obter uma resposta que provavelmente seria negativa. A grande parte das editoras prefere publicar autores com um público já consolidado. Isso me deixa com duas opções: 1) esperar muito tempo por uma oportunidade em uma editora; 2) seguir de forma independente, construindo esse público aos poucos.
Achei que essa história merecia ser publicada logo e o Catarse me permitiu escolher a segunda opção.